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Os melhores entre nós
De tempos em tempos, os temas eleitorais retornam à vida dos brasileiros. Quando eleições se aproximam ou quando crises escandalosas eclodem. Normalmente em capítulos que não são agradáveis aos bons cidadãos, o que contribui para que estes se afastem da política e fechem seus olhos para o que acontece dentro dos órgãos estatais. Estratégia proposital de uma classe política mal-intencionada que lá se estabeleceu e criou raízes daninhas.
Muitos justificam essas escolhas legítimas se baseando nas premissas da liberdade do indivíduo e na democracia — ainda o menos pior sistema de governo inventado pela humanidade, como sabiamente dizia Winston Churchill. Mas pode haver democracia plena onde o establishment criou um mecanismo eficaz de perpetuação de seus grupos no poder às custas do dinheiro público e da ignorância induzida de seu povo? Pouco provável.
Apenas no ano de 2018, os partidos políticos brasileiros (exceto do Partido NOVO, fundado em 2015) receberam 2,64 bilhões de reais de dinheiro público advindo dos fundos eleitoral e partidário. Dinheiro legalizado, caixa 1. Sem contar as verbas bilionárias dos órgãos públicos e das 418 empresas estatais controladas pelos despreparados e gananciosos que são indicados pelos mesmos partidos, em troca de seus votos nos legislativos das três esferas e até mesmo por muitos maus membros do judiciário e Ministério Público que jogam o mesmo jogo em busca de poder e dinheiro.
No Brasil são 12 milhões de funcionários públicos, muitos deles entre os mais bem pagos do planeta, além dos que se empregam em estatais ou prestam serviços em empresas “chapas brancas”, que formam um exército de influência pela manutenção do status quo. 2,4 trilhões de reais por ano em impostos usados essencialmente para o pagamento desse funcionalismo, da previdência deficitária e de juros a grandes bancos que também financiam a perpetuação deste modelo autofágico. Menos de 1% para a infraestrutura que o país precisa. Isso para falar só do dinheiro “legal” que eles tocam.
Repito, então, a questão: vivemos em um estado plenamente democrático mesmo quando todo o “arsenal” público é utilizado para manipular e desinformar o cidadão de bem? Exercer a liberdade precisa ser mais que isso. Muito mais que isso. Onde está a verdade nisso tudo? Há fonte confiável em que possamos encontrar informações fidedignas sobre o nosso dinheiro e o nosso patrimônio público?
Bilhões de reais são gastos todo mês em comunicação estatal. Esse orçamento seria verdadeiramente pouco se falássemos da tão necessária publicidade de utilidade pública, vital para qualquer boa gestão. Mas é covardemente exagerado se o real objetivo for manipular aqueles que levam informação diária à população. Desinformando-os.
Sobre o artigo constitucional acerca da publicidade dos atos públicos e sobre as leis de transparência na gestão, o Estado confunde a mera “exposição” dessas informações em portais confusos e incompletos com a necessária “comunicação” propriamente dita, que envolveria, acima de tudo, a garantia de compreensão e recebimento das mensagens puras pelo receptor, nesse caso o cidadão.
A resultante desse mega mecanismo é um povo desinformado, desinteressado e que, iludido, vota baseado em um mero ponto de identificação manipulado por um candidato desse sistema, fruto de uma campanha meticulosa e ardil, financiada com o dinheiro do próprio eleitor. Ao votar com base nesse preceito, exerce, embora com bases distorcidas, sua pseudo legítima liberdade democrática, porém abandona os critérios fundamentais que reduziriam os riscos da má gestão e indicariam pessoas melhores para, de fato, liderarem um povo.
Historicamente, as sociedades que mais prosperaram de forma sustentável, independentemente de seus sistemas de governo, tiveram em comum a capacidade de escolher seus melhores membros como seus líderes. Espartanos empoderavam seus melhores guerreiros, atenienses seus melhores pensadores, fenícios seus melhores comerciantes… Povos bem-sucedidos empoderam seus melhores homens, suas melhores mulheres. Eis a base do nosso erro, não intencional, ao eleger nossos governantes: não sabemos mais escolher os melhores entre nós. Há tempos os melhores entre nós se afastaram da política. E povo algum evolui sem boa política. E boa política não acontece sem os melhores homens e mulheres de cada povo.
