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A logística de apoio à população da Amazônia no combate à pandemia de Covid-19

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BBC News Brasil

Vista aérea de kits de limpeza sendo entregues em comunidade à beira do rio

Leonardo Milano/Projeto Saúde e Alegria
Para entregar kits de limpeza para comunidades no Rio Arapiuns, é preciso fazer a entrega de barco

Em meio à pandemia de covid-19, o barco hospital Abaré, clínica móvel que faz atendimento ao longo do rio Tapajós, no Pará, estava mais ativo do que nunca.

Em uma das mais recentes viagens, dezenas de pessoas já haviam carregado o barco com toneladas de kits de limpeza que seriam distribuídos para comunidades ribeirinhas e indígenas. Criado pelo projeto Saúde e Alegria, hoje o barco é propriedade da Universidade Federal do Pará, a quem o projeto ajuda na administração do barco.

A tripulação estava a postos para deixar Santarém, mas, por causa da pandemia, faltava uma última medida: toda a tripulação precisava passar por testes rápidos de covid-19, para não correr o risco de levar a doença às comunidades atendidas.

A expectativa era que os testes dessem negativo, já que ninguém tinha sintomas aparentes. Mas, na última hora, o projeto descobriu que, de 11 tripulantes, 8 estavam com coronavírus.

Todos tiveram que desembarcar e ficar em isolamento, enquanto o pessoal do projeto corria para fazer toda a sanitização do barco e dos equipamentos e para encontrar outra equipe para tripular a embarcação e tentar manter a agenda de entregas, conta Caetano Scannavino, coordenador do Saúde e Alegria.

Levar atendimento médico e suprimentos às comunidades ribeirinhas e indígenas ao longo do rio Tapajós, no Pará, já não é uma tarefa fácil em épocas normais. Durante a pandemia de covid-19, o desafio é dobrado.

“Uma das coisas mais desafiantes se tratando de Amazônia e fazer a coisa chegar lá no interior do interior”, diz Scannavino.

Tripulação de barco transfere kits de limpeza e alimento para embarcação menor

Projeto Saúde e Alegria
Barcos grandes não chegam a alguns locais, que só podem ser acessados com lanchas menores

Fazer a distribuição de kits de limpeza sem gerar aglomeração não é fácil. Uma série de protocolos foram estabelecidos, como deixar os suprimentos na entrada das comunidades — com as próprias pessoas do local fazendo a distribuição.

Nas datas combinadas com antecedência, líderes das comunidades ficavam na beira do rio de madrugada esperando o barco chegar.

Um dos principais problemas causados pelo atraso devido à contaminação da equipe é que, sem sinal de celular e internet na região, era impossível avisar algumas das comunidades — o dia amanheceria, as pessoas ficariam esperando, mas o barco não chegaria.

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Com o acionamento de muitos contatos e pedidos de ajuda, o projeto conseguiu substituir a tripulação e fazer as entregas, ainda que com atraso.

“Perrengues como esse são a nossa vida”, conta Adriana Pontes, administradora do Saúde e Alegria. “É uma dificuldade muito grande, um desafio para a gente, ter que dar conta de tudo isso. Às vezes são três operações enormes de logística em um dia só.”

‘Areiões’ e baixo nível de água nos rios

Na pandemia, ante o objetivo de levar equipamentos de saúde aos locais mais remotos, onde não há UTIs e há pouca estrutura de saúde, há três principais desafios.

O primeiro é fazer os equipamentos chegarem a grandes centros, como Santarém. Boa parte do material vem de locais como São Paulo (como as cartilhas educativas) e alguns até foram importados. No início da pandemia, quando os voos estavam todos cancelados, essa dificuldade foi ainda maior.

“Contamos com a boa vontade de companhias aéreas como a Gol e de empresas como a Natura, que emprestaram caminhões. Também pegamos carona com o Exército”, conta Scannavino.

O segundo desafio é levar de polos como Santarém para as aldeias e comunidades.

