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Tratamento precoce: os dados que apontam a falta de eficácia contra a Covid-19

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Tratamento precoce | 'Kit covid é kit ilusão': os dados que apontam riscos e falta de eficácia do suposto tratamento
André Biernath – Da BBC News Brasil em São Paulo

Tratamento precoce | ‘Kit covid é kit ilusão’: os dados que apontam riscos e falta de eficácia do suposto tratamento

Durante a Peste Negra que assolou a Europa no século 14, os médicos recorreram aos mais diversos “tratamentos” para lidar com as doenças. Alguns apostaram numa técnica de esfregar cebolas ou carne de cobra nos furúnculos que apareciam na pele. Outros sugeriam que os pacientes sentassem perto de fogueiras ou de fezes para expulsar a doença do corpo.

Mais recentemente, quando a gripe espanhola de 1918 se espalhou pelos continentes, também não faltaram terapias milagrosas para lidar com a crise sanitária. Alguns especialistas lançaram fórmulas à base de formol, canela e até flores de jasmim amarelo para “curar” a doença que matou milhões de pessoas no mundo todo.

O mesmo cenário volta a se repetir agora, durante a pandemia de covid-19. Em meio a um número crescente de casos e mortes, parte dos médicos, parte da população e até o Ministério da Saúde defenderam um suposto tratamento precoce contra o coronavírus cuja eficácia não foi comprovada até o momento.

Segundo diversos estudos rigorosos realizados ao redor do mundo, medicamentos que integram esse “kit covid” ofertado nas fases iniciais da doença no Brasil já se mostraram inclusive ineficazes ou até mais prejudiciais do que benéficos quando administrados nos quadros leves, moderados e graves de covid-19.

Ao longo dos últimos meses, diversas entidades nacionais e internacionais se posicionaram contra o coquetel de medicamentos promovido pelo governo Bolsonaro, que inclui a hidroxicloroquina, a azitromicina, a ivermectina e a nitazoxanida, além dos suplementos de zinco e das vitaminas C e D.

Atualmente, esse mix farmacológico não é reconhecido ou chega a ser contra-indicado por entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos e da Europa, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Mas antes de entrar nos detalhes sobre como tantas instituições chegaram a essa conclusão de que esses remédios não são eficazes e de que não existe tratamento precoce que funcione contra a covid-19, é importante explicar como surge um novo remédio contra determinada doença e como esse processo pode ser acelerado durante uma pandemia.

Da bancada do laboratório à prateleira da farmácia

coronavírus visto por um microscópio

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Uma série de etapas científicas devem ser respeitadas até que uma substância possa ser indicada para um tratamento

Geralmente, a descoberta de um novo tratamento se inicia com a pesquisa básica. Um grupo de cientistas começa a estudar uma molécula para entender suas características e seus potenciais de uso.

Essa substância, então, é testada num pequeno conjunto de células na bancada do laboratório. O objetivo aqui é entender se as coisas funcionam como o esperado e se aquele composto tem alguma ação interessante dentro de um sistema biológico simples.

Se tudo der certo, a próxima etapa inclui testes com cobaias. A nova molécula é administrada em camundongos, macacos e outros animais que apresentam algumas características semelhantes ao que ocorre no corpo humano.

Caso a candidata apresente bons resultados, ela passa para a nova etapa: os testes clínicos. Esses estudos são divididos em três fases, envolvem centenas ou até milhares de seres humanos e têm como objetivo final garantir a segurança e a eficácia daquela nova formulação.

O teste clínico de fase 3 costuma ser o mais rígido e amplo de todos. Para comprovar que aquele novo medicamento é realmente bom, os cientistas dividem os voluntários em pelo menos dois grupos.

O primeiro deles toma doses do remédio de verdade. Já o segundo vai receber uma substância placebo (sem nenhum efeito no organismo) ou o melhor tratamento existente até aquele momento contra a doença que o novo candidato a farmáco promete combater.

O ideal é que nem os cientistas, muito menos os participantes do estudo, saibam quem integra qual grupo. Isso evita vieses ou o chamado efeito placebo, quando a pessoa se sente melhor por acreditar que foi tratada, mesmo quando recebeu um comprimido de farinha.

O que acabamos de descrever aqui é um estudo randomizado (os voluntários são sorteados para entrar em um esquema terapêutico ou no outro), duplo cego (os participantes e os cientistas não fazem ideia de quem recebeu o quê) e controlado (uma parte do grupo tomou placebo ou a melhor terapia disponível até então). É considerado o padrão-ouro das pesquisas.

Seringa e medicamento

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Agências regulatórias, como a Anvisa no Brasil e o FDA nos Estados Unidos, precisam aprovar o uso de medicamentos para doenças

Depois de todo esse rito, os resultados dos dois grupos são comparados. O esperado é que a turma sorteada para tomar o candidato à medicamento esteja melhor em relação a quem fez parte do grupo placebo. Também é essencial que a nova molécula não provoque efeitos colaterais graves demais.

Os relatos de todo esse esforço são então publicados num jornal científico, onde eles passam por uma revisão de especialistas independentes e, caso sejam aprovados, poderão ser lidos, contestados e repetidos por outros grupos de pesquisa em qualquer lugar do mundo.

Se os resultados forem bons, os donos daquele novo produto entram com um pedido de aprovação nas agências regulatórias, como a Anvisa no Brasil e o FDA nos Estados Unidos. Se essas entidades estiverem de acordo com o que foi apresentado, elas liberam o uso do novo medicamento no país.

Para você ter ideia como esse processo é complicado e criterioso, de cada 5.000 moléculas testadas em células e cobaias, apenas uma consegue passar por todas as etapas e chegar às farmácias e aos hospitais. Esse processo dura, em geral, 12 anos e exige um investimento de US$ 2,6 bilhões.

Dá pra acelerar esse processo?

