Nacional
Brasil fez acordo com Cuba para criar Mais Médicos sem passar pelo Congresso

Brasil e Cuba fizeram um acordo para que o programa Mais Médicos fosse criado sem que precisasse passar por aprovação do Congresso Nacional. Essa é a principal descoberta feita a partir da queda do sigilo de cinco anos em que telegramas guardados na embaixada brasileira em Cuba foram mantidos. As informações foram reveladas pelo jornal Folha de S. Paulo
.
Os registros também revelaram que o Mais Médicos foi criado depois de uma proposta de Cuba e que já era negociado um ano antes de a então presidente Dilma Rousseff (PT) apresentá-lo como resposta às manifestações de rua de 2013 que, entre outras coisas, pedia mais investimentos e melhorias na área da saúde pública.
Segundo consta nos documentos, porém, o diagnóstico do problema e a proposta de solução foram ambas feitas por Cuba após uma delegação da Comercializadora de Servicios Médicos Cubanos (SMC, uma sociedade anônima criada pelo governo de Cuba para exportar a mão de obra dos médicos cubanos) vir ao Brasil ainda em março de 2012, para visitar estados como Amapá, Bahia, Paraíba e Distrito Federal.
Já em 20 de abril, o vice-presidente da entidade, Tomás Reynoso, oferecer à embaixada brasileira “desde o envido de médicos e enfermeiras até a assessoria para construção de hospitais e para elaboração de sistemas de saúde” a “preços vantajosos”, conforme anotou Alexandre Ghisleni, então encarregado de negócios do Brasil em Havana.
Em seguida, a vice-ministra de saúde cubana, Marcia Cobas, veio ao Brasil e, em reunião no Ministério do Desenvolvimento, oferece mil médicos e citou vagas ociosas para médicos na Amazônia “com salário inicial de R$ 14 mil”, por falta de interesse de brasileiros. A cubana lembrou ainda da cooperação entre os países durante o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e ressaltou que só faria nova parceria se o Brasil impedisse que os médicos ficassem no País ao final do programa, como houve com 400 profissionais da ilha caribenha nos anos 1990.

Além disso, a troca de mensagens entre o governo brasileiro e o governo cubano revelam que o Brasil cedeu em praticamente todas as exigências feitas por Cuba, inclusive a exigência de que os médicos cubanos passassem pelo Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos Expedidos por Instituições de Educação Superior Estrangeira (Revalida), medida criticada pelo presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) e cuja possibilidade de reversão fez com o que o país caribenho anunciasse a saída do programa que mantinha 8.517 profissionais no Brasil.
Cuba e o Brasil também combinaram que, para que a medida não causasse polêmica junto à classe médica e para que não precisasse ser aprovada pelo Congresso Nacional, as negociações deviam ser mantidas em sigilo e que o acordo deveria ser feito através da intermediação da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Os pagamentos, portanto, seriam feitos à entidade que, por sua vez, repassaria os valores para o governo cubano.
Nesse momento, segundo os telegramas revelados pela Folha de S. Paulo
, Cuba manifestou sua preocupação com o fato do dinheiro ter que passar pela sede da Opas em Washington, nos Estados Unidos. Foi então que o ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha, propôs que os recursos fossem transferidos entre os escritórios da organização, sem passar pelos Estados Unidos.
O valor pago por cada uma dos médicos também foi alvo de negociações durante uma visita da delgação brasileira chefiada pelo secretário Mozart Sales e pelo assessor internacional do Ministério da Saúde, Alberto Kleiman, à Havana, capital de Cuba. No despacho da reunião consta que “o lado brasileiro propôs a quantia de USD 4.000 [dólares americanos] (USD 3.000 para o governo cubano e USD 1.000 para o médico)”, mas “a parte cubana, por sua vez, disse que contava receber USD 8.000 por médico e contrapropôs USD 6.000 (USD 5.000 para o governo cubano e USD 1.000 para o médico).”
Com as negociações avançando, as autoridades brasileiras começaram a defender publicamente a contratação de médicos estrangeiros para atuar em áreas remotas do País, onde os próprios profissionais brasileiros não queriam trabalhar.
Em janeiro de 2013, o líder do governo, senador Eduardo Braga (MDB), disse a prefeitos amazonenses que Dilma permitira, por medida provisória, que médicos estrangeiros trabalhassem no País.
Em março do mesmo ano, o então ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT) também disse no “programa do Jô”, da TV Globo
, que o governo brasileiro poderia contratar médicos estrangeiros para atuar no Brasil.
Já em 23 de abril, a própria presidente Dilma Rousseff, em reunião com a Frente Nacional dos Prefeitos, à noite, defendeu o recrutamente de médicos estrangeiros para trabalhar no Brasil. No mesmo dia, houve uma reunião para dar formal final ao contrato entre o governo brasileiro, a Opas e o governo de Cuba, documentada em novo despacho do Itamaraty.
Três dias depois, foi assinada a primeira versão do 80º termo de cooperação entre o Brasil e a Opas, base do Mais Médicos, mais ainda sem o nome que só viria a ser oficializado em julho.