Caminhão para sobre folha colocadas na estrada

Projeto Saúde e Alegria
Para resolver problemas logísticos, é preciso criatividade, como usar folhagem para desatolar caminhões

O Saúde e Alegria a ajudou a montar dois laboratórios remotos em aldeias munduruku e a distribuir 300 equipamentos de suporte à respiração montados a partir de máscaras de mergulho. Onde o transporte normalmente é feito com barcos e pequenas lanchas, levar equipamentos de suporte à respiração e laboratórios inteiros é um trabalho complexo.

A fundação Fundação Amazônia Sustentável (FAS), que nesta semana lançou uma série de vídeos no YouTube sobre as expedições de prevenção e enfrentamento à covid-19, levou uma série de equipamentos e kits de limpeza e alimentação para a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Juma. São oito horas de viagem de barco para chegar à reserva, mas mesmo de barco o acesso às comunidades não é garantido.

Isso porque no meio do ano, os níveis dos rios na Amazônia estão mais baixos, o que cria um desafio adicional para o transporte, explica Valcléia Solidade, superintendente de Desenvolvimento Sustentável da FAS. Ou seja, para chegar às comunidades mais distantes é preciso transferir tudo para canoas e pequenas lanchas.

E nem tudo é feito por rio. Para chegar à comunidade indígena de Montanha e Mongabal, no oeste do Pará, “são três dias na estrada, e muitas vezes os caminhões atolam no ‘areião’ (bolsões de areia seca)”, conta Adriana Pontes, da Saúde e Alegria. “Em agosto um caminhão ficou horas atolado no meio do caminho”, conta Pontes.

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Quando isso acontece, é preciso descer e procurar grandes folhas de árvores e palmeiras que possam ser colocadas embaixo do carros e caminhões para que eles consigam sair.

Se a temporada é de chuvas, a situação não melhora: o que era um areião vira uma poça enorme de lama.

“O terceiro grande desafio, que agora já melhorou, mas foi muito difícil no começo, foi adquirir insumos que começaram a faltar”, conta Scannavino.

Além dos kits de limpeza e alimentação, o projeto de Sacannavino também distribui outros suprimentos necessários em comunidades mais afastadas. Para os índios mundurukus em Jacareacanga, no extremo sudoeste do Pará, eles mandam material de pesca, como varas de pescar. O material vai de caminhão para a cidade de Itaituba, depois de rabeta (lancha pequena com motor) para a comunidade.

Projetos que fornecem esse tipo de equipamento e garantem “soberania” alimentar às comunidades são uma das prioridades de entidades em tempos normais, e durante a pandemia um dos desafios foi manter esse material chegando.

A entidade internacional Amazon Watch, através do fundo Amazon Defenders Fund (ADF), está apoiando justamente projetos assim: que possibilitem à comunidade a compra de materiais de pesca e agricultura, além de doação sementes orgânicas e construção de poços de água. Foram mais de 10 mil indígenas apoiados desde o início da pandemia.

União e apoio mútuo

Para enfrentar as dificuldades logísticas, projetos como o Saúde e Alegria e entidades como os Expedicionários da Saúde e o Greenpeace se unem e se ajudam mutuamente.

“Também mantemos contato e contamos com o apoio dos funcionários da Secretaria de Saúde Indígena que estão na ponta, que estão nas comunidades”, conta Scannavino.

“Tentamos dar um suporte direto ao sistema de saúde. A Amazônia foi o primeiro lugar a colapsar no Brasil por causa da pandemia justamente por falta de estrutura, por necessidade de atendimento acima do que a estrutura comporta.”

Dezenas de grupos com o interesse de ajudar a população da Amazônia em meio à crise de saúde pública — do Saúde e Alegria à entidade internacional Amazon Watch —contaram com o apoio da mesma entidade: os Expedicionários da Saúde.