É claro que, durante uma pandemia que ceifa milhares de vidas todos os dias, torna-se impraticável esperar mais de uma década para encontrar uma solução.

Uma estratégia que permite agilizar as coisas é o chamado reposicionamento de fármacos. Em resumo, os cientistas começam a avaliar um monte de remédios já disponíveis para tratar outras doenças. Quem sabe eles também não podem ajudar num contexto diferente?

“É possível pegar vários medicamentos aprovados e utilizar uma plataforma automatizada para fazer testes com culturas de células. Assim já se descartam aquelas que não mostraram efeito algum e se delimita um grupo de moléculas que apresentam algum potencial”, explica o microbiologista Luiz Almeida, coordenador de projetos educacionais do Instituto Questão de Ciência.

Esse processo funciona como uma peneira: o objetivo é descartar o material que não tem serventia e selecionar, mesmo que grosseiramente, aqueles que podem ajudar de alguma maneira.

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O reposicionamento traz algumas vantagens. O principal deles é o fato de trabalhar com produtos que já estão aprovados pelas agências regulatórias e, portanto, já se mostraram relativamente seguros à saúde humana.

Importante mencionar que, para comprovar o seu valor diante de qualquer enfermidade, os remédios (mesmo os reposicionados) precisam passar por aqueles estudos randomizados, duplo cegos e controlados que explicamos um pouco acima.

E isso tudo aconteceu com intensidade a partir de fevereiro e março de 2020: quando diversos especialistas notaram a gravidade da covid-19, houve uma verdadeira corrida para conferir se algum produto farmacêutico já aprovado poderia servir como solução.

Foi assim que hidroxicloroquina, azitromicina, ivermectina e tantas outras candidatas entraram na história da pandemia de covid-19.

Hidroxicloroquina, uma droga apadrinhada por Trump e Bolsonaro

Bolsonaro bebe copo de água com comprimido de hidroxicloroquina

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Em transmissão ao vivo para milhares de pessoas, Bolsonaro tomou um comprimido de hidroxicloroquina

O potencial da hidroxicloroquina contra a covid-19 começou a ser explorado a partir de um pequeno trabalho publicado na China. Mas ela só ganhou as manchetes com a publicação de um estudo feito pelo médico francês Didier Raoult e por sua equipe.

Divulgada em março de 2020, a pesquisa envolvia 36 pacientes e afirmava que o remédio, usado no tratamento de doenças como malária, lúpus e artrite reumatoide, era capaz de diminuir a carga de coronavírus no organismo.

E mais: de acordo com as conclusões do experimento, esses benefícios eram ainda maiores se a azitromicina (um antibiótico) fosse administrada em conjunto.

Apesar da esperança inicial, os cientistas rapidamente começaram a notar que havia algo muito estranho nessa história. “A publicação do artigo foi muito criticada, pois estava cheia de erros metodológicos e coisas sem explicação”, relembra o médico Jose Gallucci-Neto, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Em setembro, Raoult foi denunciado pela Sociedade de Patologia Infecciosa de Língua Francesa (SPILF) por “promoção indevida de medicamento”. Agora em janeiro, o médico admitiu numa carta ter excluído alguns voluntários do resultado da pesquisa.

“Ao avaliar esses dados completos, com esses participantes que ficaram de fora do artigo original, o resultado da hidroxicloroquina é negativo e não houve redução de mortalidade, necessidade de UTI ou oxigenação”, completa Gallucci-Neto.

Mesmo com essas suspeitas iniciais e as correções posteriores, o estrago já estava feito. Ainda no primeiro semestre de 2020, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, bancou a ideia de Raoult. O então presidente escreveu que a hidroxicloroquina “deveria ser colocada em uso imediatamente, pois pessoas estão morrendo”.

As convicções de Trump encontraram ressonância em outro ponto do continente americano, mais especificamente no Brasil. O presidente Jair Bolsonaro também fez ampla defesa do uso da hidroxicloroquina contra a covid-19.

Embalagem de hidroxicloroquina

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Estudos mostraram que a cloroquina e a hidroxicoloroquina não são eficazes no combate ao coronavírus

No dia 21 de março, ele publicou um vídeo no Twitter intitulado “Hospital Albert Einstein e a possível cura dos pacientes com o covid-19”, em que anuncia que o laboratório químico e farmacêutico do Exército Brasileiro iria ampliar a fabricação desse medicamento.

Ao longo dos meses, não faltaram demonstrações de apoio à hidroxicloroquina. Bolsonaro levou o fármaco a tiracolo em diversos vídeos e transmissões ao vivo.

A hidroxicloroquina também foi um dos motivos centrais da queda de dois ministros da Saúde. Os médicos Luiz Henrique Mandetta (que dirigiu o ministério entre 1º de janeiro de 2019 a 16 de abril de 2020) e Nelson Teich (que liderou a pasta de 17 de abril a 15 de maio de 2020) saíram após pressões e discordâncias sobre o uso amplo desse medicamento para combater a pandemia no país.

Mas o que diz a ciência sobre a hidroxicloroquina ?

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil entendem que era até compreensível usar a hidroxicloroquina nos momentos iniciais da pandemia, em meados de março, abril e maio de 2020 — afinal, os médicos estavam tateando no escuro e lidavam com uma doença sobre a qual não havia experiência nenhuma.

A partir de junho e julho, porém, começaram a ser publicados estudos mais robustos a respeito do tema. Eles mostravam que esse remédio realmente não funcionava em qualquer estágio da doença, seja antes do início dos sintomas, seja no leito de uma UTI.

“Atualmente, temos uma enorme quantidade de evidências mostrando que a hidroxicloroquina não é efetiva como tratamento da doença nos quadros graves, nos leves ou como profilaxia, para impedir que o vírus invada nossas células”, afirma a pneumologista brasileira Letícia Kawano-Dourado, que faz parte do painel da Organização Mundial da Saúde (OMS) que desenvolve diretrizes de tratamento contra a covid-19.

