Nacional
“A fome me preparou para a dor”, diz jovem que perdeu couro cabeludo em kart
Resiliência não é uma palavra forte o suficiente para descrever o comportamento de Débora Stefanny Dantas de Oliveira . Não à toa ela ganhou notoriedade e tem hoje mais de 160 mil seguidores no Instagram. Débora conta sua história com a naturalidade de quem não conhece a vida sem obstáculos. “A fome me preparou para a dor”, disse ao ser perguntada sobre o que sentiu quando teve todo o couro cabeludo arrancado em um acidente de kart.
No dia 11 de agosto deste ano, dia dos pais, Débora foi com seu namorado, Eduardo Tumajan, a sogra e a enteada andar de kart em uma pista que fica no estacionamento do supermercado Walmart, na região de Boa Viagem, no Recife. Era a primeira vez de todos, que seguiram os procedimentos de segurança e, animados, tiraram fotos dos preparativos. Mas o passeio terminou em tragédia quando o cabelo de Débora se soltou da touca que usava por baixo do capacete, prendeu na corrente do motor e foi puxado, levando junto seu couro cabeludo . Seu crânio ficou exposto das sobrancelhas até quase a nuca.
Débora conta que ao perceber que estava coberta de sangue, colocou a mão na cabeça e entendeu o que tinha acontecido. Sua primeira reação foi um grito, mas logo em seguida respirou fundo e começou a raciocinar sobre o que deveria ser feito. Saiu do kart e da pista para evitar que algum outro carro batesse nela e se deitou de bruços, para que caso desmaiasse, não fraturasse o crânio, que ela já sabia que estava exposto.
Seu namorado se aproximou, desesperado, e a própria Débora começou a dar instruções sobre o que deveriam fazer. Ela se manteve acordada e calma até ser levada para o centro cirúrgico, algumas horas mais tarde. Débora se lembra de todos os momentos e conta tudo com serenidade. “Escutava os gritos das pessoas em volta. Criança vomitando, gente gritando e correndo”. No hospital, enquanto aguardava para ser atendida, vários médicos se surpreenderam ao perceber que ela estava consciente.
Ela diz não ter sentido dor na hora, em função da adrenalina do momento. Enquanto estava no carro a caminho do hospital, porém, disse que o sofrimento era intenso. “Eu disse ‘pelo amor de deus, alguém me dá um sedativo que eu tô começando a sentir muita dor. Aí eles me deram morfina”, relata sobre sua chegada ao hospital. “A parte mais desesperadora foi quando eles tentaram deitar minha cabeça na maca, aí eu gritava”, completa.
Apesar da gravidade, a calma vista no calor do momento se manteve. Por causa do trauma, ela foi atendida por psiquiatras e psicólogos, mas foi liberada por todos. Débora conta que nunca teve medo de morrer ou das sequelas. “O meu maior medo nunca foi o problema estético, foi se esse acidente poderia me impedir de ser médica”.
Segundo ela, a única vez que sentiu medo de verdade foi quando pensou que poderia perder a visão, mas depois que o oftalmologista disse que estava tudo bem ficou tranquila. Nas cirurgias posteriores, manteve o otimismo. “Nunca fui triste para o centro cirúrgico, nunca tive medo de que ia dar errado”.
Hoje, Débora e Eduardo fazem duras críticas aos procedimentos de segurança da pista de kart . Eles relatam que não receberam nada para que ela prendesse o cabelo, que a touca usada era grande demais e que ao pedirem para usar macacões de corrida foram desencorajados por um funcionário. “Não era para o motor estar exposto, não era a balaclava certa, não era para o meu cabelo soltar. Não é normal, tava errado”, diz Débora, que está tomando medidas judiciais, mas busca um acordo.
Sofrimentos em hospitais virou sonho de salvar vidas
O acidente do dia 11 de agosto não foi a primeira dificuldade da vida de Débora. Aos 19 anos ela acumula uma grande quantidade de obstáculos, todos abordados com uma leveza surpreendente. Ao contrário do que se pode esperar, Débora não se ressente da própria sorte.