Cinco anos depois do início do acordo entre os países, com a retirada oficial dos médicos cubanos do programa Mais Médicos
, o governo brasileiro lançou um novo edital que busca a inscrição de médicos brasileiros e estrangeiros
que tenham o Certificado de Registro Médico (CRM) no Brasil ou tenham sido aprovados no Revalida para atuar nas vagas que os mais de 8.500 cubanos vão deixar.
Os salários prometidos são de R$ 11.865,60 por 36 meses, com possibilidade de prorrogação, mas o governo já espera uma adesão baixa e planeja um novo edital com normas mais flexíveis em que os profissionais da área da saúde brasileiros e estrangeiros só precisarão prestar o exame de validação depois de começarem a atuar, dada a urgência que será provocada nos 2.854 municípios e 34 distritos indígenas que ficarão desatendidos por conta da evasão de profissionais cubanos.
Nesta terça-feira (20), o presidente eleito Jair Bolsonaro voltou a criticar o programa e anunciou o seu futuro ministro da Saúde, deputado Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS), que chegou a declarar, após ser oficializado como futuro chefe da pasta da saúde, que o Mais Médicos “parecia um convênio entre Cuba e o PT
, e não entre Cuba e o Brasil”.
Nacional
Comissão aprova proposta para consórcios municipais de inovação

A Comissão de Ciência e Tecnologia e de Inovação da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 4076/25, do deputado José Medeiros (PL-MT), que autoriza municípios a celebrar convênios intermunicipais e contratar consórcios públicos para viabilizar projetos de tecnologia e inovação.
O texto altera a Lei de Inovação (Lei 10.973/04) para permitir que prefeituras se associem no desenvolvimento de produtos, processos e serviços inovadores. A medida busca facilitar o acesso de municípios, principalmente os de menor porte, a soluções tecnológicas.
A Lei de Inovação já permite que entes da Federação formem alianças estratégicas para o desenvolvimento de inovações. Essas parcerias podem contemplar redes e projetos internacionais de pesquisa tecnológica, ações de empreendedorismo e criação de ambientes de inovação, como incubadoras e parques tecnológicos.
Medeiros afirmou que municípios de menor porte têm dificuldades para desenvolver projetos de inovação pela falta de recursos, escala e expertise. Segundo ele, é comum a contratação separada de empresas de consultoria, apesar de as carências serem compartilhadas por várias prefeituras. “Devido a essa falta de integração, há uma dificuldade muito grande para que essas unidades federativas possam identificar, contratar, desenvolver e incorporar serviços e produtos inovadores”, disse.
Aliança estratégica
O texto foi aprovado com alteração do relator, deputado Lucas Ramos (PSB-PE), para reforçar que os convênios e consórcios servem para viabilizar alianças estratégicas e desenvolvimento de projetos cooperativos. “A redação proposta reforça a segurança jurídica e a clareza do comando normativo, sem alterar o mérito da iniciativa, mas aprimorando sua aderência ao ordenamento vigente e sua aplicabilidade prática”, afirmou.
Para Ramos, a proposta dialoga diretamente com a necessidade de fortalecimento das capacidades institucionais locais, especialmente nos municípios de menor porte, por meio da atuação em rede e do compartilhamento de recursos, competências e infraestrutura.
Próximos passos
A proposta ainda será analisada, em caráter conclusivo, pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania. Para virar lei, precisa ser aprovada por Câmara e Senado.
Saiba mais sobre a tramitação de projetos de lei
Reportagem – Tiago Miranda
Edição – Pierre Triboli
Fonte: Câmara dos Deputados
Nacional
Comissão pode votar regulamentação do trabalho por aplicativo; conheça a proposta

