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Dois Pesos, Duas Medidas! A Contradição nas Alianças em Mato Grosso

Ilson Galdino, advogado e servidor-público municipal
Na política mato-grossense, as regras parecem mudar conforme o jogador em campo. Essa percepção ganhou força quando a conveniência entra em cena e a régua da coerência muda de tamanho. Após a recente movimentação, em especial de dois prefeitos do PL, que se mostraram revoltosos diante da possível coligação entre o PL e o MDB — tudo sob a justificativa de que haveria uma aliança familiar: com a pré-candidatura ao Senado, da deputada Janaína Riva (MDB), atual presidente do partido e, que é nora do Senador Wellington Fagundes (PL), que já confirmou ter o aval da nacional para ser o pré-candidato ao governo em 2026.
À primeira vista, a justificativa soa como uma nobre defesa da moralidade e da ética na política: evitar o que chamam de aliança familiar. Contudo, a mesma coerência não parece valer quando o apoio se dirige a outra frente política. Os mesmos insatisfeitos cogitam caminhar com Otaviano Pivetta (Republicanos), que deve concorrer ao governo com o endosso do Governador Mauro Mendes (União Brasil/Progressistas), este, por sua vez, também cotado ao Senado.
Em outras palavras: negam o apoio ao pré-candidato do próprio partido por motivos familiares, mas aceitam aliança com quem faz exatamente o mesmo jogo, onde a influência familiar é mais determinante.
O contraste se acentua quando o Governador Mauro Mendes declara publicamente que “quem bate o martelo é a Virgínia”, referindo-se à primeira-dama, que teria liberdade irrestrita para decidir se disputará uma vaga à Câmara Federal. A fala após uma reunião do União Brasil na última segunda-feira (6), não foi apenas simbólica: teria sido um recado direto de que a montagem da chapa da Federação União/Progressistas passa, sim, pelo núcleo mais próximo do governador.
E aqui surge a pergunta inevitável: se a candidatura de Virgínia Mendes é aceita com naturalidade, isso também não configura uma aliança familiar? Por que, então, pesos e medidas diferentes?
Essa aparente falta de coerência, no entanto, pode não ser um erro de cálculo, mas sim uma jogada deliberada. É um roteiro que parece saído diretamente das páginas de Maquiavel. Para o pensador florentino, a política é uma esfera autônoma, com uma ética própria, onde a moralidade da vida cotidiana simplesmente não se aplica. O que importa não é o bem comum, mas o interesse particular e a conquista do poder.
Nessa lógica, a política se torna a arte da simulação. A crítica à “aliança familiar” de um lado não seria um apelo a princípios, mas uma ferramenta retórica para justificar uma aliança mais vantajosa do outro.
O verdadeiro sentido de ser “maquiavélico” não é ser mau, mas sim ser astuto o suficiente para agir conforme a situação, enxergando o jogo de forças. É a capacidade de transformar inimigos em amigos e de usar discursos que atraiam a popularidade, mesmo que não se acredite neles.
Os cidadãos, muitas vezes ingênuos, esperam que seus líderes ajam por convicção, mas Maquiavel nos ensina que, na arena do poder, o que prevalece é o proveito próprio.
O cenário traçado dá a entender que Mauro Mendes tem controle absoluto sobre a Federação União/Progressistas, bem como dos partidos que irão compor esse arco de aliança, enquanto a primeira-dama atua com autonomia plena — algo que poucos dentro do PL ousariam contestar. Com isso, desenha-se uma possível união de forças envolvendo Republicanos, União/Progressistas, Podemos e partidos aliados, consolidando um bloco que tende a isolar o MDB e neutralizar a candidatura de Fagundes ao governo.
A situação é, no mínimo, paradoxal. A impressão que fica é que, no arranjo com Mauro Mendes, que atua como se fosse o dono da bola, o poder se concentra de tal forma que discordar não é uma opção, e a crítica aos laços de parentesco é silenciada.
Ao que tudo indica, a manobra dos dissidentes visava, na verdade, emplacar uma chapa com Otaviano Pivetta (Republicanos) ao governo, Mauro Mendes (União Brasil) e Zé Medeiros (PL) ao Senado. Trata-se de um plano que parece distante da realidade política do Estado e que, ao não se concretizar, revela as verdadeiras moedas de troca por trás da manobra.
No fim das contas, o que esse episódio revela é que, muitas vezes, o discurso sobre princípios e laços familiares pode ser apenas uma fachada, uma ferramenta de retórica usada para justificar interesses.
A verdadeira lógica por trás das alianças parece ser o pragmatismo e a busca pelo poder, e assim o jogo político em Mato Grosso mostra que a coerência é artigo raro, e que, para alguns, a aliança só é aceitável quando convém ao próprio tabuleiro.
