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Mato Grosso

Investimentos em pesquisas e experimentos estão por trás do sucesso de Mato Grosso

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É comum exaltar Mato Grosso pela sua pujança na produção de soja, algodão, milho e carne, especialmente a bovina. Em verdade, o Estado responde por quase 10% da safra mundial de soja, com mais de 32 milhões de toneladas; por 66,4% da safra nacional de algodão tanto em caroço (4,39 milhões de toneladas) quanto em pluma (1,75 milhão de toneladas); e por um terço da safra nacional de milho, com 29,7 milhões de toneladas.

Além disso, possui o maior rebanho bovino nacional, com mais de 30 milhões de cabeças, e respondeu, em 2018, por 17% dos abates em todo o país (5,4 milhões de cabeças). Mas, como atingiu este estágio, se há menos de 50 anos era essencialmente extrativista? Nada melhor para contar a história desta evolução do que um dos mais antigos extensionistas em atividade no Estado, com 47 anos de serviços prestados ao setor.  

Vindo do Paraná, Hortêncio Paro, hoje com 75 anos, chegou em Mato Grosso em 1972 – portanto, antes da divisão, que ocorreria em 1977 – para trabalhar na Acarmat (Associação de Crédito e Assistência Rural de Mato Grosso), precursora da Emater (Empresa Mato-grossense de Assistência Técnica e Extensão Rural) e da Empaer (Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural), surgida da fusão entre Emater, Codeagri (Companhia de Desenvolvimento Agrícola) e Empa (Empresa de Pesquisa Agropecuária).

“Comecei em junho de 1972, em Fátima do Sul (hoje Mato Grosso do Sul), em um assentamento com áreas de 33 hectares cada. Atendia tanto no setor agrícola quanto pecuário”, diz Hortêncio Paro, que trabalhou ainda em Dourados e Três Lagoas, ambas em Mato Grosso do Sul.

No final daquele mesmo ano, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) foi criada e, dois anos depois, a Embrater (Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural), extinta em 1990.  “A Embrapa, para gerar conhecimento agropecuário, e a Embrater, para difundir, por meio da extensão rural, este conhecimento aos produtores”.

“A partir disso, tudo começou a andar. Foi criado o Polocentro (Programa de Desenvolvimento dos Cerrados), em 1975, construiu-se a sede da Emater, em Cuiabá, e o seu Centro de Treinamento, em Várzea Grande. A extensão rural foi a alavanca do crescimento do agronegócio mato-grossense”.

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Em 1976, retornou a Cuiabá e iniciou o Projeto Soja. “Criamos uma pequena equipe na Emater e implantamos oito trabalhos de pesquisa da soja. Em março de 1977, fizemos na região de Rondonópolis o primeiro Dia de Campo em Mato Grosso, para apresentar as variedades e mostrar o grande potencial da soja no Cerrado.”

Hortêncio Paro em um dos primeiros dias de campo da soja em Mato Grosso. Foto: Emater

Em 1978, ao lado de cinco outros brasileiros, Paro foi estudar nos Estados Unidos, onde conheceu Edgard Hardwig, segundo ele, o maior melhorista de soja do mundo. “Já naquela época, ele me dizia: ‘quando vocês descobrirem que têm chuva para duas safras em uma só, vocês darão um susto no mundo. Hoje, estamos fazendo isso. Plantando soja no início e milho no final, na safrinha, consorciado”.

Em 1979, trouxe do Instituto Agronômico de Campinas, a IAC 2, considerada por ele o pontapé da soja em Mato Grosso, cuja produtividade girava em torno de 30 a 35 sacas por hectare, bem inferior às quase 70 sacas (de 60 kg) da safra 2017/18, por exemplo.

“Depois vieram outras variedades como a IAC 6, IAC 7, IAC 8 e Cristalina. Mas quem abriu as portas para que Mato Grosso chegasse aos atuais 9,7 milhões de hectares plantados foi a IAC2”.

Paro afirma que sempre contou com apoio e suporte técnico-científico da Embrapa, tanto por meio do Centro Nacional de Pesquisa da Soja, quanto do Centro de Pesquisa Agropecuária do Cerrado, que, em sua opinião, fez um grande estudo sobre como fertilizar o Cerrado sem causar danos ao solo. O resultado foi o Manual de Abertura e Manejo de Solos do Cerrado, cuja elaboração contou com apoio das unidades estaduais das Emater.