Nos últimos meses, vários estudos foram publicados a respeito do tema. Um dos mais importante deles foi feito no Reino Unido e é conhecido como Recovery Trial . Numa análise de mais de 4.500 pacientes hospitalizados, o uso de hidroxicloroquina e azitromicina não trouxe benefício algum.

O mesmo resultado foi observado na pesquisa da Coalizão Covid-19 Brasil , com cerca de 500 voluntários brasileiros com a infecção pelo coronavírus em estágios leves ou moderados. Mais uma vez, a dupla de fármacos não mostrou o efeito desejado.

Além disso, os tratamentos testados foram associados a efeitos adversos mais frequentes, principalmente aumento do chamado intervalo QT, um sinal de maior risco para arritmia detectado por eletrocardiograma; e aumento de enzimas TGO/TGP no sangue, alteração que pode indicar lesão no fígado.

Segundo documento da Sociedade Brasileira de Infectologia, outros efeitos adversos são retinopatias, hipoglicemia grave e toxidade cardíaca. Por isso, é “exigido contínuo monitoramento médico dos indivíduos em uso da cloroquina ou hidroxicloroquina”. E outros efeitos colaterais possíveis são diarreia, náusea, mudanças de humor e feridas na pele.

Numa nota informativa publicada em seu site , a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) também orienta sobre ineficácia do uso desse esquema terapêutico:

“As evidências disponíveis sobre benefícios do uso de cloroquina ou hidroxicloroquina são insuficientes, a maioria das pesquisas até agora sugere que não há benefício e já foram emitidos alertas sobre efeitos colaterais do medicamento. Por isso, enquanto não haja evidências científicas de melhor qualidade sobre a eficácia e segurança desses medicamentos, a Opas recomenda que eles sejam usados apenas no contexto de estudos devidamente registrados, aprovados e eticamente aceitáveis.”

Kawano-Dourado conta que o uso do fármaco contra o coronavírus é um assunto superado na maioria dos lugares. “A hidroxicloroquina e outras representantes do tratamento precoce seguem em pauta apenas em alguns países subdesenvolvidos, como Brasil, Índia, Costa do Marfim e Filipinas.”

Donald Trump

WIN MCNAMEE/GETTY IMAGES
Trump foi um dos primeiros a promover uso da cloroquina

Ivermectina, o antiparasitário que virou a bola da vez

A partir do segundo semestre, a ivermectina passou a disputar espaço como outra promessa contra a covid-19. Tudo começou a partir de um estudo experimental com células, em que esse remédio usado contra infestações de vermes, parasitas e ácaros mostrou ter poder de fogo contra o coronavírus.

O problema, mais uma vez, estava em sua origem. A dose utilizada neste trabalho inicial era absolutamente irreal. Alguns cálculos posteriores mostraram que, para obter o mesmo efeito visto na bancada do laboratório, seria necessário dar a seres humanos dosagens de ivermectina dez vezes superiores ao limite considerado seguro.

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Em outras palavras, tudo indica que a quantidade necessária de ivermectina para “matar” o coronavírus num cenário real de infecção representaria um risco de efeitos colaterais gravíssimos e overdose nas pessoas.

Porém, ao contrário da hidroxicloroquina, cuja ineficácia contra a covid-19 está bem demonstrada pelos estudos publicados até o momento, a situação da ivermectina é de incerteza.

Por aqui, ainda inexistem aqueles estudos randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo sobre os quais falamos mais acima.

Os resultados das pesquisas feitas até agora ficam, então, contraditórios. Uma delas, do Centro Internacional de Doenças Diarreicas de Bangladesh , por exemplo, até revela uma diminuição da carga viral dos pacientes com covid-19, sem que isso resulte numa melhora significativa dos sintomas.

Um trabalho do Instituto de Saúde Global de Barcelona, na Espanha indica que o uso da ivermectina aliviou um pouco os incômodos da infecção num grupo de voluntários tratados. Mas os próprios autores admitem a necessidade de testes clínicos maiores para confirmar as observações.

Como pode ser visto, essas investigações são muito pequenas, com poucos participantes, e não têm significado prático. Tanto que as principais entidades de saúde do mundo, como os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA , não indicam o uso dessa droga como tratamento da covid-19.

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Isso porque os estudos sobre o papel do antiparasitário são inconclusivos e os cientistas estão conduzindo investigações maiores para descartar ou recomendar seu uso durante a pandemia.

Portanto, não se recomenda que esse medicamento deva ser usado no atual estágio.

Azitromicina, sem efeitos em pacientes graves e risco de superbactérias

Em setembro de 2020, um estudo de pesquisadores brasileiros publicado na Lancet, a segunda revista médica mais influente do mundo, afirmou que a azitromicina não leva a melhoras em pacientes hospitalizados e, portanto, não tem indicação de uso para casos graves.

Os pacientes foram divididos aleatoriamente em dois grupos — 214 deles receberam azitromicina mais o tratamento padrão, e outros 183 receberam apenas o tratamento padrão, sem azitromicina. O tratamento padrão, feito em ambos os casos, incluía a hidroxicloroquina, pois naquela época — entre março e maio — seu uso estava sendo bastante frequente.

Não houve diferença entre os dois grupos em relação a número de óbitos nem ao tempo de internação.

“Gostaríamos muito que tivesse funcionado, porque é um medicamento barato, conhecido e normalmente bem tolerado na questão dos efeitos colaterais”, disse Luciano Cesar Pontes de Azevedo, médico do Hospital Sírio-Libanês e parte da equipe que assina o artigo no Lancet, em entrevista à BBC News Brasil na época da publicação.