Precisamos nos reencontrar com a inteligência e com a humildade para reconhecer que nossos líderes não precisam ser como nós, eles precisam ser melhores que nós. Muito melhores que nós.
Difícil é a política voltar a atrair esses humanos que nós inconscientemente desejamos, mas que não nos desejam mais.
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Agro em ano eleitoral: até onde podem ir os incentivos e benefícios fiscais?
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63 anos não se constroem por acaso: a liderança por trás da longevidade empresarial

Por Ulana Bruehmueller
O brasileiro tem uma reconhecida vontade de empreender. Muitas empresas nascem pequenas, de um sonho, de uma oportunidade ou da necessidade de construir um futuro melhor. Começam com poucos recursos, muito trabalho e a esperança de crescer ano após ano.
Mas começar uma empresa é apenas o primeiro desafio. Fazê-la permanecer, atravessar gerações e continuar relevante é uma conquista muito maior.
No Brasil, poucas empresas alcançam mais de seis décadas de atividade. Ao longo do caminho, enfrentam obstáculos que vão do acesso ao crédito aos elevados custos de insumos, energia e produção, além da carga tributária, da insegurança jurídica e de uma logística ainda cara e ineficiente.
É nesse contexto que celebramos os 63 anos da Refrigerantes Marajá.
Mais do que uma data no calendário, este aniversário nos convida a uma reflexão: o que faz uma organização atravessar tantas transformações e permanecer relevante ao longo das gerações?
A qualidade dos produtos e a confiança dos consumidores são fundamentais. Mas longevidade também se constrói com liderança forte, propósito definido, valores consistentes e pessoas alinhadas em torno de uma mesma direção.
Ao longo de mais de seis décadas, a Marajá precisou se transformar inúmeras vezes. Cresceu, ampliou mercados, modernizou sua estrutura industrial, incorporou tecnologias, profissionalizou processos, fortaleceu sua governança e desenvolveu novas marcas e produtos.
Ao mesmo tempo, avançou em uma agenda de ESG cada vez mais consistente, compreendendo que responsabilidade ambiental e social, ética e boa governança não devem existir apenas no discurso. Precisam estar incorporadas à maneira como uma organização toma decisões e pensa no seu futuro.
Essa capacidade de evoluir sem perder a essência talvez seja uma das principais explicações para a longevidade de uma empresa.
E nenhuma transformação acontece sem pessoas.
Ao longo da minha carreira, aprendi que podemos definir estratégias, estabelecer metas, investir em tecnologia e modernizar processos, mas são as pessoas que transformam o planejamento em resultado. Por isso, o alinhamento da liderança e o comprometimento do time são fatores concretos de competitividade.
Estratégias mudam. Mercados mudam. Tecnologias evoluem. Gerações chegam com novas expectativas. Os valores, entretanto, permanecem como uma bússola, permitindo que a empresa se transforme sem perder sua identidade.
Tenho muito orgulho de ter dedicado mais de 30 anos da minha vida profissional à Marajá e de ter crescido junto com esta empresa. Foram décadas de desafios, crises, decisões, expansão, transformação e, acima de tudo, aprendizado.
Por isso, celebrar estes 63 anos é também agradecer.
Aos fundadores que tiveram a disposição de empreender. Aos acionistas, diretores e líderes que assumiram a responsabilidade de conduzir a empresa ao longo do tempo. Aos profissionais que passaram por aqui e deixaram sua contribuição. E aos que hoje continuam escrevendo esta história e preparando a Marajá para o futuro.
Depois de tantos anos na indústria, compreendo que uma das maiores responsabilidades de uma liderança não é apenas entregar os resultados do presente. É criar condições para que a organização continue crescendo e gerando valor para as próximas gerações.
Longevidade empresarial não é simplesmente resistir ao tempo. É atravessar gerações evoluindo sempre. Continuar olhando para frente e assumindo responsabilidade pelo futuro!