“Nunca perdi uma reunião do Plano Nacional de Pesquisa, seja na área de entomologia (para saber como controlar os insetos), seja de patologia (para estudar as doenças da soja) ou, ainda, da comissão de melhoramento, para conhecer as novas variedades. Desta forma, consegui ferramentas tecnológicas suficientes para assessorar os produtores mato-grossenses”.

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Olacyr de Moraes, um dos percursores do algodão

Paro diz ter conhecido Olacyr de Moraes, já falecido, considerado nos anos de 1980, o maior produtor individual de soja do mundo (título que mais tarde seria herdado pelo ex-governador e ex-ministro Blairo Maggi e seu primo Eraí Maggi), no evento “A tecnologia no futuro da soja no Brasil”, em Goiânia.

Um dos primeiros grandes empresários a investir em Mato Grosso – em 1967 passou a criar e engordar gado e, em 1975, a produzir soja, milho e algodão em uma área de 120 mil hectares na região da reserva dos Parecis.

“Ele foi o percursor do Médio Norte. Em função de suas lavouras, abriram os primeiros postos de gasolina, construíram as primeiras estradas. Também foi ele quem lançou a primeira variedade de algodão na região”, diz Hortêncio Paro.

Segundo Paro, que também coordenou o Projeto Algodão em Mato Grosso, tudo começou em uma palestra feita em São Paulo, quando foram apresentadas variedades experimentadas em Nova Galileia e São José do Povo (na região de Rondonópolis).

“Comecei a mostrar slides e a plateia, formada pelo próprio Olacyr de Moraes, Bolsa de Mercadoria e Futuro e Carteira de Comércio Exterior do Banco do Brasil, se assustou. Nossa produtividade era bem superior à até então conhecida, que não ultrapassava 150 arrobas por hectare”.

Paro diz que, no início da década de 1990, Olacyr de Moraes, ao lado de Ignácio Mammana, firmou um convênio com a Embrapa, resultando na variedade de algodão ITA 90, considerado de alta produtividade e revertendo a situação do Brasil, que passou de grande importador a um dos grandes exportadores do mundo. “Havia o problema da doença azul, mas foi com esse material que começamos”.

Outros cotonicultores foram pioneiros no Cerrado, como Benjamim Zandonadi e Mario Patriota, que iniciaram o cultivo na região sul de Mato grosso a partir de 1991.

Dia de Campo de algodão. Foto: Emater 

“A explosão do algodão em Mato Grosso começou tanto com o Proalmat (Programa de Incentivo à Cultura do Algodão de Mato Grosso), quando com o Facual (Fundo de Apoio à Cultura do Algodão), ambos criados durante o governo de Dante de Oliveira (1994-2002)”, conclui Hortêncio Paro.  

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Para se ter uma ideia, antes da criação do Proalmat, em 1998, o governo arrecadava R$ 2,3 milhões em impostos com algodão. Seis anos depois, a arrecadação atingiu R$ 26 milhões, mesmo com todos os incentivos concedidos aos produtores.

Milho safrinha: produtividade quadruplicada em três décadas

O vaticínio do melhorista americano Edgard Hardwig, de que Mato Grosso assustaria o mundo ao realizar duas safras (de soja e milho) em uma só, se concretizou. Atualmente, o principal sistema de cultivo do milho no Estado é da safrinha, logo após a colheita da soja, realizada no início do ano.

Segundo Hortêncio Paro, tudo começou, quando o Banco do Brasil, baseado no que estava acontecendo em Dourados (MS), pediu a elaboração de um sistema de produção para a safrinha.

“Nos unimos à Embrapa e reunimos os agrônomos mais experientes da região da Grande Dourados, Jaciara e Alto Taquari para decidir a tecnologia a ser usada e as melhores épocas do ano para o plantio – não só do milho semente, como também do sorgo e do mileto”.

Até então, o cultivo era em pequena escala. Mas, com o surgimento de agroindústrias na parte sul de Mato Grosso nas décadas de 1980 e 1990, gerou-se uma demanda maior, incentivando a produção.

No início da década de 1990, o cultivo do milho safrinha começou a ganhar espaço. O fato de se conseguir cultivar duas culturas por ano agrícola permite ao produtor otimizar a utilização de máquinas e de equipamentos agrícolas.