Ele esperava que, com os resultados, pelo menos a azitromicina deixasse de ser receitado indiscriminadamente no tratamento para covid-19, o que poderia levar a falta do medicamento para quem precisa e também aumento da resistência de bactérias. Isto porque a função original da azitromicina é de antibiótico, muito usado em infecções bacterianas nas chamadas vias aéreas superiores, como no nariz e garganta.

Nitazoxanida: da fama instantânea ao ostracismo imediato

Comprimidos azuis e brancos sobre uma mesa

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Muitas pessoas têm ignorado a falta de evidências científicas sobre eficácia da ivermectina ou da nitazoxanida contra covid-19

De um dia para o outro, o vermífugo nitazoxanida ganhou os holofotes no Brasil como uma possível solução contra a covid-19.

No dia 19 de outubro de 2020, Bolsonaro e o ministro de Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, anunciaram um estudo que mostrava que essa droga poderia ser útil como tratamento precoce.

Alguns dias depois, os resultados dessa pesquisa foram publicados no periódico científico European Respiratory Journal. De acordo com os especialistas ouvidos pela reportagem, as conclusões do teste foram consideradas muito fracas e sem nenhuma aplicação prática.

Prova disso é que, hoje em dia, a nitazoxanida nem faz parte do protocolo do já questionável tratamento precoce que foi encampado pelo Ministério da Saúde brasileiro.

Dexametasona, um dos poucos que vingaram

Nem só de fracassos vive a estratégia de reposicionamento de fármacos contra a covid-19. Há pelo menos um medicamento já conhecido que mostrou seu valor nos quadros graves da infecção pelo coronavírus.

Falamos aqui da dexametasona, representante da classe dos corticoides, muito usada contra doenças de pele, enfermidades reumatológicas, asma e alergias.

Um estudo capitaneado pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, revelou que esse medicamento é um aliado valioso para os quadros que necessitam de internação.

“Em alguns pacientes, a infecção pelo coronavírus desencadeia uma forte reação inflamatória do organismo. Isso, por sua vez, passa a afetar diferentes órgãos e pode até causar a morte”, contextualiza o médico Momtchilo Russo, professor sênior do Departamento de Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP).

A dexametasona entra justamente nessa situação. Ela ameniza a pane inflamatória que se instala em parte dos quadros agravados de covid-19.

Que fique claro: esse corticoide não é um tratamento precoce e nem deve ser usado por todo mundo que se contamina. Os médicos avaliam caso a caso e prescrevem esse fármaco de acordo com critérios muito bem estabelecidos.

Um grupo anti-‘kit covid’ que só cresce

O avanço da ciência ao longo dos últimos meses permitiu que muitas entidades adotassem posturas contundentes contra a adoção do tratamento precoce ou do “kit covid”.

No Brasil, um dos primeiros órgãos a se posicionar foi a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). Em junho de 2020, a entidade produziu o primeiro documento analisando a pouca evidência científica disponível de alguns remédios, como a hidroxicloroquina.

Ao longo dos meses, a SBI atualizou esses pareceres e adotou uma posição muito firme contra o tratamento precoce. Em seu último informe, publicado no dia 19 de janeiro, a sociedade reafirma:

“As melhores evidências científicas demonstram que nenhuma medicação tem eficácia na prevenção ou no ‘tratamento precoce’ para a covid-19 até o presente momento. Pesquisas clínicas com medicações antigas indicadas para outras doenças e novos medicamentos estão em pesquisa. Atualmente, as principais sociedades médicas e organismos internacionais de saúde pública não recomendam o tratamento preventivo ou precoce com medicamentos, incluindo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), entidade reguladora vinculada ao Ministério da Saúde do Brasil”.

O médico Clóvis Arns da Cunha, presidente da SBI, relata que a repercussão dos posicionamentos fez com que ele próprio e vários membros da entidade fossem atacados pelas redes sociais e chegassem a receber até ameaças de morte. “Isso exigiu muita resiliência de nossa parte e fez com que nos uníssemos e nos apoiássemos ainda mais”, diz.

Cunha também se incomoda com a falta de respaldo de outras entidades ao longo de 2020. A Associação Médica Brasileira (AMB) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) não chancelaram os posicionamentos da Sociedade Brasileira de Infectologia e não se manifestaram contra o tratamento precoce e o “kit covid”.

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O Conselho Federal de Medicina chegou a dizer que caberia a cada médico decidir individualmente se prescreveria ou não hidroxicloroquina, ivermectina e afins.

Na última semana, o Conselho Federal de Medicina soltou uma nota à imprensa afirmando que muitas dessas drogas “não contam com reconhecimento internacional”.

Já a Associação Médica Brasileira teve uma mudança de diretoria a partir de janeiro de 2021. Os novos gestores da associação deram indicativos de que terão uma postura mais ativa a partir de agora — seu novo presidente, César Eduardo Fernandes, coassina o informe da Sociedade Brasileira de Infectologia citado acima.

A BBC News Brasil tentou entrar em contato com CFM e AMB, mas nenhuma das entidades respondeu aos pedidos de entrevista.

Posição sem respaldo científico do governo federal

A despeito de todas evidências científicas e do posicionamento de entidades nacionais e internacionais, o Ministério da Saúde e algumas secretarias estaduais e municipais de saúde insistiram no tratamento precoce — embora o aplicativo do Ministério que recomendava o tratamento precoce tenha saído do ar recentemente.

No dia 16 de janeiro, o Twitter colocou um alerta de informação duvidosa em uma mensagem postada pelo Ministério da Saúde. O texto dizia: “Para combater a covid-19, a orientação é não esperar. Quanto mais cedo começar o tratamento, maiores as chances de recuperação. Então, fique atento! Ao apresentar sintomas da covid-19, #NãoEspere, procure uma Unidade de Saúde e solicite o tratamento precoce”.