A menina de Paulista, na Grande Recife , foi abandonada pelos pais biológicos assim que nasceu. Ela foi criada pelos avós, a quem chama de pais. O pai-avô, porém, morreu quando ela tinha apenas oito anos de idade.
Pouco depois, sua mãe-avó ficou doente. Elas se mudaram para a capital em função das constantes internações e tratamentos de dona Lindalva Maria da Silva. Débora conviveu desde muito nova com a rotina de um hospital, o que também explica seu sonho de cursar medicina.
Em 2016, quando tinha apenas 16 anos, sua avó também morreu e ela se viu sozinha. Na época, morava com outros filhos adotivos de dona Lindalva, com quem nunca teve uma boa relação. Ao longo de sua vida, porém, Débora também encontrou alguns anjos. Uma delas foi uma tia de consideração que a deixou morar em sua casa, que não estava sendo ocupada por ninguém, em troca de que Débora cuidasse do imóvel.
No ano seguinte, sua vida estava mais ou menos estabilizada. Ela fala com animação do período em que, ainda com dificuldades, tinha foco total na realização de seus sonhos. “2017 foi um super ano da minha vida! Eu espero que o ano que vem seja assim, e eu vou fazer de tudo para ser”, diz. Débora estava no terceiro ano do ensino médio, que cursava na parte da tarde. De manhã trabalhava como assistente administrativa em um hospital e de noite fazia um cursinho pré-vestibular, que ela usava o salário quase inteiro para pagar. Aos sábados ainda fazia aulas de francês em uma escola de idiomas onde ganhou uma bolsa integral.
A vontade de Débora de estudar e seu sonho de cursar medicina ganham uma dimensão impressionante quando ela conta que para poder fazer o cursinho teve que renunciar a muitas coisas, incluindo comida. Ela conta que passava quase o mês todo comendo pipoca e macarrão instantâneo. Andava muitos quilômetros por dia para economizar passagens de ônibus. “Foi um ano em que fiquei bem exercitada”, brinca.
São esses os momentos que vêm à mente quando Débora lembra do que sentiu durante o acidente. “Eu já tive que aguentar muita dor na minha vida. Muita. Quando você anda com fome, com dor de cabeça… Eu não tinha dinheiro para comprar remédio de dor de cabeça. Eu acho que eu estava sendo preparada para passar por essa dificuldade”, explica.
A rotina exaustiva de seus 17 anos culminou no dia em que Débora, de tão cansada, pegou no sono no ponto de ônibus. Acordou de madrugada e teve que esperar até às 5h, quando os ônibus voltam a circular, para ir embora.
À base de pipoca e macarrão instantâneo
No fim de 2017 ela prestou o vestibular e foi aprovada para o curso de administração na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). As aulas, porém, só começavam no segundo semestre e, no meio tempo, sua vida passou por outras reviravoltas: O hospital onde ela trabalhava não quis renovar seu contrato. Ao mesmo tempo, a dona da casa onde ela vivia pediu o imóvel de volta.
A prima do ex-namorado conseguiu convencer a proprietária da kitnet onde vivia a deixar Débora viver em uma outra unidade de graça por dois meses, enquanto procurava emprego. Nesse período, ela fez uma série de trabalhos temporários, mas não conseguiu nada fixo.
Quando estava prestes a ser expulsa de casa, Débora começou a faculdade e conseguiu uma bolsa para trabalhar com um professor. O valor do benefício, no entanto, não era suficiente para pagar o aluguel. Uma negociação permitiu que ela continuasse morando no mesmo lugar por um preço mais baixo, mas novamente Débora gastava quase todo o salário em uma só despesa. A solução foi voltar para a dieta de pipoca e macarrão instantâneo.
Débora define a si própria como “muito determinada”. Esse modo de ser transparece o tempo todo durante a conversa. Um exemplo foi justamente o que aconteceu em seguida, quando ela decidiu largar a faculdade de administração na UFPE para voltar a estudar e buscar seu sonho de ser médica.
