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`Agosto Lilás´ quando a violência política tenta calar mulheres no poder e por que não vamos permitir

Ilson Galdino, advogado e servidor-público municipal
Um mês criado para reforçar a luta contra a violência contra a mulher não deveria se transformar em palco para novos ataques. Mas é exatamente isso que está acontecendo.
O Agosto Lilás, símbolo de resistência e conscientização, ganhou contornos amargos no Mato Grosso. De Pedra Preta a Cuiabá, mulheres no poder ou convidadas a contribuir com ele enfrentam não apenas críticas políticas, mas ataques que carregam o peso da violência política de gênero.
Não são casos isolados. É um padrão que mina lideranças, corrói o respeito e ameaça à democracia.
Em Pedra Preta, a prefeita Iraci Ferreira de Souza sofre agressões e ataques públicos constantes de um vereador que, em discursos na Câmara e publicações nas redes sociais, recorre a estereótipos de gênero para enfraquecer sua autoridade como líder eleita. O ataque é pessoal, mas o efeito é coletivo enfraquecer a legitimidade de uma mulher no poder para lembrar às outras qual é o lugar que devem ocupar.
Em Cuiabá, uma vistoria à Secretaria de Mobilidade Urbana terminou com a Polícia Militar sendo acionada. Câmeras registraram a tensão entre o prefeito e a vice-prefeita Vânia Rosa, logo após sua exoneração de um cargo de confiança.
Não houve agressão física, mas houve algo igualmente corrosivo; exposição pública e desgaste institucional. O próprio prefeito publicou o vídeo nas redes uma estratégia que reforça o constrangimento e o controle narrativo.
Pouco depois, outro episódio ganhou repercussão nacional. Durante a 15ª Conferência Municipal de Saúde, a professora Maria Inês da Silva Barbosa, doutora em Saúde Pública, foi interrompida pelo prefeito no meio de sua palestra por usar o termo todes. A cena, gravada, se espalhou pelo país. Entidades como Abrasco, Odara e Abrasme classificaram a atitude como autoritarismo, misoginia, racismo e violência política de evidenciando o microfone como ferramenta de silenciamento.
A sindicalista Geane Teles, defensora dos direitos dos servidores públicos, sofre ataques em grupos de WhatsApp, com falas afirmando que, por não ser atualmente presidente do sindicato, não poderia participar das reivindicações. Geane preside o Instituto Serv Saúde e vale lembrar que representantes do Serv Saúde e do IMPRO sempre estiveram unidos ao SISPMUR na luta em defesa dos servidores.
A servidora pública e atual vereadora Dra. Luciana Horta também é alvo de agressões pela sua atuação e por figurar, ao lado de Geane Teles, como possível candidata a uma vaga na Assembleia Legislativa de Mato Grosso.
Colocando esses casos lado a lado, o padrão é inegável, mulheres em posições de liderança ou autoridade técnica são deslegitimadas, expostas e constrangidas publicamente. E não são só Iraci, Vânia, Maria Inês, Geane ou Luciana. São também as Marias, Marílias, Sofias, Sâmias, Simones, Ednas, Helenas, Janetes, Jandiras e tantas outras que enfrentam o mesmo roteiro de tentativas de silenciamento.
Você já sentiu sua voz ser cortada, sua autoridade questionada ou sua imagem diminuída por motivos que nada têm a ver com sua competência? Agora, imagine isso acontecendo diante de câmeras, com repercussão estadual ou nacional. Isso é violência política de gênero e, ela não se limita à agressão física.
Ela se manifesta nas interrupções hostis, nas ridicularizações, no isolamento institucional, na difamação online em redes sociais e na deslegitimação pública. Muitas vezes, é mascarada como “debate firme”, mas não é firmeza: é abuso de poder.
O Brasil já reconhece esse problema na Lei 14.192/2021, que combate à violência política contra a mulher em suas dimensões física, psicológica, institucional e digital. Mas reconhecer não basta. É preciso agir.
Transformar indignação em mudança exige dar nome ao problema e enfrentá-lo de frente. É preciso documentar e denunciar cada ataque, apoiar publicamente as vítimas, cobrar protocolos institucionais e ocupar espaços de decisão e controle social. Onde houver tentativa de silenciar, que surjam mais vozes. Onde houver intimidação, que exista rede de proteção.