Ao ser perguntado sobre o assunto durante uma coletiva de imprensa, o ministro Eduardo Pazuello disse que era preciso diferenciar o tratamento precoce do atendimento precoce.

“Nós defendemos, incentivamos e orientamos que a pessoa doente procure imediatamente o posto de saúde. Que procure o médico e ele faça o atendimento clínico e o diagnóstico precoce dos pacientes. Tratamento é uma coisa, atendimento é outra”, respondeu o general.

No entanto, uma breve análise de outras falas de Pazuello confirma que ele insistiu no tratamento precoce diversas vezes e nos mais variados contextos.

Poucos dias antes de o sistema de saúde de Manaus entrar em colapso, o ministro esteve na cidade com assessores e um comitiva de médicos justamente para falar com as autoridades locais a respeito do assunto.

Numa análise sobre a crise sanitária na capital amazonense, Pazuello afirmou: “Manaus não teve a efetiva ação no tratamento precoce com diagnósticos clínicos, no tratamento básico. Isso impactou muito a gravidade da doença”.

Cunha, da SBI, rebate: “Eles levaram o kit ilusão, o kit covid, que desde junho todas as sociedades médicas científicas e autoridades sanitárias do mundo sabem que não funciona. Eles deveriam oferecer oxigênio, UTI e mais pessoas para tratar o querido povo de Manaus. Isso foi a gota final de quão errado o ministério estava.”

Na última semana, o lançamento do aplicativo TrateCov também gerou uma série de polêmicas. A plataforma do Ministério da Saúde serviria para orientar profissionais da saúde sobre as melhores condutas nos pacientes com sintomas sugestivos de covid-19.

O problema era que o app, que já foi retirado do ar, indicava as drogas do “kit covid” até diante dos sintomas mais simples, que na maioria das vezes melhoram com o passar do tempo.

A BBC News Brasil procurou o Ministério da Saúde para entrevistas, mas até o fechamento da reportagem não recebeu nenhuma resposta.

Efeitos imediatos (e para o futuro)

Mas qual o problema em usar esses medicamentos todos como prevenção ou tratamento precoce contra a covid-19?

Em primeiro lugar, o uso desse coquetel dá uma falsa sensação de segurança. As pessoas podem sentir que estão protegidas por conta das medicações e relaxar nas medidas que realmente funcionam, como uso de máscara, distanciamento físico e lavagem de mãos.

“Além disso, muitos desses comprimidos e cápsulas podem provocar efeitos colaterais importantes se usados de forma inadequada”, alerta a médica Irma de Godoy, presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia.

Há ainda uma preocupação específica com o uso indiscriminado da azitromicina, um tipo de antibiótico usado em infecções bacterianas como a gonorreia e a pneumonia.

Com tanta gente utilizando esse remédio sem necessidade, isso pode acelerar o processo de resistência antimicrobiana — quando os micro-organismos criam mecanismos para “driblar” o tratamento e continuarem vivos.

Tudo indica que, no futuro, a azitromicina e outros antibióticos não serão mais capazes de acabar com essas infecções e elas voltem a ser mortais.

“Recentemente, a OMS soltou um alerta de aumento de casos de resistência bacteriana pelo uso excessivo de antibióticos como a azitromicina. Isso cria, por exemplo, quadros de ‘supergonorreia’ em que não há tratamento”, adverte a médica Viviane Cordeiro Veiga, coordenadora de UTI da BP-A Beneficência Portuguesa de São Paulo e participante da Coalizão Covid-19 Brasil.

Cuidar na medida certa

Os especialistas relatam que, ao se posicionarem publicamente contra o tratamento precoce, costumam ouvir sempre o mesmo argumento: “Mas eu conheço pessoas que tomaram hidroxicloroquina ou ivermectina e melhoraram”.

Mulher com jaleco branco checa medicamentos em prateleira

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Antes de tomar um medicamento, consulte seu médico

O médico Leonardo Weissmann, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, esclarece que cerca de 80% das pessoas que pegam covid-19 têm formas leves, que regridem em poucos dias independentemente de qualquer tratamento.

Há um segundo contraponto comum nas redes sociais. Muitos pacientes que estão com sintomas menos graves não se conformam com a orientação de “só” ficar em casa isolados, sem necessidade de nenhum comprimido específico. Eles temem uma piora, como o aparecimento de falta de ar e uma posterior necessidade de intubação no hospital.

“Nos primeiros dias de covid-19, é importante medir a oxigenação por meio do oxímetro, um aparelhinho facilmente encontrado nas farmácias. Se acontecer uma diminuição do oxigênio no sangue, busque uma orientação médica”, indica Weissmann.

De resto, quadros leves da infecção pelo coronavírus exigem repouso, boa hidratação e, se necessário, medicação para sintomas como febre e dor no corpo. Caso os incômodos persistam ou apareça a falta de ar, é hora de ir até o pronto-socorro.

O que se sabe hoje…

Por fim, vale mencionar que a ciência é o campo das verdades provisórias. Isso significa que amanhã, ou daqui a um mês, podem surgir trabalhos que comprovem a eficácia e a segurança de alguns medicamentos em determinadas doses para os estágios iniciais da doença.

“Nenhum médico ou entidade é contra o conceito de tratamento precoce, desde que ele realmente funcione”, esclarece Godoy, que também é professora da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Enquanto não aparecem novidades farmacológicas contra a pandemia (e não há uma boa parcela da população vacinada), nos resta seguir respeitando as medidas de proteção, como o uso de máscaras, o distanciamento físico, a limpeza das mãos e a preferência por ambientes bem arejados.