Mesmo com potencial produtivo menor que o milho da primeira safra, a produção da safrinha é a principal de Mato Grosso. A produtividade média vem superando recordes. No início da década de 1990, era de 1.500 kg por hectare, passando para 3.650 kg em 2006, enquanto, na safra atual (2018/19), o sétimo levantamento da Conab prevê uma produtividade de 6.157 kg por hectare. Mais que quadruplicou nestas três décadas.

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Empresários do setor da construção visitam o mais moderno centro de segurança do trabalho da América Latina

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Foto-Assessoria

Na tarde desta quinta-feira (13/08), um grupo de empresários associados ao Sindicato das Indústrias da Construção da Região Sul do Estado de Mato Grosso (Sinduscon Sul MT) realizou uma visita técnica e de imersão no recém-inaugurado Sesi Experience – Centro Avançado de Segurança do Trabalho, localizado em anexo às dependências da sede do Serviço Social da Indústria de Rondonópolis.

Antes do tour técnico, os associados participaram de uma breve palestra sobre os detalhes e o potencial de aprendizado do CT, que recebeu um investimento total de 12 milhões de reais. Na sequência, eles seguiram para o centro, onde passaram por experiências que simulam situações reais de acidentes de trabalho e momentos críticos.

Para o gestor regional de Saúde e Segurança do Trabalho do Sesi Mato Grosso, Márcio Alves, este foi o primeiro grupo de empresários a realizar a imersão no centro avançado. “Eles puderam presenciar toda a tecnologia voltada para a segurança do trabalho. Os equipamentos proporcionam uma imersão do trabalhador ao utilizar de forma correta tanto os equipamentos de proteção coletiva quanto os de proteção individual”, explicou.

Ainda segundo Márcio Alves, esses cenários e equipamentos fazem com que se mude o formato e a abordagem do trabalhador quanto à importância de prevenir a sua saúde e a sua segurança. “Aqui o foco é trazer essa experiência, onde o trabalhador vai poder fazer a utilização de forma correta do equipamento de segurança individual e voltar para sua rotina, na qual ele vai conseguir utilizar da melhor forma possível esse equipamento, fazendo uma imersão nesse ambiente saudável e seguro”, finalizou.

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O engenheiro civil e proprietário da empresa Plano Sul, Rafael Francisco Lopes Machado, foi um dos associados que fizeram a visita técnica ao Sesi Experience. “Foi uma experiência incrível, acredito que fora do normal. Nunca vi algo parecido, porque existe de fato uma imersão e é possível vivenciar situações em que sentimos estar passando pelo risco e aprendemos como não passar por eles na vida cotidiana e na operação da obra”, destacou.

Sesi Experience — O maior centro de treinamento em Saúde e Segurança do Trabalho da América Latina e o primeiro do Brasil, o Sesi Experience, fica em Rondonópolis. O complexo tem a missão de transformar a forma como as empresas capacitam seus trabalhadores, reunindo treinamentos que vão desde instalações elétricas e espaços confinados até o trabalho em altura. Para isso, utiliza tecnologia coreana imersiva para reproduzir situações reais de risco sem expor os participantes ao perigo. Idealizado pelo Sesi MT, a estrutura permite que o colaborador vivencie cenários críticos, aprenda a identificar riscos e adote os procedimentos corretos de segurança em um ambiente totalmente controlado.

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Mato Grosso

Lei Maria da Penha completa 20 anos ainda com entraves para ser colocada em prática

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A coordenadora do Nudem, Rosana Leite, participou de uma entrevista especial para analisar as duas décadas da lei além dos altos índices de feminicídio em Mato Grosso

Nesta sexta-feira (7), a Lei Maria da Penha (lei nº 11.340) completa 20 anos de promulgação. Considerada pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma das três melhores legislações mundiais quando se fala em defesa dos direitos das mulheres, ela ainda enfrenta muitos entraves para ser colocada em prática.

O reflexo dessas dificuldades bate à porta de Mato Grosso, afinal, de acordo com 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em julho deste ano, o estado registrou a terceira maior taxa de feminicídios do país em 2025. Naquele ano, Mato Grosso teve uma taxa de 2,7 feminicídios para cada 100 mil habitantes.