Nessa altura ela trabalhava em um curso que ensina técnicas de estudo de português, matemática e inglês. O trabalho, mais uma vez, era meio período e não chegava a pagar um salário mínimo inteiro, mas o suficiente para custear sua moradia e, aos trancos e barrancos, sobreviver. Como se não bastasse, Débora também voltou a fazer cursinho, dessa vez com bolsa integral.
Sobre os percalços, ela afirma que “foi uma experiência que acabou me deixando mais forte. Eu não encaro tudo isso que eu passei como uma coisa ruim, mas algo que me construiu como eu sou hoje. A Débora que está aqui hoje só é a Débora porque passou por isso”. “Hoje em dia eu tenho muito mais empatia com as pessoas, com as dificuldades das pessoas”.
Ao relembrar os passos de sua ainda curta e muito emocionante história, Débora não sente pena de si mesma. “Todas as situações que eu passei, eu não falo com tristeza. Eu passei por tudo isso e eu sou uma sobrevivente. Eu não desisti, então por que eu desistiria agora?”, diz, fazendo um paralelo com o acidente.“Eu penso: posso passar a minha vida toda chorando ou eu posso seguir a minha vida e fazer o que eu puder de melhor com isso, como eu sempre fiz”.
A forma de encarar a vida surpreende até os mais próximos. “O que mais chamou a atenção foi a postura dela. Eu no lugar dela teria ficado chorando no hospital”, diz o namorado, Eduardo. “Ela tem uma alegria muito grande de viver”.
Os anjos da guarda em sua vida
Ainda que muito sozinha, Débora não teria passado por tudo sem o apoio de algumas pessoas, que ela faz questão de destacar. Após seu acidente, ela conta que as pessoas não se afastaram porque já eram poucas as relações próximas em sua vida. “Eu fui muito ajudada, eu não tenho do que reclamar”, diz.
Assim que seu caso ficou conhecido em todo o Brasil, circulou a notícia de que uma pedagoga paraense de 23 anos havia oferecido para doar seus cabelos para que Débora fizesse uma peruca. Ela, porém, não foi a única. A jovem pernambucana conta que cerca de 50 pessoas fizeram a mesma proposta. “Achei muito lindo se mobilizarem para me doar cabelo, só que eu só tenho uma cabeça”, diz com sua simplicidade característica.
“Uma peruca de cabelo é algo muito sério por ser caro. Eu recebi [ofertas de] 50 pessoas, eu não vou poder pegar o de todo mundo, não seria junto com tantas mulheres que sofrem com a perda do cabelo por alopécia, por câncer ou pelo próprio escalpelamento”, explica. Débora e Eduardo querem aproveitar a oportunidade para ajudar outras pessoas que precisam, mas cujos casos são desconhecidos. Ela explica que vai conversar com todos que ofereceram ajuda para pedir que eles participem de um projeto que ela está desenvolvendo, que consiste em fazer as perucas e doar para outras pessoas que também precisam.
Outra pessoa que é lembrada com muito carinho tanto por Débora quanto por Eduardo é o agora amigo Dimitri. Ele foi a pessoa que os socorreu e os levou até o hospital no dia da tragédia. Eduardo sempre lembra como foi difícil conseguir ajuda enquanto ainda estavam na pista de kart.
O homem, que acabou se tornando um amigo, ao perceber que ninguém faria nada e o resgate demoraria a chegar, colocou-os em seu carro e dirigiu até o Hospital da Reparação. Além disso, Dimitri esperou até tarde da noite com eles no hospital e, ao ver Eduardo coberto de sangue, deu a ele a camisa que ganhou de dia dos pais.