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“Trabalhamos na Amazônia há 17 anos, então já conhecemos todos os agentes, os parceiros locais, líderes comunitários, o pessoal do ISA (Instituto Socio-Ambiental)”, conta Márcia Abdala, da coordenação dos Expedicionários. A instituição médica montou 12 enfermarias de campanha no alto Rio Negro, logo no início da pandemia, com a organização inteira feita a partir da Campinas, no interior de São Paulo.

Homem do povo yanomami com pintura tradicional coloca máscara descartável

Reuters
Os yanomamis em Alto Alegre, em Roraiama, vivem próximos à fronteira em comunidades de difícil acesso

Como o pessoal da ONG em Campinas não podia viajar por causa da pandemia, contou com voluntários para fazer a logística em diversas paradas até o destino final nas comunidades indígenas. As cargas foram para Manaus em aviões da Azul, e também contaram com caronas nos aviões da Força Aérea e do Greenpeace. Depois foram de barcos para São Gabriel da Cachoeira e de lá para as comunidades.

Para treinar os profissionais de saúde locais, gravações de cursos de capacitação foram feitas e colocadas em pendrives — já que muitos locais não contam com internet.

As enfermarias foram entregues completas, com tudo já pensado para cada localidade. “Tem muita dificuldade de acesso, então não adianta mandar o concentrador de oxigênio, que precisa de tomada, se o local não tem energia. A falta de um único prego pode impossibilitar toda uma operação”, conta Abdala. “Então a gente já manda gerador, alicate, fio, tomada, rede, tudo o que vai precisar.”

Os concentradores de oxigênio são essenciais, explica a Amazon Watch, que levou 40 concentradores juntamente com o Greenpeace os Expedicionários da Saúde aos mundurukus. “Esses equipamentos ajudam a amenizar os sintomas mais graves de crises respiratórias, evitando assim que os indígenas se desloquem até os grandes centros e fiquem expostos à contaminação”, diz a Amazon Watch.

É preciso entender a cultura e as necessidades de cada local também. A maioria das comunidades indígenas recebeu redes, mas povos do grupo je (como kaiapós e xavantes) não dormem em redes, então foram enviadas macas.

“A gente já tinha um projeto de logística pronto, e abrimos para todos, que foram se replicando pela Amazônia. É uma parceria de ajuda humanitária”, conta Márcia.


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Fonte: IG SAÚDE

Saúde

Comícios influenciaram aumento dos casos de Covid-19 no Amazonas, diz Vigilância

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covid-19
Foto: Mário Oliveira/SECOM

Pessoas caminham de máscara no centro de Manaus

O aumento de casos de Covid-19 em Manaus, no Amazonas, tem relação com o início da campanha eleitoral no Brasil. A informação foi divulgada pela diretora-presidente da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), Rosemary Pinto, em coletiva de imprensa na sede do Governo do Amazonas, Zona Oeste, nesta terça-feira (27).

Ontem (26), o Sindicato dos Médicos do Amazonas (Simeam) denunciou uma série de irregularidades no tratamento e internação de pacientes do Hospital 28 de Agosto, em Manaus. Vídeos gravados dentro da unidade mostram macas amontoadas, aglomeração entre pacientes e acompanhantes.

“Alguns estão indo a óbito, principalmente quem se expôs em comícios, passeatas e andanças, ou que tiveram contato com pessoas que frequentaram esses lugares”, explicou Rosemary Pinto. “Estamos vendo pessoas aglomeradas. A maioria não usa máscaras nesses eventos”, acrescentou.

Rosemary ressaltou que, em setembro, a FVS enviou recomendação ao junto ao Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) e fez uma consulta junto ao órgão sobre medidas para coibir aglomerações.

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O secretário estadual de Saúde Marcellus Campêlo anunciou medidas para desafogar a demanda no Hospital 28 de Agosto, como a transferência de pacientes para abertura de leitos e a realização de 180 cirurgias ortopédicas no período noturno.