Embora estes números sejam menores do que os registrados em 2024, ano em que Mato Grosso figurou em primeiro lugar nas taxas de feminicídios com 2,5 casos para cada 100 mil habitantes, a coordenadora do Núcleo de Defesa da Mulher (Nudem) da Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso (DPEMT), Rosana Leite, garante que ainda não é hora de comemorar.

Mas como mudar esse quadro? De que forma a lei Maria da Penha ajudou a enfrentar a violência de gênero em seus 20 anos de promulgação? Para tirar essas e outras dúvidas, Rosana Leite concedeu uma entrevista especial na qual faz uma análise da legislação e conta um pouco mais sobre a atuação do Nudem em todo o estado.

Confira a entrevista:

Qual o maior legado da Lei Maria da Penha (LMP) nesses 20 anos da sua promulgação?

Rosana Leite – Eu vejo que o maior legado é a discussão do enfrentamento à violência contra as mulheres. Hoje nós sabemos que qualquer violação às mulheres se perfaz em violação aos Direitos Humanos das mulheres. Com a lei nós passamos a falar muito mais sobre esse enfrentamento. Antigamente as mulheres não tinham voz, mas hoje nós temos voz. Com a redemocratização do Brasil, o nosso país passou a ser signatário de tratados e convenções internacionais e a LMP é uma resposta a tudo isso, ela quebrou paradigmas ao mostrar que a violência contra a mulher deve ser enfrentada pelo Poder Público e não por pessoas mais próximas, como amigos e familiares. A Maria da Penha mostrou que a legislação deve amparar todas das mulheres. E agora, com a recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), ela também deve amparar todo o segmento LGBTQIAPN+. Portanto, a lei trouxe uma forma diferenciada da sociedade enxergar as mulheres, os Direitos Humanos e ter consciência que nós mulheres temos direitos, que nós precisamos de respeito, de consideração da sociedade, que a nossa historicidade precisa ser garantida porque nós fomos deixadas de lado por muito tempo.

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Ainda há dificuldades para colocar em prática algumas ações e políticas públicas voltadas às mulheres?

Rosana Leite – Sim. A Organização das Nações Unidas (ONU) já declarou que a Maria da Penha é uma das três leis mais importantes do mundo no que diz respeito ao enfrentamento da violência de gênero. Mas ela ainda não foi cumprida integralmente pelo Poder Público. A lei traz, por exemplo, políticas públicas importantíssimas em seu artigo oitavo que não foram todas cumpridas. E eu cito aqui a inclusão nos currículos escolares de matérias sobre o enfrentamento à violência contra as mulheres. Infelizmente nós não temos essa inclusão. Imagina se tivéssemos essa inclusão há 19 anos. Será que já não teríamos uma sociedade diferenciada? O enfrentamento da violência contra as mulheres passa pela educação. Mas enquanto nós não mudarmos os currículos escolares, não iremos trabalhar no cerne do problema. A educação ainda é a chave. Virando essa chave, quem sabe poderemos ter outra realidade.

Outro ponto. Infelizmente a LMP ainda não é cumprida integralmente e de forma homogênea no Brasil. No Conselho Nacional das Defensoras e Defensores Públicos-Gerais (Condege) temos a Comissão de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres e lá nós conseguimos enxergar que em cada estado a LMP passa a ser aplicada de uma forma diferente. Portanto, essa falta de políticas públicas homogêneas, da aplicabilidade da lei de forma homogênea, tem prejudicado uma lei que já tem 20 anos.

Quando a LMP surgiu, nós tivemos que nos readequar, fazer com que a sociedade entendesse a lei. No começo ela foi chamada de inconstitucional. Quando a lei tinha apenas seis anos, a Corte Suprema do país teve que declarar a sua constitucionalidade. Já quando a lei estava em sua fase de “adolescência”, ela ganhou seus remendos e alterações. Hoje, na fase “adulta”, nós precisamos que ela seja cumprida. Mas esse cumprimento de forma homogênea nós ainda não temos.

O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública coloca Mato Grosso em terceiro lugar nas taxas de feminicídio no Brasil em 2025. Em 2024 estávamos em primeiro lugar. Como a senhora analisa este quadro? Podemos comemorar essa queda do primeiro para o terceiro lugar?