O papel de Eduardo na história de Débora também merece destaque. No dia 11 de agosto, foi ele quem resgatou o couro cabeludo da namorada e carregou-a no colo para que não caísse. Desde então ele não saiu de seu lado. Eduardo é dono de óticas em Recife e deixou as lojas aos cuidados da família para poder estar com Débora durante os quase dois meses em que ela esteve em tratamento no Hospital Especializado de Ribeirão Preto.
Os dois acabaram de completar um ano de namoro. Desde o começo do ano são noivos, mas quando perguntados sobre o casamento, Débora afasta: “Só daqui quinze anos”. Rindo, eles explicam que vão esperar até que ela, que tem apenas 19 anos, se forme na faculdade para só então avançar no sonho de constituir uma família.
20 cirurgias e guarda-sol como “companheiro”
O acidente ao qual Débora sobreviveu é chocante. “Eu não tinha percebido que tinha sido uma coisa tão difícil de se acontecer. Só percebi na hora que eu vi a foto da minha cabeça”, diz. Eduardo explica que em outros acidentes similares a morte é quase certa, porque a força do motor ao puxar o cabelo faz com que a pessoa quebre o pescoço. “Ela foi um milagre”, resume o namorado.
Em uma situação tão intensa, é de se esperar que as consequências também sejam graves. Débora já passou por mais de 20 cirurgias e vai enfrentar um tratamento, incluindo mais incontáveis procedimentos cirúrgicos, pelos próximos dois a seis anos. Seu cabelo nunca mais vai crescer.
Como havia de ser, frente a maneira como esta mulher encara a vida, a perda do cabelo não a deprime: “Eu gostava demais do meu cabelo, mas eu não tenho como voltar atrás, então não tem porque eu ficar ‘ai meu deus minha vida acabou’ porque eu perdi o cabelo”. Ela reforça que não é vaidosa, apesar de dizer que não gosta de “andar esculhambada”, mas destaca a relação que tinha com sua “juba”, como ela mesma define, que passava da cintura.
As consequências deixadas, porém, vão além das óbvias. Para reconstruir seu couro cabeludo, Débora teve que tirar pele das costas e das pernas. Hoje, ela carrega cicatrizes. O procedimento também limitou seus movimentos e impôs outros tipos de sequelas, como a impossibilidade de tomar sol e a coceira da cicatrização. “Você retirar uma parte do corpo para cobrir outra é funcional, mas não é natural, então tem várias consequências”, explica.
Quando conta sobre isso, é o único momento em que Débora reclama, ainda que com moderação. Ela diz que “é muito chato” ter que sair na rua sempre protegida por um guarda-sol e que a coceira a deixa de mau humor.
Os procedimentos cirúrgicos incluíram ainda a retirada da veia safena, na perna, para restabelecer o fluxo sanguíneo na região do pescoço. Esse é outro momento do qual Débora lembra sem saudades, uma vez que teve que ficar um bom tempo com a cabeça virada para o lado esquerdo.
Medicina em Harvard, por que não?
Durante toda a conversa de quase duas horas, uma coisa foi constante nas falas de Débora: o sonho de cursar medicina. Isso é o que sempre a moveu para superar as dificuldades do passado e é o que ainda a move para superar mais esta.
Agora, Débora decidiu que quer fazer o curso em Harvard, universidade americana que fica na cidade de Boston, no estado de Massachusetts. Um dos motivos, ela brinca, é não ter que enfrentar o sol o tempo todo. Outro, é intelectual: “Eu quero desenvolver a neurociência com tecnologia. Eu quero ter acesso à tecnologia, eu tenho sede daquilo”.
Para atingir seu objetivo ela está focada em desenvolver seu inglês, mas como não tem dinheiro para pagar um curso de idiomas, ela estuda por conta própria. Seu método, porém, é um pouco diferente. Ao invés de fazer exercícios tradicionais, Débora estuda física, química e matemática na língua estrangeira.
Enquanto seu sonho não se concretiza, Débora desenvolve alguns projetos paralelos. Além das inúmeras entrevistas que tem concedido, do que mostra da sua vida em seu perfil do Instagram e das palestras que dá em escolas públicas, ela começou a escrever um livro.