“Existe um protocolo estabelecido em toda a rede de saúde. O quinto andar do hospital é destinado aos pacientes com a doença. Na sala rosa são levados os suspeitos para diagnóstico; em caso de confirmação, ele é transferido para o Delphina ou, se houver vaga, permanece no 28 de agosto”, explicou.

No Hospital Delphina Aziz, 60% dos leitos estão ocupados por pessoas em fase de recuperação de sequelas da Covid-19, como diabéticos e pacientes renais, alguns hospitalizados há mais de quatro meses. De acordo com o governador Wilson Lima, a terceira fase do plano de contingência já foi acionada em caso de necessidade de ampliação da estrutura.

Decreto prorrogado

O aumento de casos e de internações pelo novo coronavírus (Covid-19) em Manaus e nos municípios do interior do Amazonas resultaram na prorrogação por mais 30 dias do decreto que suspende o funcionamento de bares, praias, casas de shows, balneários e flutuantes no estado.

Durante o anúncio do prolongamento da medida, o governador Wilson Lima destacou que o aumento dos casos tem a ver principalmente com as campanhas políticas que tiveram início no Amazonas e causam aglomerações.

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“Os eventos políticos, convenções, reuniões, caminhadas, fizeram com que os casos aumentassem no interior. Também estamos tendo a antecipação do período chuvoso, o que aumenta a incidência de doenças respiratórias”, disse. “Todo esse cenário tem causado uma pressão sobre a nossa rede e tem feito com que algumas unidades cheguem a sua capacidade máxima”, revelou. 

Fonte: IG SAÚDE

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“Adoecemos cuidando de doentes, não porque fomos ao shopping”, diz médica

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BBC News Brasil

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Mariana Alvim – @marianaalvim – Da BBC News Brasil em São Paulo

‘Adoecemos cuidando de doentes, não porque fomos ao shopping’: o desabafo de médica com covid-19

“Tivemos uma guerra biológica, e os soldados nessa guerra fomos nós, profissionais de saúde. Nossa farda foi a máscara. Adoecemos, e alguns morreram nessa luta. E ninguém fugiu dela.”

“Mas nem o nosso hino a gente fez valer: ‘Verás que um filho teu não foge à luta’. Que mãe gentil é essa? O mínimo que merecemos é o reconhecimento de que caímos em serviço.”

As palavras desgostosas são da médica Priscila da Silva Daflon, 40 anos, que trabalha em Santa Catarina e procurou a BBC News Brasil através das redes sociais para relatar o que classifica como descaso do poder público e até da população na consideração ao esforço de pessoas como ela e colegas da equipe — profissionais de saúde e infectados com covid-19.

Para Priscila, o cúmulo da insatisfação veio em setembro, quando recebeu a resposta de um pedido de Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) feito à Prefeitura de Itajaí, da qual é funcionária concursada, trabalhando em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). Ela também trabalha, como autônoma, em uma unidade de atendimento infantil a serviço da Secretaria de Saúde do município.

A médica conta que foi infectada com covid-19 em julho, o que foi detectado por um teste rápido e também por seu quadro clínico — ela desenvolveu uma isquemia cardíaca, em que o fluxo de sangue e oxigênio para o coração fica prejudicado.

Ela ficou internada por alguns dias no quarto em um hospital com atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) — atualmente ela está em período de carência na aquisição de um novo plano de saúde, pago do bolso.

Mas o laudo respondeu a ela e a outros profissionais: “(…) Aos servidores que declararem terem sido contaminados pelo COVID-19 durante desempenho das funções laborais informamos que não serão emitidas CATs pela Coordenadoria de Perícia Médica e Saúde Ocupacional em virtude do diagnóstico de COVID-19 aos servidores públicos efetivos ou não, uma vez que não se tem como afirmar com absoluta convicção que esta doença foi adquirida em ambiente de trabalho”.