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Fonte: IG SAÚDE

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AstraZeneca pode ter de fornecer menos vacinas à União Europeia

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Olhar Digital

Covid-19: AstraZeneca pode ter de fornecer menos vacinas à União Europeia
Igor Shimabukuro

Covid-19: AstraZeneca pode ter de fornecer menos vacinas à União Europeia

A farmacêutica AstraZeneca deve entregar menos da metade das vacinas contra a Covid-19 prometidas à União Europeia (UE) no segundo trimestre deste ano. A informação foi divulgada por um oficial do bloco europeu à Reuters , na terça-feira (23).

Na semana passada, a exposição do contrato entre a empresa e o bloco revelou que a farmacêutica havia se comprometido a entregar 180 milhões de doses do imunizante ao bloco entre maio e junho de 2021. Agora, em reuniões internas, o laboratório teria dito que “entregaria menos de 90 milhões de vacinas no segundo trimestre”. A fonte é um oficial da UE que está diretamente envolvido nas negociações e falou sob anonimato.

Questionado pela Reuters , um porta-voz da AstraZeneca não negou a fala do oficial, mas afirmou que a empresa trabalha para entregar todas as vacinas prometidas. Mais tarde, a farmacêutica divulgou um comunicado para informar que vai expandir a produção fora do bloco europeu para cumprir o contrato e entregar 180 milhões de doses do imunizante para a UE.

Menos vacinas não devem comprometer calendário

Apesar da provável redução do fornecimento de vacinas da AstraZeneca, o oficial da UE informa que as metas de vacinação do bloco não devem ser afetadas. Isso, claro, se as entregas de outros fornecedores forem cumpridas — os imunizantes da Pfizer e da Moderna também já sofreram atrasos.

Isso não muda, porém, o fato de que o volume prometido pela AstraZeneca deve ficar bem aquém do esperado. A farmacêutica se comprometeu a entregar, ao todo, 300 milhões de doses de vacina no primeiro semestre de 2021. Agora, pode ser que o total não ultrapasse 130 milhões.

É possível que novas mudanças no calendário ocorram até o meio do ano, mas os contratos da UE estipulam que a farmacêutica se comprometa a cumprir o prazo determinado. “Estamos revisando continuamente o cronograma de entrega e informando a Comissão Europeia semanalmente sobre planos de trazer mais vacinas para a Europa”, finaliza a AstraZeneca.

Fonte: IG SAÚDE

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Saúde

Sequelas da Covid-19 podem persistir por longo prazo até em casos leves

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Fadiga e perda do olfato ou paladar foram os sintomas mais comuns, mas problemas para respirar e confusão mental também foram relatados por alguns
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Fadiga e perda do olfato ou paladar foram os sintomas mais comuns, mas problemas para respirar e confusão mental também foram relatados por alguns

Uma pesquisa publicada na última semana no periódico médico Jama Network mostrou que 30% dos participantes de um estudo ainda relatavam sintomas da Covid-19 nove meses após contrair o vírus. A pesquisa indica que a maior parte dos indivíduos acompanhados tiveram casos leves da doença. 

Conduzido por pesquisadores da Universidade de Washington, o trabalho analisou 177 pessoas de Seattle com infecções confirmadas de Covid-19. O acompanhamento de três a nove meses após o diagnóstico (com média de seis meses) é o tempo mais longo já efetuado nos EUA.

A maioria dos participantes, 150 pessoas ou 85% do grupo de estudo, tiveram um caso leve de Covid-19 e não precisaram ser internados; 11 participantes (6%) eram assintomáticos e 16% foram hospitalizados. Os resultados mostraram que 32,7% dos pacientes com casos leves e 31,3% dos hospitalizados relataram pelo menos um sintoma persistente que durou no mínimo três meses após o diagnóstico.

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Entre os principais sintomas estão fadiga, perda do olfato ou paladar, problemas para respirar e confusão mental. 

Um total de de 51 pacientes ambulatoriais e hospitalizados (30,7%) confirmaram uma piora na sua qualidade de vida relacionada à saúde. Quatro participantes saudáveis e pacientes assintomáticos (12,5%) relataram melhora na qualidade de vida relacionada à saúde, enquanto 14 pacientes (7,9%) reclamaram de impacto negativo em pelo menos uma atividade da vida diária.

Veja Mais:  Ministério da Saúde orienta reserva de metade de lote da CoronaVac para 2ª dose

Uma das constatações do estudo de Seattle foi “que as consequências para a saúde após a Covid-9 se estendem muito além da infecção aguda, mesmo entre aqueles que apresentaram doença leve”. Dos 30% que relataram uma deterioração em sua qualidade de vida, 8% alegaram dificuldades com as tarefas diárias, principalmente domésticas.

A autora principal do estudo, dra. Helen Chu, afirmou em um comunicado que “você pode se sair bem no início, mas depois, com o tempo, desenvolve sintomas que são bastante incapacitantes em termos de fadiga”. 

O que ainda não ficou claro para os pesquisadores é por quê algumas pessoas desenvolvem esses sintomas mais persistentes, chamados às vezes de “Covid longo”. “É algum tipo de ativação imunológica, algum tipo de inflamação ou o desenvolvimento da autoimunidade?”, questiona a dra. Chu.

Fonte: IG SAÚDE

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Um ano de Covid no Brasil: os bastidores da descoberta do primeiro caso oficial

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Um ano de coronavírus no Brasil: os bastidores da descoberta do primeiro caso oficial
André Biernath – Da BBC News Brasil em São Paulo

Um ano de coronavírus no Brasil: os bastidores da descoberta do primeiro caso oficial

O infectologista Fernando Gatti estava descansando em casa quando seu celular tocou por volta das 20h do dia 24 de fevereiro de 2020, uma segunda-feira de Carnaval.

Do outro lado da linha, um médico que trabalhava no plantão do pronto-socorro do Hospital Israelita Albert Einsten, na zona sul de São Paulo, tinha uma pergunta importante: ele deveria ou não pedir um teste de covid-19 para um paciente que apresentava sintomas de gripe e tinha acabado de voltar de uma viagem à Itália?