O Agosto Lilás deveria ser um mês de luz, voz e segurança para mulheres. No Mato Grosso, ele também expõe feridas abertas prefeitas atacadas em câmaras, vice-prefeitas expostas em vistorias, professoras silenciadas diante de plateias. Proteger essas mulheres é proteger a democracia. Quem agride a palavra de uma mulher agride o direito de toda a sociedade de ser bem representada.
Que este Agosto Lilás marque mais que indignação, que marque ação. Compartilhar histórias, cobrar investigações, apoiar publicamente e exigir respeito como regra. Assim a cidade agradece, a democracia respira e as próximas gerações aprendem que poder e respeito caminham juntos.
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Agro em ano eleitoral: até onde podem ir os incentivos e benefícios fiscais?
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63 anos não se constroem por acaso: a liderança por trás da longevidade empresarial

Por Ulana Bruehmueller
O brasileiro tem uma reconhecida vontade de empreender. Muitas empresas nascem pequenas, de um sonho, de uma oportunidade ou da necessidade de construir um futuro melhor. Começam com poucos recursos, muito trabalho e a esperança de crescer ano após ano.
Mas começar uma empresa é apenas o primeiro desafio. Fazê-la permanecer, atravessar gerações e continuar relevante é uma conquista muito maior.
No Brasil, poucas empresas alcançam mais de seis décadas de atividade. Ao longo do caminho, enfrentam obstáculos que vão do acesso ao crédito aos elevados custos de insumos, energia e produção, além da carga tributária, da insegurança jurídica e de uma logística ainda cara e ineficiente.
É nesse contexto que celebramos os 63 anos da Refrigerantes Marajá.
Mais do que uma data no calendário, este aniversário nos convida a uma reflexão: o que faz uma organização atravessar tantas transformações e permanecer relevante ao longo das gerações?
A qualidade dos produtos e a confiança dos consumidores são fundamentais. Mas longevidade também se constrói com liderança forte, propósito definido, valores consistentes e pessoas alinhadas em torno de uma mesma direção.
Ao longo de mais de seis décadas, a Marajá precisou se transformar inúmeras vezes. Cresceu, ampliou mercados, modernizou sua estrutura industrial, incorporou tecnologias, profissionalizou processos, fortaleceu sua governança e desenvolveu novas marcas e produtos.
Ao mesmo tempo, avançou em uma agenda de ESG cada vez mais consistente, compreendendo que responsabilidade ambiental e social, ética e boa governança não devem existir apenas no discurso. Precisam estar incorporadas à maneira como uma organização toma decisões e pensa no seu futuro.
Essa capacidade de evoluir sem perder a essência talvez seja uma das principais explicações para a longevidade de uma empresa.
E nenhuma transformação acontece sem pessoas.
Ao longo da minha carreira, aprendi que podemos definir estratégias, estabelecer metas, investir em tecnologia e modernizar processos, mas são as pessoas que transformam o planejamento em resultado. Por isso, o alinhamento da liderança e o comprometimento do time são fatores concretos de competitividade.
Estratégias mudam. Mercados mudam. Tecnologias evoluem. Gerações chegam com novas expectativas. Os valores, entretanto, permanecem como uma bússola, permitindo que a empresa se transforme sem perder sua identidade.
Tenho muito orgulho de ter dedicado mais de 30 anos da minha vida profissional à Marajá e de ter crescido junto com esta empresa. Foram décadas de desafios, crises, decisões, expansão, transformação e, acima de tudo, aprendizado.
Por isso, celebrar estes 63 anos é também agradecer.
Aos fundadores que tiveram a disposição de empreender. Aos acionistas, diretores e líderes que assumiram a responsabilidade de conduzir a empresa ao longo do tempo. Aos profissionais que passaram por aqui e deixaram sua contribuição. E aos que hoje continuam escrevendo esta história e preparando a Marajá para o futuro.
Depois de tantos anos na indústria, compreendo que uma das maiores responsabilidades de uma liderança não é apenas entregar os resultados do presente. É criar condições para que a organização continue crescendo e gerando valor para as próximas gerações.
Longevidade empresarial não é simplesmente resistir ao tempo. É atravessar gerações evoluindo sempre. Continuar olhando para frente e assumindo responsabilidade pelo futuro!