Citando uma lei federal que define acidentes de trabalho, o documento diz ainda que “se faz necessário a observação do nexo causal, pois o fato de o servidor ser diagnosticado com COVID-19 em meio a uma Pandemia não significa que automaticamente se trate de uma doença ocupacional, visto que, muitos servidores — principalmente da área de saúde — apresentam mais de um vínculo empregatício”.

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Referindo-se ao laudo como uma “ofensa”, Priscila reclama que cientificamente não é possível demonstrar a causalidade da infecção — ou seja, a conexão entre o momento da infecção e seu resultado, o adoecimento.

“É a prefeitura que tem que provar que fui contaminada em outro lugar. Nós profissionais de saúde somos por si só grupo de risco.”

‘Não fomos ao shopping’

O CAT pode ser um primeiro passo para acesso a auxílios via Instituto Nacional de de Seguridade Social (INSS) por problemas de saúde ligados ao trabalho, mas segundo a médica, ela estava em busca apenas da formalização, em papel, de que adoeceu.

Priscila reconhece que teve acesso adequado a Equipamentos de Proteção Individual (EPI) mas, mesmo assim, a exposição no local de trabalho é inevitável — “com um monte de paciente circulando, na hora de intubar”.

E, para ela, uma das evidências mais fortes de que não foi em outro lugar que se contaminou é o fato de que seu companheiro e a filha de 12 anos não tiveram covid-19. Já diversos colegas de trabalho na UPA, sim.

“Não adoecemos porque fomos ao shopping, à praia, a uma festa… Adoecemos porque estávamos cuidando dos doentes. E isso que é vergonhoso: não só o governo de Itajaí, mas também os estaduais, federal, deixarem de reconhecer que esses profissionais adoeceram lutando pela saúde do país”, lamenta.

Ela fala caracteriza também como um “soco no estômago” a decisão do governo federal em setembro de não incluir a covid-19 na lista de doenças ocupacionais — o que facilitaria o acesso ao auxílio-doença por meio do INSS, entre outras formas de assistência.

“Naquele momento, vimos que estávamos à nossa própria sorte”, lembra a médica, natural de Nova Iguaçu (RJ) e formada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), com pós-graduação em medicina da família pela mesma universidade.

Priscila tira selfie, com olhar sério, jaleco e estetoscópio

Arquivo pessoal
Médica atuando em Santa Catarina relata falta de acompanhamento de seu caso de infecção por covid-19

Em nota enviada à BBC News Brasil, a Prefeitura de Itajaí afirmou que “o servidor diagnosticado com COVID-19 deve comprovar que o seu vínculo empregatício é único e exclusivo com o Município de Itajaí para que a CAT seja emitida – uma vez que muitos servidores, principalmente os da área da saúde, atuam em mais de um local.”

“Entretanto, caso a CAT seja negada pelo município, o servidor efetivo pode ainda fazer a solicitação através do sindicato. Os servidores em regime CLT também podem fazer a solicitação via INSS ou sindicato.”

A Prefeitura destacou ainda que adotou diversas medidas para prestar assistência aos profissionais de saúde na pandemia: “treinamento das equipes; disponibilização completa de EPIs; testagem dos servidores; desinfecção de ambientes; medida provisória para concessão de benefício aos profissionais da linha de frente que têm filhos em idade escolar; central de monitoramento de pacientes positivos, negativos sintomáticos, negativos assintomáticos, idosos, idosos com doenças crônicas (incluindo os nossos servidores); e central de luto: acompanhamento psicológico de famílias que perderam entes queridos para COVID-19.”

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Pandemia e precarização do trabalho na saúde

Diferente da assistência que o município diz ter oferecido aos funcionários, Priscila Daflon afirma que não teve acompanhamento muito próximo do seu caso de infecção — tendo acesso apenas a testes rápidos e optando por fazer um teste molecular, o PCR, do próprio bolso.

Este deu negativo, segundo ela porque não foi feito no período em que a infecção estava mais ativa, e sim quando estava prestes a trabalhar — motivo pelo qual ela quis testar. Para avaliar se tinha condições de voltar a trabalhar, ela conta também ter consultado um infectologista por conta própria.