Gatti, que é coordenador médico do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do Einstein, não teve dúvidas, e orientou seu colega a realizar o exame.

Em poucas horas, já no dia 25, o laudo deu a notícia que todo o Brasil sabia que viria, mais cedo ou mais tarde: o primeiro caso de covid-19 havia sido oficialmente detectado no país.

Mas antes de entrar nos detalhes desta história, é preciso retroceder algumas semanas para entender qual era o clima e o contexto no Brasil e no mundo.

Casa arrumada para o caos

As primeiras notícias sobre uma “pneumonia misteriosa” que estava afetando algumas partes da China começaram a surgir na mídia internacional no final de dezembro de 2019.

A informação de que a doença era causada por um novo tipo de coronavírus foi transmitida por cientistas chineses e divulgada a partir do dia 8 de janeiro de 2020.

Rapidamente, a cidade de Wuhan, capital da província de Hubei, foi identificada como epicentro da crise sanitária e teve seus aeroportos, portos, ferrovias e rodovias bloqueadas, numa tentativa de conter a disseminação do agente infeccioso.

Mas já era tarde demais: logo apareceram casos em outras partes da China e o agente infeccioso foi identificado em países próximos, como Japão e Tailândia.

Wuhan

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Primeiro caso de uma ‘pneumonia por causa desconhecida’ foi registrado em Wuhan no início de dezembro de 2019

Os episódios de covid-19 se espalharam rapidamente para outros continentes e foram detectados na Europa e na América do Norte.

Portanto, havia a certeza quase absoluta que o vírus chegaria em algum momento ao Brasil ainda no primeiro trimestre de 2020.

“E nós sabemos que o público que utiliza os serviços do Einstein e de outros hospitais particulares costuma fazer muitas viagens internacionais, então já imaginávamos que o primeiro caso poderia ser diagnosticado aqui”, aponta Gatti.

Foi justamente pensando nessa possibilidade que o infectologista liderou uma verdadeira força-tarefa para organizar a instituição para o que viria pela frente.

“Desde o início de janeiro de 2020 nós fizemos treinamentos para deixar toda a equipe preparada e reforçamos os estoques de equipamentos de proteção, como as máscaras, os aventais, as luvas, os óculos e o face shield”, lembra.

Segundo Gatti, outra decisão importante foi a de ampliar a suspeita de covid-19 para todos aqueles que tivessem feito viagens internacionais e apresentassem sinais sugestivos de uma infecção respiratória.

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“Naquele momento, a Organização Mundial da Saúde só preconizava a realização de exames para aqueles indivíduos com sintomas que tinham retornado da Ásia”, diz.

A orientação para todos os médicos que faziam plantões no Einstein era uma só: ligar para o Serviço de Controle de Infecção Hospitalar caso tivessem qualquer dúvida sobre a necessidade de fazer o teste para detectar o novo coronavírus nos pacientes que ingressavam pelo pronto-socorro da instituição.

O primeiro de 10 milhões

E esse protocolo foi seguido à risca naquela noite de 24 de fevereiro.

Poucas horas depois, já na madrugada do dia 25/02, Gatti recebeu uma nova ligação em seu telefone: o Laboratório de Biologia Molecular do Einstein havia concluído a análise da amostra de material colhida do paciente e tinha encontrado o novo coronavírus ali.

Entre janeiro e fevereiro, os cientistas da instituição haviam examinado cerca de 20 a 30 casos suspeitos por semana, mas todos voltavam com resultados negativos.

A virologista Rúbia Anita Santana, coordenadora do Setor de Biologia Molecular do Einstein, se recorda da dificuldade em encontrar materiais e insumos num momento em que as informações sobre o novo coronavírus estavam absolutamente desencontradas.

“Não existia no mercado nenhum kit de detecção pronto. Nós tivemos que desenvolver um novo produto do zero, para estarmos preparados quando a doença chegasse no Brasil”, conta.

Santana mal sabia que, passados alguns meses dessas primeiras experiências, ela e sua equipe precisariam fazer até 80 mil testes de covid-19 ao mês. “Reestruturamos completamente nosso espaço e nosso fluxo de trabalho. Foi muito desafiador”, destaca.

Ao receber a informação do laudo positivo, Santana, Gatti e a equipe do laboratório repetiram o exame novamente, para ter certeza de que não havia acontecido algum percalço no procedimento ou algum problema nos equipamentos do laboratório.

“Esse segundo teste foi processado durante a madrugada e, na manhã do dia 25, eu já estava no hospital quando ficamos sabendo que o resultado era mesmo positivo”, diz o infectologista.

Após a confirmação, o imunologista Luiz Vicente Rizzo, diretor do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, ficou responsável por levar a notícia ao alto comando do hospital.

“O protocolo já estava pronto e, quando o resultado saiu, as lideranças foram notificadas para seguir com o plano de divulgação”, descreve.

Antes de comunicar a imprensa e a sociedade, porém, as amostras do paciente foram enviadas para o Instituto Adolfo Lutz, que é o laboratório referência para a análise de doenças infecciosas no Estado de São Paulo.

Uma terceira rodada de testes, que se alongou pela tarde e pela noite da terça-feira (25/02), confirmou mais uma vez que se tratava mesmo do primeiro caso de covid-19 no Brasil.

O anúncio oficial foi feito no dia seguinte, na manhã da quarta-feira de cinzas, 26 de fevereiro, por Luiz Henrique Mandetta, o então ministro da Saúde.

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“Agora, com o primeiro caso confirmado no Brasil, vamos ver como o vírus vai se comportar em um país tropical em pleno verão. É um vírus novo, que pode ou não manter o mesmo padrão de comportamento de transmissão que tem no hemisfério norte, com o frio”, discursou Mandetta naquele dia.