A comissão especial da Câmara dos Deputados que analisa a regulamentação dos serviços de transporte e entrega por aplicativo no país poderá votar, na próxima terça-feira (14), o parecer do relator, deputado Augusto Coutinho (Republicanos-PE), ao Projeto de Lei Complementar 152/25, do deputado Luiz Gastão (PSD-CE).
Em relação à primeira versão, de dezembro de 2025, o novo parecer publicado no último dia 7 de abril enfatiza ainda mais o caráter autônomo do trabalho e redefine a abrangência e o peso de certas obrigações. Segundo Coutinho, as mudanças refletem o resultado dos debates e o empenho por um consenso que permita a aprovação da matéria.
“O novo substitutivo materializa o esforço de buscar um texto politicamente viável que, ao mesmo tempo, mantenha conquistas importantes para os trabalhadores”, diz o relator no parecer.
A nova versão consolida o termo “trabalhador autônomo plataformizado”, reforçando que a relação intermediada pela plataforma não cria vínculo empregatício entre o trabalhador e a empresa ou o usuário.
O texto deixa claro o direito do trabalhador de gerenciar livremente seu tempo e de se cadastrar em múltiplas plataformas. Proíbe também metas de tempo mínimo de trabalho e punições para quem recusar serviços ou ficar offline.
Entre outras alterações, o substitutivo foca apenas no transporte de passageiros e em entregas de bens, eliminando a categoria genérica de “outros serviços” via plataformas; e exclui diversos dispositivos relacionados aos direitos dos usuários, remetendo, nesses casos, ao Código de Defesa do Consumidor.
Pontos de apoio e infraestrutura para motoristas, que eram direitos garantidos na primeira versão do parecer, passam a ser “diretriz de política pública” na nova versão, que prevê instalação gradual e sem exigência imediata.

A nova versão estrutura as regras nos seguintes eixos centrais:
Previdência Social
- Trabalhador autônomo plataformizado: é segurado obrigatório na categoria de contribuinte individual. Paga 5% sobre o salário de contribuição, que corresponde a 25% de sua remuneração bruta mensal.
- Plataformas: a regra geral é o recolhimento de 20% sobre a mesma base de cálculo (os 25% da remuneração bruta do trabalhador).
- Modelo alternativo: as plataformas podem optar por contribuir com 5% sobre a receita bruta obtida no mercado brasileiro.
Ganhos, taxas e remuneração
- Natureza dos ganhos: os ganhos do trabalhador são divididos em duas partes:
- 25% são considerados renda (base para impostos e Previdência)
- 75% servem para cobrir custos, como combustível e manutenção
- Taxas de retenção: as plataformas podem cobrar uma taxa mensal fixa ou taxas por serviço. No caso de taxas por serviço, a média não pode ultrapassar 30% (ou 15% em modelos híbridos com taxa mensal). O cálculo deve ser feito de forma individualizada a cada sete dias.
- Remuneração para entregas:
- por serviço — piso de R$ 8,50 para trajetos de até 3 km (automóvel) ou até 4 km (moto, bicicleta ou a pé).
- Por tempo trabalhado — valor não inferior ao proporcional a dois salários-mínimos por hora efetivamente trabalhada (contada do aceite à entrega).
Gorjetas e promoções: as gorjetas devem ser repassadas integralmente e não integram a remuneração bruta. Descontos e promoções oferecidos pela plataforma aos usuários não podem ser descontados do trabalhador ou usados para abater o limite das taxas.
Benefícios adicionais
- Benefícios fiscais: isenção de IPI e IOF na compra de carros e motocicletas nacionais para profissionais que comprovem ao menos 2.000 horas de serviço nos últimos 12 meses.
- microempreendedor: motoristas enquadrados como trabalhadores autônomos plataformizados não podem ser microempreendedores individuais (MEI).
Foram excluídos da nova versão benefícios como a gratificação de 30% em dezembro, os adicionais para trabalho noturno, domingos e feriados, e a possibilidade de formação de reserva (poupança) custodiada pela plataforma.
Trabalho, segurança e transparência
- Justiça: compete à Justiça do Trabalho julgar casos envolvendo os contratos dos trabalhadores autônomos plataformizados.
- Seguro: obriga as plataformas a contratarem seguro de vida e integridade física com capital mínimo de R$ 120 mil.
- Transparência: assegura aos motoristas direito de receber relatórios detalhados (por serviço e consolidados a cada 30 dias) com valores, taxas e retenções. Decisões automatizadas sensíveis (como bloqueios) devem ser passíveis de revisão humana.
- Dever de Diligência: obriga as empresas a prevenirem cadastros falsos e garantirem a identidade real do trabalhador.
Regras para punições
- Contratos: exige contrato escrito e claro definindo prazos, formas de remuneração, obrigações de conduta e critérios para distribuição de ofertas de serviços.
- Bloqueios e suspensões: antes de suspender, bloquear ou punir trabalhadores, as plataformas devem prever sanções em contrato, notificar o trabalhador dos fatos, conceder prazo para defesa e decidir apenas após avaliá-la — proibindo cláusulas genéricas e vagas.
Por fim, foram removidos na nova versão o limite de jornada de 12 horas, o tempo mínimo de 15 segundos para aceite, o botão de pânico obrigatório no aplicativo e o direito de mulheres atenderem apenas mulheres.
Reportagem – Murilo Souza
Edição – Geórgia Moraes
Fonte: Câmara dos Deputados
Nacional
Nutricionistas pedem jornada de 30 horas e piso salarial em audiência na Câmara