Débora conta que não sabe quando ou se irá publicar o registro, mas já sabe o título: “Uma hora eu chego em casa”. Ela explica que o nome é uma referência a um dia específico deste ano em que aprendeu muitas coisas. Não dá detalhes, porém, sobre o que teria acontecido, mas diz que explicará no livro.
Quando perguntada de onde tira forças para continuar indo tão ferozmente atrás de seu sonho, ela responde que acredita em seu valor. “O problema das pessoas é que às vezes elas não se acham importantes. Não existe sociedade sem as pessoas. E eu sei que eu sou importante para essa área, porque eu vou desenvolver essa área. Eu quero dar a minha vida para salvar vidas. Eu vou fazer de tudo para isso. Eu vou persistir até conseguir, porque eu sei que isso não vai fazer diferença só para mim, mas para muita gente”.
Nacional
Comissão aprova proposta para consórcios municipais de inovação

A Comissão de Ciência e Tecnologia e de Inovação da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 4076/25, do deputado José Medeiros (PL-MT), que autoriza municípios a celebrar convênios intermunicipais e contratar consórcios públicos para viabilizar projetos de tecnologia e inovação.
O texto altera a Lei de Inovação (Lei 10.973/04) para permitir que prefeituras se associem no desenvolvimento de produtos, processos e serviços inovadores. A medida busca facilitar o acesso de municípios, principalmente os de menor porte, a soluções tecnológicas.
A Lei de Inovação já permite que entes da Federação formem alianças estratégicas para o desenvolvimento de inovações. Essas parcerias podem contemplar redes e projetos internacionais de pesquisa tecnológica, ações de empreendedorismo e criação de ambientes de inovação, como incubadoras e parques tecnológicos.
Medeiros afirmou que municípios de menor porte têm dificuldades para desenvolver projetos de inovação pela falta de recursos, escala e expertise. Segundo ele, é comum a contratação separada de empresas de consultoria, apesar de as carências serem compartilhadas por várias prefeituras. “Devido a essa falta de integração, há uma dificuldade muito grande para que essas unidades federativas possam identificar, contratar, desenvolver e incorporar serviços e produtos inovadores”, disse.
Aliança estratégica
O texto foi aprovado com alteração do relator, deputado Lucas Ramos (PSB-PE), para reforçar que os convênios e consórcios servem para viabilizar alianças estratégicas e desenvolvimento de projetos cooperativos. “A redação proposta reforça a segurança jurídica e a clareza do comando normativo, sem alterar o mérito da iniciativa, mas aprimorando sua aderência ao ordenamento vigente e sua aplicabilidade prática”, afirmou.
Para Ramos, a proposta dialoga diretamente com a necessidade de fortalecimento das capacidades institucionais locais, especialmente nos municípios de menor porte, por meio da atuação em rede e do compartilhamento de recursos, competências e infraestrutura.
Próximos passos
A proposta ainda será analisada, em caráter conclusivo, pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania. Para virar lei, precisa ser aprovada por Câmara e Senado.
Saiba mais sobre a tramitação de projetos de lei
Reportagem – Tiago Miranda
Edição – Pierre Triboli
Fonte: Câmara dos Deputados
Nacional
Comissão pode votar regulamentação do trabalho por aplicativo; conheça a proposta

A comissão especial da Câmara dos Deputados que analisa a regulamentação dos serviços de transporte e entrega por aplicativo no país poderá votar, na próxima terça-feira (14), o parecer do relator, deputado Augusto Coutinho (Republicanos-PE), ao Projeto de Lei Complementar 152/25, do deputado Luiz Gastão (PSD-CE).
Em relação à primeira versão, de dezembro de 2025, o novo parecer publicado no último dia 7 de abril enfatiza ainda mais o caráter autônomo do trabalho e redefine a abrangência e o peso de certas obrigações. Segundo Coutinho, as mudanças refletem o resultado dos debates e o empenho por um consenso que permita a aprovação da matéria.