E você, eleitor, já se perguntou quem realmente dá as cartas na política mato-grossense? A resposta talvez esteja menos nas alianças partidárias e mais nas relações de poder que se escondem atrás delas. Quando há dois pesos e duas medidas, a mensagem que chega às urnas é a de que o princípio foi trocado pela conveniência.
A política, afinal, é um palco onde, como ensinou Maquiavel, a coerência é, muitas vezes, a primeira a sair de cena e o poder segue sendo, como sempre foi, uma balança desequilibrada — onde o peso real nem sempre está do lado do povo.
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Infraestrutura se constrói com pessoas: o desafio estratégico de formar quem vai transformar o Brasil

* Por Paulo Bittar
Diante da escassez crescente de profissionais qualificados, o setor de engenharia precisa assumir protagonismo na formação de talentos — condição essencial para garantir a continuidade de serviços essenciais e o desenvolvimento sustentável do país.
Quando assumi a posição de CEO da Passarelli, uma das prioridades que identifiquei de forma imediata foi o fortalecimento do pilar Pessoas. Não como um discurso institucional, mas como uma agenda estratégica de longo prazo. Afinal, garantir a longevidade de um negócio que se aproxima de um século passa, inevitavelmente, por investir em quem vai construir os próximos 100 anos dessa história.
No setor de infraestrutura, essa reflexão ganha ainda mais urgência. O Brasil vive um momento decisivo para avançar em competitividade, qualidade de vida e sustentabilidade — e isso depende diretamente da nossa capacidade de executar projetos estruturantes. No entanto, convivemos com um cenário desafiador: a escassez de mão de obra qualificada, especialmente na engenharia. Dados do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) indicam que o país pode enfrentar, em breve, um déficit de cerca de 400 mil profissionais.
Esse movimento já se reflete na base. O número de formandos em engenharia vem diminuindo de forma consistente nos últimos anos. Em 2018, eram pouco mais de 128 mil concluintes. Em 2023, esse número caiu para aproximadamente 95 mil, segundo levantamento do Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (SEESP), com base no Censo da Educação Superior. Mais do que uma estatística, esse dado acende um alerta sobre o futuro da nossa capacidade produtiva.
Parte desse desafio passa pela forma como a engenharia é percebida pelas novas gerações. Em um cenário de múltiplas possibilidades de carreira, é natural que jovens busquem caminhos que ofereçam reconhecimento, desenvolvimento e propósito. E aqui está um ponto central: a infraestrutura precisa comunicar melhor o seu valor.
Poucas áreas têm um impacto tão direto e transformador na vida das pessoas. É a engenharia que viabiliza o acesso à água tratada, que conecta cidades, que sustenta o crescimento das indústrias e que melhora, de forma concreta, o cotidiano da população. Existe um legado tangível naquilo que construímos — e ele precisa ser mais evidente para quem está escolhendo seu caminho profissional.
Diante desse contexto, formar jovens deixa de ser apenas uma iniciativa de recursos humanos e passa a ser uma escolha estratégica — quase um compromisso com o país. É papel das empresas reduzir a distância entre teoria e prática, aproximar universidades do mercado e oferecer experiências que permitam aos estudantes enxergar, na prática, o impacto da profissão.
Na Passarelli, temos avançado com consistência nessa agenda. Investimos em parcerias com universidades, programas estruturados de estágio, mentorias e trilhas de desenvolvimento que combinam capacitação técnica e comportamental. Mais recentemente, proporcionamos a estudantes de engenharia civil uma imersão em uma de nossas obras, permitindo que vivenciassem o dia a dia de um projeto de infraestrutura e entendessem, de forma concreta, como a engenharia se materializa.
Essa conexão com a realidade é fundamental. O futuro da engenharia começa antes da formação — ele se constrói a partir das experiências que despertam interesse, desenvolvem habilidades e reforçam o propósito.
Ao mesmo tempo, aprendemos que não basta atrair talentos: é preciso desenvolvê-los e retê-los. Isso passa por ambientes que estimulem aprendizado contínuo, pela convivência entre diferentes gerações e pela valorização de quem escolhe construir carreira no setor.
O desafio da mão de obra qualificada não será resolvido de forma isolada. Ele exige uma mudança de mentalidade coletiva — de empresas, instituições de ensino e lideranças. Mais do que disputar talentos, precisamos formar talentos.
Infraestrutura é, em essência, um projeto de futuro. E não existe futuro possível sem pessoas preparadas para transformá-lo em realidade.
* Paulo Bittar é CEO da Passarelli Engenharia e Construção
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