Mato Grosso
De pau a pique a concreto, Catedral do Senhor de Bom Jesus é símbolo de transformação
Situada às margens do rio que dá nome a cidade, a tricentenária capital de Mato Grosso tem entre a sua gente um povo repleto de histórias, devoção e fé. A sede do catolicismo está localizada bem no centro histórico do município.
Ao longo de 300 anos, a Catedral de Cuiabá passou por diversas transformações. Tudo começou em 1722, quando bandeirantes ordenados pelo fundador da Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, Pascoal Moreira Cabral, saíram em busca de frutas, mel silvestre e outros insumos para levar ao grupo que estava fixado às margens do rio Coxipó. Por sorte ou acaso, o grupo que buscava apenas saciar a sua fome foi responsável pela descoberta de uma grande quantidade de ouro.
Com a força da igreja católica e o consenso popular de que em território da igreja ninguém poderia mexer, os expedicionistas iniciaram a edificação de uma simples capela, com paredes feitas de taipa de pilão e cobertas com folhas de palha. Em uma das bandeiras, a imagem de um santo foi trazida por famílias da vila de Sorocaba, hoje cidade do Estado de São Paulo. A imagem do Bom Jesus foi levada a nova igreja que acabou recebendo o nome do santo.
Frequentada pela elite cuiabana, segundo a historiadora Leila Borges de Lacerda, a igreja passou por novas modificações. Em 1771, a simples capela de pau a pique recebeu novos contornos com a construção de uma torre no estilo colonial e fachada semelhante à da atual Igreja do Rosário. A criação da igreja se misturou ao crescimento de Cuiabá.
A historiadora Leila Borges Lacerda explica que as mudanças na Igreja Matriz se entrelaçam com a própria história de Cuiabá
Santo fujão
Os sequestros da imagem do Bom Jesus de Cuiabá deram origem a muitas novenas por parte do devoto povo cuiabano. Para alguns historiadores seus três sumiços tiveram relevante significado para a edificação da segunda fachada da Igreja Matriz. O povo devoto a Bom Jesus fez uma promessa: caso o santo fosse encontrado e recuperado, a igreja que o abriga seria condizente com sua grandeza.
Em uma tapera, na região que hoje situa a cidade de Camapuã, no Estado de Mato Grosso Sul, o santo fujão foi resgatado por um grupo de desbravadores a procura de ouro. Escoltado por uma guarnição de 40 homens, a imagem do Bom Jesus de Cuiabá subiu rio acima e retornou para o contentamento de seus fiéis.
Em festa, ao som de cânticos e fogos, o povo cuiabano comemorou o regresso do padroeiro da cidade em procissão da zona portuária até a igreja, relata o historiador e padre da Arquidiocese de Cuiabá, Felisberto Samoel da Cruz.
O Padre e historiador da Arquidiocese de Cuiabá, Felisberto Samoel da Cruz, narra momentos peculiares
De acordo com os registros históricos, em 1922 o governador de Mato Grosso, Mário Correia da Costa, promoveu grandes mudanças na cidade. Entre elas, a modificação no estilo do antigo Largo da Matriz, que hoje é a Praça da República, e no seu entorno que receberam esculturas angelicais e nova jardinagem.
Para Leila de Lacerda, o prédio da Catedral foi considerado por muitos como antiquado, não condizente com a beleza da obra executada pelo governador Correia da Costa. Foi por esse motivo que, em 1929, a segunda torre foi erguida dando ares mais imponentes à construção.
“A alteração feita era de um estilo completamente diferente da Catedral colonial. Houve uma certa pressão pela urbanização desse espaço porque mexeu no jardim, fez toda a balaustrada do Palácio [da Instrução], do Tesouro do Estado, urbanizou-se todo esse pedaço e a Catedral ficou acanhada”, afirma Leila.
A demolição
Com a substituição do Bispo Dom Aquino pelo Bispo Dom Orlando Chaves, em 1956, ideais modernistas defendidos pelo novo Bispo e por parte da população voltaram à tona. Utilizando como justificativa a possível queda da Catedral a qualquer momento, Dom Orlando Chaves tomou a decisão de mandar demolir a Catedral Bom Jesus de Cuiabá. A demolição ocorreu no ano de 1968.
“Foram dinamitadas a parte da frente e dos fundos por serem as partes mais fortes. As laterais eram feitas de adobe e quando foi retirado o gancho toda a estrutura foi ao chão”, conta o padre Felisberto.
De pau a pique a concreto
Alguns anos mais tarde, com contornos mais modernos e com seu famoso mosaico do Bom Jesus de Cuiabá e suas imponentes torres já erguidas, com um relógio em cada, a obra da Catedral de Cuiabá foi concluída sendo reinaugurada em 1973.
“A capela que recebeu o nome do Bom Jesus do Cuiabá, assim chamada na época, agrega a sua volta toda a sedimentação de poder tanto metropolitano como municipalista. E com o passar dos anos ela se expande, ela cresce”, salienta a historiadora Leila Lacerda.