“O novo substitutivo materializa o esforço de buscar um texto politicamente viável que, ao mesmo tempo, mantenha conquistas importantes para os trabalhadores”, diz o relator no parecer.
A nova versão consolida o termo “trabalhador autônomo plataformizado”, reforçando que a relação intermediada pela plataforma não cria vínculo empregatício entre o trabalhador e a empresa ou o usuário.
O texto deixa claro o direito do trabalhador de gerenciar livremente seu tempo e de se cadastrar em múltiplas plataformas. Proíbe também metas de tempo mínimo de trabalho e punições para quem recusar serviços ou ficar offline.
Entre outras alterações, o substitutivo foca apenas no transporte de passageiros e em entregas de bens, eliminando a categoria genérica de “outros serviços” via plataformas; e exclui diversos dispositivos relacionados aos direitos dos usuários, remetendo, nesses casos, ao Código de Defesa do Consumidor.
Pontos de apoio e infraestrutura para motoristas, que eram direitos garantidos na primeira versão do parecer, passam a ser “diretriz de política pública” na nova versão, que prevê instalação gradual e sem exigência imediata.

A nova versão estrutura as regras nos seguintes eixos centrais:
Previdência Social
- Trabalhador autônomo plataformizado: é segurado obrigatório na categoria de contribuinte individual. Paga 5% sobre o salário de contribuição, que corresponde a 25% de sua remuneração bruta mensal.
- Plataformas: a regra geral é o recolhimento de 20% sobre a mesma base de cálculo (os 25% da remuneração bruta do trabalhador).
- Modelo alternativo: as plataformas podem optar por contribuir com 5% sobre a receita bruta obtida no mercado brasileiro.
Ganhos, taxas e remuneração
- Natureza dos ganhos: os ganhos do trabalhador são divididos em duas partes:
- 25% são considerados renda (base para impostos e Previdência)
- 75% servem para cobrir custos, como combustível e manutenção
- Taxas de retenção: as plataformas podem cobrar uma taxa mensal fixa ou taxas por serviço. No caso de taxas por serviço, a média não pode ultrapassar 30% (ou 15% em modelos híbridos com taxa mensal). O cálculo deve ser feito de forma individualizada a cada sete dias.
- Remuneração para entregas:
- por serviço — piso de R$ 8,50 para trajetos de até 3 km (automóvel) ou até 4 km (moto, bicicleta ou a pé).
- Por tempo trabalhado — valor não inferior ao proporcional a dois salários-mínimos por hora efetivamente trabalhada (contada do aceite à entrega).
Gorjetas e promoções: as gorjetas devem ser repassadas integralmente e não integram a remuneração bruta. Descontos e promoções oferecidos pela plataforma aos usuários não podem ser descontados do trabalhador ou usados para abater o limite das taxas.
Benefícios adicionais
- Benefícios fiscais: isenção de IPI e IOF na compra de carros e motocicletas nacionais para profissionais que comprovem ao menos 2.000 horas de serviço nos últimos 12 meses.
- microempreendedor: motoristas enquadrados como trabalhadores autônomos plataformizados não podem ser microempreendedores individuais (MEI).
Foram excluídos da nova versão benefícios como a gratificação de 30% em dezembro, os adicionais para trabalho noturno, domingos e feriados, e a possibilidade de formação de reserva (poupança) custodiada pela plataforma.
Trabalho, segurança e transparência
- Justiça: compete à Justiça do Trabalho julgar casos envolvendo os contratos dos trabalhadores autônomos plataformizados.
- Seguro: obriga as plataformas a contratarem seguro de vida e integridade física com capital mínimo de R$ 120 mil.
- Transparência: assegura aos motoristas direito de receber relatórios detalhados (por serviço e consolidados a cada 30 dias) com valores, taxas e retenções. Decisões automatizadas sensíveis (como bloqueios) devem ser passíveis de revisão humana.