Ulana Maria Bruehmueller é CEO da Refrigerantes Marajá
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A cidade começa na calçada

Rodrigo Arruda e Sá
Quando pensamos em desenvolvimento urbano, quase sempre imaginamos grandes avenidas, viadutos, pontes ou obras de infraestrutura. Tudo isso é importante, mas existe um elemento muito mais presente na vida das pessoas e que, muitas vezes, passa despercebido: a calçada. É nela que a cidade realmente começa, porque é por ela que todos nós caminhamos antes de entrar em um carro, em um ônibus, em um comércio ou em uma praça.
A qualidade de uma cidade pode ser medida pela forma como ela trata o pedestre. É pela calçada que uma criança vai à escola, um idoso chega à farmácia, uma mãe empurra o carrinho do filho e um trabalhador segue até o ponto de ônibus. Quando esse espaço está esburacado, desnivelado, ocupado irregularmente ou simplesmente não existe, a cidade transmite uma mensagem clara: as pessoas deixaram de ser prioridade.
Não é preciso olhar para a Europa para encontrar bons exemplos. Curitiba transformou o cuidado com as calçadas em uma política permanente de urbanismo e acessibilidade. Maringá tornou-se referência nacional pela arborização, pela conservação dos espaços públicos e pela qualidade de seus passeios. Joinville e Blumenau também demonstram como calçadas bem cuidadas, praças limpas, iluminadas e bem conservadas tornam a cidade mais acolhedora para moradores, turistas e comerciantes.
Essas cidades compreenderam que desenvolvimento urbano não se resume a grandes obras. A qualidade de vida nasce dos espaços que as pessoas utilizam diariamente. Calçadas acessíveis, arborização, praças bem cuidadas, iluminação eficiente e limpeza permanente estimulam a convivência, fortalecem o comércio de rua, aumentam a sensação de segurança e fazem com que os moradores sintam orgulho da cidade onde vivem.
Em Cuiabá, infelizmente, ainda convivemos com uma realidade distante desse padrão. Além das calçadas interrompidas, desniveladas ou sem acessibilidade, muitas praças apresentam sinais evidentes de abandono.
A Praça Ipiranga, um dos espaços mais tradicionais da capital, frequentemente convive com acúmulo de lixo e mau cheiro, enquanto a Praça Popular, um dos principais pontos de encontro da cidade, além de estar coberta de lixo, sofre com a iluminação deficiente e manutenção insuficiente. Em vez de convidarem as famílias ao convívio, ao esporte e ao lazer, esses espaços acabam transmitindo uma sensação de descuido incompatível com a importância que têm para a vida urbana.
Como contador e empresário, aprendi que cidades agradáveis também são cidades economicamente mais fortes. O comércio prospera quando as pessoas caminham pelas ruas com conforto e segurança, frequentam as praças, permanecem mais tempo nos espaços públicos e ocupam naturalmente os centros comerciais. Investir nesses ambientes não é apenas uma política de urbanismo; é também uma política de desenvolvimento econômico.
É evidente que Cuiabá precisa continuar investindo em mobilidade, infraestrutura e transporte coletivo. Mas nenhuma dessas políticas produzirá resultados completos se esquecermos que toda viagem começa e termina a pé.
Antes de sermos motoristas, passageiros ou ciclistas, todos nós somos pedestres, e uma cidade que não acolhe quem caminha dificilmente será acolhedora para qualquer outro meio de transporte.
Talvez esteja na hora de ampliarmos o conceito de desenvolvimento urbano. Em vez de avaliar uma administração apenas pelo número de quilômetros de asfalto entregues ou pelas grandes obras inauguradas, deveríamos observar também a qualidade das calçadas, das praças e dos espaços públicos onde a vida realmente acontece.
Cuidar desses pequenos detalhes não é uma questão estética, mas uma demonstração de respeito ao cidadão e de compromisso com a qualidade de vida. Afinal, uma cidade verdadeiramente humana não se mede apenas pelo tamanho de suas avenidas, mas pelo cuidado com os lugares onde seus moradores caminham, convivem e constroem diariamente a sua história.
*RODRIGO ARRUDA E SÁ é contador, bacharel em Direito, empresário e ex-vereador de Cuiabá.
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