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No mesmo evento, o então ministro da Saúde também descartou a possibilidade de fechar as fronteiras ou fazer testagem em aeroportos. “[Isso] não tem eficácia nenhuma, porque os pacientes podem ter o vírus sem apresentar sintomas. Essa é mais uma doença que a humanidade vai ter que enfrentar.”

Vale dizer, no entanto, que o caso identificado no Einstein, como descrito acima, foi o primeiro detectado de forma oficial.

Estudos posteriores divulgados a partir de maio de 2020 mostraram que o vírus já circulava pelo país muito antes dessa data — e se aproveitou das aglomerações e da falta de medidas de restrição para criar cadeias de transmissão Brasil adentro.

Evoluções e recaídas

À época, o primeiro diagnosticado com covid-19 no Brasil estava com 61 anos, morava em São Paulo e havia retornado de uma viagem pela Itália, onde permanecera entre os dias 9 e 21 de fevereiro.

A situação da Itália, mais especificamente na região da Lombardia, foi bastante dramática nos primeiros meses da pandemia. Cenas de caminhões militares transportando caixões pelas ruas da comuna de Bergamo foram um dos símbolos mais fortes da crise de saúde pública que abateu a Europa naquele momento.

Com incômodos como tosse, febre, dor de garganta e coriza, o paciente foi avaliado pelos médicos do Einstein e, como não apresentava sinais de complicação, acabou liberado para seguir o tratamento em casa, com orientações de quarentena bastante restritas.

Seu estado clínico era checado várias vezes ao dia por meio de conversas telefônicas e mensagens de WhatsApp.

“Uma semana depois, ele precisou ser internado porque a febre persistia. Durante a hospitalização, nós encontramos uma pneumonia bacteriana, que costuma ser um quadro associado a covid-19 em cerca de um terço dos casos”, estima Gatti.

Caminhões do exército italiano em comboio pelas ruas de Bergamo, na Itália

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Em Bergamo, na Itália, caminhões do exército foram recrutados para recolher os caixões dos mortos pela covid-19 e levá-los até os cemitérios e crematórios de cidades próximas

Após o tratamento adequado, a infecção nos pulmões acabou controlada e logo a alta hospitalar foi dada.

Gatti lembra que o paciente se mostrou bastante incomodado com a cobertura jornalística de sua condição de saúde. Ele sentia que as reportagens o apontavam como culpado por trazer a covid-19 ao Brasil — e hoje em dia não há dúvidas que o coronavírus já circulava por aqui antes de 26/02 e teve múltiplas entradas no país, com vários passageiros que retornaram já infectados de viagens internacionais.

O outro lado do consultório

Mas as complicações após o primeiro diagnóstico não se limitaram ao paciente. O médico também acabou sentindo abalos na própria saúde.

“Em março, eu tive um episódio de burnout e precisei tirar uma licença do trabalho durante dez dias”, revela Gatti.

Burnout é uma enfermidade psiquiátrica marcada pelo completo esgotamento físico e emocional que impede a pessoa de trabalhar ou fazer qualquer atividade.

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O infectologista diz que parte de sua condição se deveu à frustração de lidar com uma doença nova, em que não havia conhecimento suficiente para oferecer o melhor tratamento a quem precisa de ajuda.

“Nós perdemos muitas vidas e é muito difícil comunicar a família. Depois de cada dia, sempre ficava pensando o que podia ter feito de diferente, de melhor, e não encontrava respostas”, comenta.

A crise só foi superada graças ao apoio psiquiátrico. “Nós precisamos falar mais sobre o esgotamento e a sobrecarga de trabalho que afetam todos os profissionais de saúde que estão na linha de frente da pandemia”, alerta Gatti.

Um ano depois, as lições

Passados 12 meses do primeiro diagnóstico oficial, o Brasil contabiliza mais de 10,2 milhões de casos e quase 250 mil mortes pela covid-19.

Até o momento, o Brasil é o país com o segundo número mais alto de óbitos de todo o mundo e o terceiro na quantidade de infectados em números absolutos.

Mas o que será que um ano de pandemia nos deixou de ensinamento? A BBC News Brasil fez essa pergunta para os três profissionais que estiveram envolvidos com o episódio dos dias 24, 25 e 26 de fevereiro de 2020.

Para Rizzo, a covid-19 escancarou a necessidade de investimentos na ciência colaborativa dentro do Brasil e no mundo.

“Enquanto cientistas, precisamos estar mais abertos para trabalhar em conjunto e entender que é impossível viver sem pesquisa. Se nós tivéssemos mantido os estudos sobre o Sars-CoV, o vírus causador da Síndrome Aguda Respiratória Grave (Sars) de 2003, talvez hoje entendêssemos um pouco melhor o coronavírus atual e já tivéssemos tratamentos para ele”, analisa.

O especialista destaca a façanha do desenvolvimento de uma vacina em menos de um ano e do esforço para estudar e conhecer os possíveis efeitos de diversos medicamentos contra a covid-19.

Santana sublinha a necessidade de lidar com o imprevisível e, de certa maneira, estar preparado para isso.

“O coronavírus fez a gente voltar ao jardim de infância da virologia e reaprender muito do que sabíamos sobre doenças infecciosas. Ele tem características únicas, muito diferentes daquilo que já tínhamos visto”, raciocina.

Por fim, Gatti entende que a comunicação e o trabalho em equipe foram decisivos para salvar muitas vidas.

“A pandemia deixou ainda mais nítida a noção de que a saúde não depende só do médico. A equipe multidisciplinar composta de enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, nutricionistas e os demais profissionais é decisiva para a melhora do paciente”, defende o infectologista.

No cenário em que a vacinação contra a covid-19 está disponível e sinaliza que a pandemia acabará (num futuro ainda distante), os exemplos do passado recente nos permitem lembrar o início de um ano que mudou o Brasil e o mundo para sempre.

Fonte: IG SAÚDE

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