Ulana Maria Bruehmueller é CEO da Refrigerantes Marajá
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A cidade começa na calçada

Rodrigo Arruda e Sá
Quando pensamos em desenvolvimento urbano, quase sempre imaginamos grandes avenidas, viadutos, pontes ou obras de infraestrutura. Tudo isso é importante, mas existe um elemento muito mais presente na vida das pessoas e que, muitas vezes, passa despercebido: a calçada. É nela que a cidade realmente começa, porque é por ela que todos nós caminhamos antes de entrar em um carro, em um ônibus, em um comércio ou em uma praça.
A qualidade de uma cidade pode ser medida pela forma como ela trata o pedestre. É pela calçada que uma criança vai à escola, um idoso chega à farmácia, uma mãe empurra o carrinho do filho e um trabalhador segue até o ponto de ônibus. Quando esse espaço está esburacado, desnivelado, ocupado irregularmente ou simplesmente não existe, a cidade transmite uma mensagem clara: as pessoas deixaram de ser prioridade.
Não é preciso olhar para a Europa para encontrar bons exemplos. Curitiba transformou o cuidado com as calçadas em uma política permanente de urbanismo e acessibilidade. Maringá tornou-se referência nacional pela arborização, pela conservação dos espaços públicos e pela qualidade de seus passeios. Joinville e Blumenau também demonstram como calçadas bem cuidadas, praças limpas, iluminadas e bem conservadas tornam a cidade mais acolhedora para moradores, turistas e comerciantes.
Essas cidades compreenderam que desenvolvimento urbano não se resume a grandes obras. A qualidade de vida nasce dos espaços que as pessoas utilizam diariamente. Calçadas acessíveis, arborização, praças bem cuidadas, iluminação eficiente e limpeza permanente estimulam a convivência, fortalecem o comércio de rua, aumentam a sensação de segurança e fazem com que os moradores sintam orgulho da cidade onde vivem.
Em Cuiabá, infelizmente, ainda convivemos com uma realidade distante desse padrão. Além das calçadas interrompidas, desniveladas ou sem acessibilidade, muitas praças apresentam sinais evidentes de abandono.
A Praça Ipiranga, um dos espaços mais tradicionais da capital, frequentemente convive com acúmulo de lixo e mau cheiro, enquanto a Praça Popular, um dos principais pontos de encontro da cidade, além de estar coberta de lixo, sofre com a iluminação deficiente e manutenção insuficiente. Em vez de convidarem as famílias ao convívio, ao esporte e ao lazer, esses espaços acabam transmitindo uma sensação de descuido incompatível com a importância que têm para a vida urbana.
Como contador e empresário, aprendi que cidades agradáveis também são cidades economicamente mais fortes. O comércio prospera quando as pessoas caminham pelas ruas com conforto e segurança, frequentam as praças, permanecem mais tempo nos espaços públicos e ocupam naturalmente os centros comerciais. Investir nesses ambientes não é apenas uma política de urbanismo; é também uma política de desenvolvimento econômico.
É evidente que Cuiabá precisa continuar investindo em mobilidade, infraestrutura e transporte coletivo. Mas nenhuma dessas políticas produzirá resultados completos se esquecermos que toda viagem começa e termina a pé.
Antes de sermos motoristas, passageiros ou ciclistas, todos nós somos pedestres, e uma cidade que não acolhe quem caminha dificilmente será acolhedora para qualquer outro meio de transporte.
Talvez esteja na hora de ampliarmos o conceito de desenvolvimento urbano. Em vez de avaliar uma administração apenas pelo número de quilômetros de asfalto entregues ou pelas grandes obras inauguradas, deveríamos observar também a qualidade das calçadas, das praças e dos espaços públicos onde a vida realmente acontece.
Cuidar desses pequenos detalhes não é uma questão estética, mas uma demonstração de respeito ao cidadão e de compromisso com a qualidade de vida. Afinal, uma cidade verdadeiramente humana não se mede apenas pelo tamanho de suas avenidas, mas pelo cuidado com os lugares onde seus moradores caminham, convivem e constroem diariamente a sua história.
*RODRIGO ARRUDA E SÁ é contador, bacharel em Direito, empresário e ex-vereador de Cuiabá.
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