- Dever de Diligência: obriga as empresas a prevenirem cadastros falsos e garantirem a identidade real do trabalhador.
Regras para punições
- Contratos: exige contrato escrito e claro definindo prazos, formas de remuneração, obrigações de conduta e critérios para distribuição de ofertas de serviços.
- Bloqueios e suspensões: antes de suspender, bloquear ou punir trabalhadores, as plataformas devem prever sanções em contrato, notificar o trabalhador dos fatos, conceder prazo para defesa e decidir apenas após avaliá-la — proibindo cláusulas genéricas e vagas.
Por fim, foram removidos na nova versão o limite de jornada de 12 horas, o tempo mínimo de 15 segundos para aceite, o botão de pânico obrigatório no aplicativo e o direito de mulheres atenderem apenas mulheres.
Reportagem – Murilo Souza
Edição – Geórgia Moraes
Fonte: Câmara dos Deputados
Nacional
Nutricionistas pedem jornada de 30 horas e piso salarial em audiência na Câmara

Em debate realizado na Comissão de Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados na terça-feira (7), representantes dos nutricionistas defenderam a aprovação do Projeto de Lei 6819/10, que prevê jornada de 30 horas semanais e piso salarial nacional para a categoria.
A audiência pública foi solicitada pela deputada Sâmia Bomfim (Psol-SP) e reuniu representantes do governo, conselhos profissionais e sindicatos para discutir as condições de trabalho dos nutricionistas. Os participantes relataram condições precárias de trabalho e defenderam mudanças na legislação para valorizar a categoria.
A diretora da Federação Nacional dos Nutricionistas, Ana Paula Mendonça, afirmou que o projeto aguarda votação no plenário após receber apoio para tramitação mais rápida.
“Um nutricionista valorizado é um profissional mais presente, motivado e capaz de oferecer à população um cuidado mais qualificado”, disse.
A deputada Sâmia Bomfim afirmou que valorizar esses profissionais pode reduzir gastos públicos ao prevenir doenças no Sistema Único de Saúde (SUS).

Precarização e pejotização no setor
A presidente do Sindicato dos Nutricionistas do Estado de São Paulo, Maria da Consolação Machado, relatou condições precárias de trabalho.
Segundo ela, há casos de desvio de função, com profissionais que chegam a realizar tarefas de limpeza. Também há registros com cargos genéricos para evitar o pagamento do piso da categoria.
Outro problema apontado foi a contratação como pessoa jurídica (pejotização) e a informalidade.
Representante do Ministério da Saúde, Lívia Angeli Silva informou que mais de 50% dos vínculos de nutricionistas no setor de saúde são informais.
Segurança alimentar
As participantes afirmaram que a nutrição é essencial para a segurança alimentar.
A conselheira do Conselho Regional de Nutrição da 3ª Região, Jozelma Rodrigues dos Santos, destacou a atuação desses profissionais em áreas como alimentação escolar e atendimento em unidades de terapia intensiva.
A presidente do Conselho Federal de Nutrição, Manuela Dolinsky, apresentou dados sobre a categoria:
- entre 93% e 95% dos profissionais são mulheres;
- o Brasil tem cerca de 270 mil nutricionistas e 21 mil técnicos;
- no SUS, atuam mais de 35 mil nutricionistas, número considerado insuficiente.
Apoio do governo
O representante do Ministério do Trabalho e Emprego, Miqueias Freitas Maia, disse que o ministério não se opõe à limitação da jornada e ao piso salarial.
Ele informou que a revisão da norma sobre insalubridade está prevista para 2027 e que o governo acompanha riscos psicossociais e casos de assédio no trabalho.
Ao final da audiência, a deputada Erika Kokay (PT-DF) sugeriu a criação de uma frente parlamentar em defesa dos nutricionistas.
A proposta é dar caráter suprapartidário ao tema e acelerar a análise de projetos, como o que permite a solicitação de exames laboratoriais por nutricionistas em planos de saúde.
Da Redação – GM
Fonte: Câmara dos Deputados
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