A igreja que tem o título de Catedral Metropolitana Basílica do Senhor Bom Jesus tem uma representatividade muito grande para Cuiabá e seu povo. Uma das maiores celebrações religiosas, a procissão em homenagem ao Divino Espírito Santo, tem seu início nas portas da Catedral.
Localizada no mesmo ponto desde a sua primeira construção, a Catedral por diversas vezes foi o motivo e a representatividade para muitas das transformações vividas pela Cidade verde. De pau a pique a sua edificação de concreto, a igreja guarda memórias que levaram a metrópole tricentenária a se tornar a Cuiabá que todos conhecem, e que há tempos vem sendo abençoada por Bom Jesus a cada pôr do sol.
Mato Grosso
Júri é remarcado depois que defesa abandona plenário em julgamento de filho de ex-deputado

A sessão de julgamento de Carlos Alberto Gomes Bezerra, acusado pelo feminicídio de Thays Machado e pelo homicídio qualificado de Willian Cesar Moreno, foi remarcada para o dia 31 de julho, às 9h, após a defesa abandonar o plenário nesta terça-feira (21). Mais uma vez, os advogados tentaram o adiamento do julgamento, o que foi indeferido pela juíza Monica Catarina Perri Siqueira, presidente da sessão, sob o argumento de que não havia justificativa plausível para a redesignação da data.
Segundo a magistrada, os advogados tiveram um prazo de 15 dias para analisar os documentos juntados aos autos. Ela ressaltou que a maior parte dessas informações já constava no processo e que a alegada falta de acesso a um despacho específico sobre prisão domiciliar não acarretaria prejuízo real, uma vez que a decisão sobre o tema também integra os autos.
“O advogado, quando assume a substituição no processo, o recebe no estágio em que ele se encontra. O processo não recua, ele tem que andar para a frente”, afirmou Monica Perri. Após anunciar a nova data do júri, a magistrada determinou que, caso não haja um advogado constituído apto para atuar na sessão, a Defensoria Pública deverá estar preparada para assumir a defesa na data prevista. Todos os presentes saíram intimados do plenário.
A acusação seria conduzida pelos promotores de Justiça Vinicius Gahyva Martins e Élide Manzini de Campos, integrantes do Núcleo de Defesa da Vida do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT). O réu era defendido pelos advogados Elson Marcelino da Silva Júnior, Larice Cristine, Melissa de Oliveira Machado e Gabriel Gouvea Neno Reiff.
Manobra – Ainda no plenário, o promotor de Justiça Vinicius Gahyva Martins sustentou que o acesso a processos externos é responsabilidade da defesa e que as questões relacionadas ao habeas corpus e à prisão domiciliar já foram resolvidas, não havendo justificativa para o adiamento do júri. Ele destacou o papel do Ministério Público como fiscal da lei, com a missão de assegurar direitos e preservar a imagem das vítimas perante a coletividade. Também se posicionou contra o abandono do plenário, ressaltando que a realização de um Tribunal do Júri exige o empenho e a presença de diversos envolvidos, inclusive pessoas que se deslocaram de outros estados, e que a “ritualística do tribunal” deve ser respeitada em busca da verdade.
Vinicius Gahyva disse ainda que o abandono do plenário é uma estratégia que acaba por arranhar a imagem do Tribunal do Júri. “Isso tem se tornado, de certo modo, frequente nos julgamentos do Tribunal do Júri, especialmente naqueles que afligem de forma intensa o interesse da coletividade, como é o caso concreto de um feminicídio e de um homicídio de dois jovens. São duas pessoas que, efetivamente, traduzem a necessidade de reafirmarmos o nosso papel social de não banalização da vida humana. Nós sabemos que o Tribunal do Júri envolve uma série de providências que devem ser adotadas para que o ato processual seja realizado, e lamentamos muito que esse tipo de estratégia esteja sendo adotada”, afirmou.
A promotora de Justiça Élide Manzini de Campos lembrou que o julgamento já deveria ter ocorrido no dia 7 de julho. Segundo ela, naquela ocasião, a defesa solicitou o adiamento para análise de provas, pedido que foi deferido pela magistrada responsável pelo caso, com a remarcação da sessão para 21 de julho. “É um absurdo uma medida protelatória após mais de três anos do fato, com a família aguardando o julgamento. A defesa admite alegações de nulidades que não existem e que já foram completamente afastadas. É uma estratégia utilizada para tentar postergar, prorrogar e até abrir outro incidente de sanidade, ou qualquer outra medida, para que esse julgamento não ocorra. Tudo isso já foi afastado, e não há motivo algum para que esse julgamento não aconteça”, afirmou.
Sobre o caso de feminicídio, a promotora destacou que a reação da sociedade demonstra uma rejeição cada vez mais firme a esse tipo de crime. Segundo ela, a população tem se posicionado de forma clara contra a violência de gênero e em defesa do enfrentamento aos feminicídios, cobrando respostas efetivas do sistema de Justiça para coibir esse tipo de violência.
Fotos: Josi Dias | TJMT
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