“Quem se preocupou em ir atrás de um diagnóstico, e depois de uma avaliação para retorno, fui eu. Depois de uma semana internada, voltei — cansada, com o corpo doendo, mas voltei, porque tinha muita necessidade de médicos naquele momento.”

Ela reconhece que, como funcionária do município, tem uma situação de emprego mais confortável do que muitos outros colegas na saúde — em que a “pejotização”, a contratação de profissionais como autônomos ou pessoa jurídica, é uma tendência reconhecida até mesmo por entidades de classe, como o Conselho Federal de Medicina (CFM).

Em abril, o conselho chegou a enviar ao Ministério da Saúde uma carta pedindo assistência financeira aos médicos infectados durante a pandemia, citando as vulnerabilidades com a pejotização como “a fragilidade do vínculo, a insegurança e a perda de direitos trabalhistas e previdenciários como o 13º salário, horas extras, adicional pelo trabalho noturno e insalubre, FGTS, licença maternidade, auxílio-doença, entre outros”.

“Nossa preocupação, neste momento, é garantir que os médicos possam enfrentar essa pandemia com de forma segura em diferentes aspectos”, argumentou o CFM. Não há notícias de que o pedido de tenha sido atendido.

Priscila cita os casos de colegas técnicas de enfermagem que ficaram gravemente doentes e precisaram de vaquinhas online para ir se tratar em outras cidades; e de um colega médico que também adoeceu seriamente e, tendo CLT e afastado com uma licença, teve a remuneração do município de Itajaí substituída por um salário pelo INSS, menor. Todos se recuperam pouco a pouco.

Segundo a prefeitura da cidade catarinense, “os servidores estatutários (efetivos) recebem a remuneração integral quando do afastamento por problemas de saúde, conforme previsto em estatuto próprio. Já os servidores da modalidade de contratação CLT seguem a regra previdenciária do INSS, ou seja, quando do afastamento por problema de saúde recebem a remuneração conforme o teto máximo do INSS”.

‘Situações traumatizantes’

A médica reconhece que a secretaria de saúde do município foi sensível em certos casos, fornecendo fisioterapia e atendimento com nutricionistas para alguns funcionários que adoeceram, mas fala em insensibilidade de setores como o administrativo, que está rejeitando pedidos de CAT.

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“Enquanto as prefeituras, as câmaras municipais, as próprias perícias trabalhavam de forma remota, nós não tivemos a opção de fechar. Só aumentamos nossa carga de trabalho e exposição. Mas estávamos todos lá, com medo, vínculo precário e todos esses riscos.”

“Passamos por sofrimento psicológico, por situações traumatizantes. Não estávamos acostumados a ver tantos pacientes sufocando, morrendo sem conseguir respirar. Essa pandemia trouxe nossos avós agonizando, quatro, cinco no mesmo plantão. Ver o olhar de um paciente indo para o tubo”, lembra a médica, se emocionando em alguns momentos da ligação.

Ao mesmo tempo, ela diz que o período da pandemia formou uma “rede de solidariedade” como “em poucas vezes na vida” viu igual — “de médico para médico, de médico para enfermeiro, de técnico para médico”.

Ela lembra por exemplo de uma anestesiologista que se voluntariou para dar uma palestra às equipes do município, ensinando formas de prevenir a infecção no contato com pacientes; e de um médico que se disponibilizou a ajudar no planejamento da compra de insumos para lidar com a pandemia.

Priscila menciona ainda uma rede de apoio formada entre profissionais para ajudar no transporte de colegas que adoecessem e precisassem de tratamento; e também pessoas que cancelaram férias não porque não podiam viajar, mas porque sabiam da demanda de trabalho.

