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Thriller psicológico peculiar, “Em Chamas” afasta certezas e abraça a catarse
Aclamado pela crítica em “Cannes”, o sul-coreano “Em Chamas” é um exercício sofisticado de construção narrativa
. Não é de imediato que o expectador entenderá do que se trata o filme. Até porque são muitos os temas e subtextos costurados por Lee Chang-Dong e eles se mesclam em metáforas e impressões, do público e do protagonista, nunca extrapolando os limites da dúvida e da sugestão.

Adaptado de um conto de Haruki Murakami, “Em Chamas”
captura as tensões sociais da Coreia do Sul a partir do que parece ser um triangulo amoroso com uma pessoa riquíssima, outra pobre e outra mais pobre ainda. Mas Dong muda a chave da estrutura dramática de seu filme a partir da metade e engata um thriller de ritmo muito particular.
O filme é em si um arrojo estético e narrativo, mas Dong o bifurca ainda mais. Revelando com quase uma hora de duração a real linha mestra do filme e entregando o que muitos realizadores entenderiam como uma “surpresa para o final” logo na sequência. Daí, ele estabelece um comentário sobre percepções e desejos. Tudo com a parcimônia e conotação do impávido cinema sul-coreano
.
Jong-Soo (Ah-In Yoo) é um entregador solitário que encontra Hae-mi (Jong-Seo Jeon), uma amiga de infância que fora sua vizinha. Ele não se lembra dela, mas isso não os impede de se aproximarem. Ela está com viagem marcada para África e pede para ele alimentar o gato dela durante o período fora. Jong-Soo está com sua cota de problemas. Formado em escrita criativa e desempregado, precisa cuidar da fazenda do pai que foi preso por desacatar e agredir um funcionário do Estado.
Os tentáculos da desigualdade se tornam mais visíveis quando Hae-mi volta da África e apresenta Ben (Steven Yeun) para Jong-Soo. Ben tem muito dinheiro e é muito simpático e amigável. Ao ponto de levar Jong-Soo, emulando “O Grande Gatsby” de F. Scott Fitzgerald, a se indagar qual é o interesse dele em Hae-mi, que parece genuinamente divida entre os dois.
Metáforas que iluminam

Da África, além da companhia de Ben, a jovem trouxe uma delicada epítome sobre dança e é justamente em uma cena em que a atriz Jong-Seo Jeon dança que o longa tem seu momento mais belo, triste e peremptório desse comentário sobre as chagas sociais.
A fotografia em luz natural, a câmera na mão e alguns longos planos-sequência ajudam a tornar o longa uma experiência mais sensorial. O protagonista, afinal, vivencia um intrincado processo de combustão.
Mesmo a maneira como Dong entrega o segredo de seu filme é por meio de uma metáfora. Uma que o protagonista toma como literalidade e seu esforço de compreensão, que ora conta com a anuência do público, ora não, pauta a segunda metade do filme. A vontade de observar de Jong-Soo não é maior do que a de ser observado de Ben e a relação de rivalidade e admiração que se dá entre eles caminha para uma indesviável catarse.
Em chamas

O espectador pode antecipar a natureza e a forma dessa catarse com alguma antecedência e é justamente nesse movimento que a obra perde punch. Trata-se de um filme em que a maneira como a trama é alinhavada importa mais do que a trama em si e, neste compasso, Dong se abstém de causar impacto em favor de alimentar uma angústia que pode não estar suficientemente entranhada no público.
É uma opção narrativa arriscada e que implica no ritmo algo arrastado do longa. De todo modo, o filme queima lentamente toda a insensatez desafogada pelas ações dos dois personagens masculinos.
“Em Chamas”
será exibido no Cine Caixa Belas Artes 1 no dia 26/10, às 20h30; no sábado (27), às 16h no Cinesala; no domingo (28), às 17h20 no Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 1; na segunda (29), às 21h, no Espaço Itaú de Cinema – Pompeia 1; na quarta-feira (31), às 14h, no Cinearte Petrobras 1.
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