Em debate realizado na Comissão de Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados na terça-feira (7), representantes dos nutricionistas defenderam a aprovação do Projeto de Lei 6819/10, que prevê jornada de 30 horas semanais e piso salarial nacional para a categoria.
A audiência pública foi solicitada pela deputada Sâmia Bomfim (Psol-SP) e reuniu representantes do governo, conselhos profissionais e sindicatos para discutir as condições de trabalho dos nutricionistas. Os participantes relataram condições precárias de trabalho e defenderam mudanças na legislação para valorizar a categoria.
A diretora da Federação Nacional dos Nutricionistas, Ana Paula Mendonça, afirmou que o projeto aguarda votação no plenário após receber apoio para tramitação mais rápida.
“Um nutricionista valorizado é um profissional mais presente, motivado e capaz de oferecer à população um cuidado mais qualificado”, disse.
A deputada Sâmia Bomfim afirmou que valorizar esses profissionais pode reduzir gastos públicos ao prevenir doenças no Sistema Único de Saúde (SUS).

Precarização e pejotização no setor
A presidente do Sindicato dos Nutricionistas do Estado de São Paulo, Maria da Consolação Machado, relatou condições precárias de trabalho.
Segundo ela, há casos de desvio de função, com profissionais que chegam a realizar tarefas de limpeza. Também há registros com cargos genéricos para evitar o pagamento do piso da categoria.
Outro problema apontado foi a contratação como pessoa jurídica (pejotização) e a informalidade.
Representante do Ministério da Saúde, Lívia Angeli Silva informou que mais de 50% dos vínculos de nutricionistas no setor de saúde são informais.
Segurança alimentar
As participantes afirmaram que a nutrição é essencial para a segurança alimentar.
A conselheira do Conselho Regional de Nutrição da 3ª Região, Jozelma Rodrigues dos Santos, destacou a atuação desses profissionais em áreas como alimentação escolar e atendimento em unidades de terapia intensiva.
A presidente do Conselho Federal de Nutrição, Manuela Dolinsky, apresentou dados sobre a categoria:
- entre 93% e 95% dos profissionais são mulheres;
- o Brasil tem cerca de 270 mil nutricionistas e 21 mil técnicos;
- no SUS, atuam mais de 35 mil nutricionistas, número considerado insuficiente.
Apoio do governo
O representante do Ministério do Trabalho e Emprego, Miqueias Freitas Maia, disse que o ministério não se opõe à limitação da jornada e ao piso salarial.
Ele informou que a revisão da norma sobre insalubridade está prevista para 2027 e que o governo acompanha riscos psicossociais e casos de assédio no trabalho.
Ao final da audiência, a deputada Erika Kokay (PT-DF) sugeriu a criação de uma frente parlamentar em defesa dos nutricionistas.
A proposta é dar caráter suprapartidário ao tema e acelerar a análise de projetos, como o que permite a solicitação de exames laboratoriais por nutricionistas em planos de saúde.
Da Redação – GM
Fonte: Câmara dos Deputados
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