“Eu via esses colegas correndo de um lado para o outro para ajudar alguém que ele nem sabe quem é. Cujo nome não faz diferença. É muito comum a gente encontrar as pessoas na rua depois e elas perguntarem: ‘Você lembra de mim? Você me ajudou tanto’. E a gente não lembra, porque são tantas pessoas.”

“Nós escolhemos esse contato quando fizemos o juramento profissional.”

Por outro lado, a médica confessa o desapontamento ao testemunhar como os pacientes, ou pacientes em potencial, vêm agindo na pandemia.

“Quando a população se aglomera, quando se coloca em risco em grupo, dá tristeza no nosso coração. Porque colocamos nossas famílias e filhos em risco por eles. Mas eles não se importam em se contaminar — e se se contaminarem, vão nos contaminar.”

“A gente não quer aplauso. Queremos que cada um entenda que quando se expõe desnecessariamente, é uma violência contra o profissional da saúde.”

Mas Priscila destaca também momentos em que o carinho das pessoas fez a diferença — como as cartinhas de agradecimento enviadas por uma igreja à equipe, ou a lanchonete próxima ao trabalho que abria excepcionalmente nas madrugadas para enviar alimentação aos profissionais de saúde.

“Isso deu um gás para a gente, aliviava o peso do nosso medo. Era muito legal o reconhecimento — nem toda remuneração é financeira.”

“Mas no início as pessoas estavam mais comovidas. Agora parece que quase voltamos à normalidade, que as pessoas perderam o medo.”

“Somente aplausos não vão ajudar os médicos e enfermeiros doentes. Não estou falando em dinheiro, mas do reconhecimento de que adoecemos lutando.”

Fonte: IG SAÚDE

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Saúde

Teste para Covid-19 com saliva pode ser feito em casa; resultado sai em 24h

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O exame usa o método PCR-Lamp (sigla em inglês de amplificação isotérmica mediada por loop)
Foto: Reprodução/Olhar Digital

O exame usa o método PCR-Lamp (sigla em inglês de amplificação isotérmica mediada por loop)

Um novo teste para detectar a Covid-19 está disponível no mercado brasileiro. A diferença é que o novo formato é feito por meio da saliva e pode ser realizado em casa. O lançamento do teste ocorre nesta terça-feira, 27, e estará disponível na capital e em algumas cidades da Região Metropolitana de São Paulo.

teste meuDNA Covid, voltado para detectar o vírus em sua fase ativa, custa R$ 169 e o resultado, que pode ser acessado pela internet, fica pronto em 24 horas. A amostra é colhida pela própria pessoa por meio de um kit comprado pela internet.

A nova tecnologia é fruto de uma parceria do laboratório Mendelics com o Hospital Sírio-Libanês. O laboratório tem a capacidade de realizar 110 mil testes por dia. “A gente está vendo o que está ocorrendo nos outros países, que saíram do primeiro pico e veio um segundo. Enquanto não tiver uma vacina, tem de se preparar para esse ciclo. O risco de passar adiante sem querer e saber é significativo. Ter um teste acessível, fácil de colher, prático, contribui muito para reduzir o risco”, diz David Schlesinger, CEO da healthtech meuDNA e da Mendelics, em entrevista ao jornal Estado de São Paulo.

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O exame usa o método PCR-Lamp (sigla em inglês de amplificação isotérmica mediada por loop), que identifica o RNA do vírus nas células da pessoa infectada.

Ainda segundo Cesário Martins, diretor da healthtech meuDNA, os testes são similares. “Ele responde se está infectado no momento, técnica semelhante ao PCR, e tem a mesma especificidade, de 99%, e sensibilidade, de 80%.”

Ao Estado de São Paulo, Martins destaca que o novo teste foi pensado para que a pessoa possa fazer sem necessidade de deslocamento. “O kit chega em casa e o nosso app chama o coletor que vai levar ao laboratório. Dependendo do horário em que a pessoa solicitar, vai recebê-lo no mesmo dia ou no dia seguinte.” 

Fonte: IG SAÚDE

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