Mato Grosso
Palestra aborda investigação e processo judicial do feminicídio sob a perspectiva de gênero

Foto: Assessoria
Ativar saberes locais e descontínuos, não reduzir as complexidades e preservar ao máximo o local de crime, com atenção aos mínimos detalhes. Assim a delegada e subsecretária da Secretaria de Segurança Pública do Piauí, Eugênia Villa, pontuou os passos necessários para conduzir investigações relacionadas à violência contra a mulher, durante palestra de abertura da XI Semana Justiça pela Paz em Casa. O evento ocorreu na manhã desta quinta-feira (23.08), no Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), em Cuiabá.
Com o tema “A investigação e o processamento judicial do feminicídio sob a ótica da perspectiva de gênero”, a palestra também provocou uma reflexão sobre a mudança de comportamento de toda a sociedade. Eugênia Villa, que também é doutoranda em Direito pela Universidade de Brasília (UnB) e professora, apresentou o aplicativo para smartphones ‘Salve Maria’, desenvolvido pelo Governo do Estado do Piauí. Por meio do botão do pânico, a ferramenta emite um ponto de localização da ocorrência para a viatura mais próxima.
Este botão do pânico foi acionado 192 vezes em todo o estado no período de março de 2017 a junho de 2018. Até o momento, o aplicativo foi baixado 6.014 vezes e instalado 1.386 vezes. Segundo a delegada, o Salve Maria é altamente inclusivo, porque uma mulher muda, por exemplo, consegue pedir socorro, e uma criança que tenha sido violentada também. “Hoje em dia todas as crianças sabem mexer em celular, e as vezes têm mais facilidade que os adultos”. O aplicativo será aperfeiçoado para atender as mulheres cegas, e incluir ainda uma opção para aquelas que têm medidas protetivas concedidas pela Justiça, que poderão acionar o botão caso haja descumprimento pelo agressor.
A corregedora-geral da Justiça de Mato Grosso, desembargadora Maria Aparecida Ribeiro, destacou a importância da palestra. “É uma oportunidade de conhecer experiências com relação à investigação, que é um passo muito importante, é o passo inicial para a classificação do crime. Então, é de suma importância a discussão a respeito da investigação, a respeito de como classificar o crime de feminicídio”.
Presente no encontro, o secretário de Estado de Segurança Pública, Gustavo Garcia, afirmou que esta integração entre os poderes constituídos é fundamental para avançar na busca de uma rede de proteção eficaz. “Com o fortalecimento do sistema de justiça criminal, estamos trabalhando em um projeto de instalação de núcleos de atendimento à mulher, que necessitam não só dos órgãos de segurança e de justiça, mas de profissionais de saúde e assistência social, por exemplo”.
Site Cemulher
A abertura do evento contou ainda com o lançamento do site oficial da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cemulher) no âmbito do TJMT. Segundo a coordenadora, desembargadora Maria Erotides Kneip, o objetivo é aprimorar o serviço prestado. “Queremos que a sociedade possa verificar como nós estamos trabalhando, nos incentivar, e mais, apresentar os nossos erros e sugestões para que a gente possa melhorar o enfrentamento da violência doméstica e familiar”. Todas as informações referentes à Cemulher podem ser acessadas no http://cemulher.tjmt.jus.br/.
Mato Grosso
Júri é remarcado depois que defesa abandona plenário em julgamento de filho de ex-deputado

A sessão de julgamento de Carlos Alberto Gomes Bezerra, acusado pelo feminicídio de Thays Machado e pelo homicídio qualificado de Willian Cesar Moreno, foi remarcada para o dia 31 de julho, às 9h, após a defesa abandonar o plenário nesta terça-feira (21). Mais uma vez, os advogados tentaram o adiamento do julgamento, o que foi indeferido pela juíza Monica Catarina Perri Siqueira, presidente da sessão, sob o argumento de que não havia justificativa plausível para a redesignação da data.
Segundo a magistrada, os advogados tiveram um prazo de 15 dias para analisar os documentos juntados aos autos. Ela ressaltou que a maior parte dessas informações já constava no processo e que a alegada falta de acesso a um despacho específico sobre prisão domiciliar não acarretaria prejuízo real, uma vez que a decisão sobre o tema também integra os autos.
“O advogado, quando assume a substituição no processo, o recebe no estágio em que ele se encontra. O processo não recua, ele tem que andar para a frente”, afirmou Monica Perri. Após anunciar a nova data do júri, a magistrada determinou que, caso não haja um advogado constituído apto para atuar na sessão, a Defensoria Pública deverá estar preparada para assumir a defesa na data prevista. Todos os presentes saíram intimados do plenário.
A acusação seria conduzida pelos promotores de Justiça Vinicius Gahyva Martins e Élide Manzini de Campos, integrantes do Núcleo de Defesa da Vida do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT). O réu era defendido pelos advogados Elson Marcelino da Silva Júnior, Larice Cristine, Melissa de Oliveira Machado e Gabriel Gouvea Neno Reiff.
Manobra – Ainda no plenário, o promotor de Justiça Vinicius Gahyva Martins sustentou que o acesso a processos externos é responsabilidade da defesa e que as questões relacionadas ao habeas corpus e à prisão domiciliar já foram resolvidas, não havendo justificativa para o adiamento do júri. Ele destacou o papel do Ministério Público como fiscal da lei, com a missão de assegurar direitos e preservar a imagem das vítimas perante a coletividade. Também se posicionou contra o abandono do plenário, ressaltando que a realização de um Tribunal do Júri exige o empenho e a presença de diversos envolvidos, inclusive pessoas que se deslocaram de outros estados, e que a “ritualística do tribunal” deve ser respeitada em busca da verdade.
Vinicius Gahyva disse ainda que o abandono do plenário é uma estratégia que acaba por arranhar a imagem do Tribunal do Júri. “Isso tem se tornado, de certo modo, frequente nos julgamentos do Tribunal do Júri, especialmente naqueles que afligem de forma intensa o interesse da coletividade, como é o caso concreto de um feminicídio e de um homicídio de dois jovens. São duas pessoas que, efetivamente, traduzem a necessidade de reafirmarmos o nosso papel social de não banalização da vida humana. Nós sabemos que o Tribunal do Júri envolve uma série de providências que devem ser adotadas para que o ato processual seja realizado, e lamentamos muito que esse tipo de estratégia esteja sendo adotada”, afirmou.
A promotora de Justiça Élide Manzini de Campos lembrou que o julgamento já deveria ter ocorrido no dia 7 de julho. Segundo ela, naquela ocasião, a defesa solicitou o adiamento para análise de provas, pedido que foi deferido pela magistrada responsável pelo caso, com a remarcação da sessão para 21 de julho. “É um absurdo uma medida protelatória após mais de três anos do fato, com a família aguardando o julgamento. A defesa admite alegações de nulidades que não existem e que já foram completamente afastadas. É uma estratégia utilizada para tentar postergar, prorrogar e até abrir outro incidente de sanidade, ou qualquer outra medida, para que esse julgamento não ocorra. Tudo isso já foi afastado, e não há motivo algum para que esse julgamento não aconteça”, afirmou.
Sobre o caso de feminicídio, a promotora destacou que a reação da sociedade demonstra uma rejeição cada vez mais firme a esse tipo de crime. Segundo ela, a população tem se posicionado de forma clara contra a violência de gênero e em defesa do enfrentamento aos feminicídios, cobrando respostas efetivas do sistema de Justiça para coibir esse tipo de violência.
Fotos: Josi Dias | TJMT
Mato Grosso
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