Rosana Leite – Isso é muito delicado. Nosso estado é referência na aplicação da LMP. Aqui em Mato Grosso, o Poder Judiciário, a Defensoria Pública e o Ministério Público foram os primeiros do Sistema de Justiça a colocar a lei em prática. Somos referência para outros estados. Nós aplicamos dentro do Sistema de Justiça a competência híbrida que ajuda muito no atendimento das mulheres, mas, mesmo assim, ocupamos esse triste ranking. Então, não, eu não comemoro essa descida para o terceiro lugar. Não acho que deveríamos comemorar, mas sim nos preocupar. Até o início de agosto já registramos 27 feminicídios em Mato Grosso. Ter o nosso estado ocupando primeiro, segundo e terceiro lugar nesse ranking é muito triste e nos mostra o quanto nós vivemos num estado patriarcal. Esse ranking mostra que as nossas mulheres não são bem tratadas em Mato Grosso. Ele nos mostra que ainda vivemos o patriarcalismo, o machismo exacerbado, que somos um estado machista, homofóbico, transfóbico e que não tem respeitado os segmentos de pessoas em situação de vulnerabilidade.

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Você disse que somos o estado que melhor aplica a lei Maria da Penha, mas mesmo assim estamos nesse ranking de onde mais morrem mulheres. Como explicar esse paradoxo?

Rosana Leite – Eu explico da seguinte forma: apenas o Sistema de Justiça não é capaz de resolver tudo. Não é possível resolver todo esse problema apenas com a aplicação da lei. Por isso que eu sempre defendo que o aumento de pena jamais vai resolver a situação. Nós vivemos em um país que não socializa e não ressocializa. A ressocialização das pessoas é quase impossível. Um dia cumprindo pena em uma cadeia do Brasil é horrível. Nós precisamos trabalhar a prevenção. A Ultima Ratio do Sistema de Justiça {expressão em latim que significa Último Recurso no Direito Penal} é a prisão do agressor, mas o aumento de pena não resolve. Hoje o feminicídio e o vicaricídio {crime em que o agressor mata uma pessoa próxima a uma mulher, como filhos, pais ou dependentes, no contexto de violência doméstica, com o objetivo exclusivo de causar sofrimento eterno, punir ou controlar a mulher} são os crimes com maiores penas, que são de 20 a 40 anos de prisão, mas somente isso não resolve.

E como você analisa os projetos de lei que ensinam mulheres a se defender com lutas, aulas de tiro e até mesmo os que liberam o uso de spray de pimenta?

Rosana Leite – Eu vejo que não trazem uma solução efetiva. Em uma luta corporal, por exemplo, fatalmente uma mulher perde. Se tem algo que nós somos diferentes é na nossa estrutura física. Imagina o spray de pimenta na mão de uma pessoa que não sabe usar, uma arma na mão de quem não sabe manusear? “Ah, mas nós vamos dar curso. Vamos ensinar a usar”. Mas e a estrutura física, onde fica? Aí eu volto na questão da luta corporal. Em regra, um homem vai vencer a mulher, então será que o uso errado do spray de pimenta não trará uma situação pior? Por isso eu acho que a prevenção através da educação das nossas crianças e adolescentes, desde a tenra infância até a fase da faculdade, é a forma mais eficaz. Temos que incluir nos currículos escolares o que é a violência contra a mulher, o que causa essa violência dentro da sociedade, como ela atinge o quadro familiar e a sociedade. Os presídios brasileiros estão cheios de pessoas que foram vítimas de violência doméstica na infância, ou que presenciaram essa violência. Por essa razão eu defendo que a educação é a forma que temos para garantir a prevenção da violência à médio e longo prazo.

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Agora vamos falar do Nudem. Quais são as maiores demandas do Núcleo?

Rosana Leite – A criação do Nudem aconteceu em 2014, mas nós fazemos a defesa das mulheres desde o advento da LMP. A DPEMT foi uma das primeiras do Brasil a aplicar a LMP, mas o Nudem como Núcleo surgiu a partir de 2014. Nacionalmente a Defensoria Pública fez questão de ampliar o atendimento das mulheres. A LMP foi tão de vanguarda que ela trouxe a necessidade das Varas de Justiça, dos Juizados dentro do Poder Judiciário e dentro da Defensoria Pública de termos núcleos de atendimento especializados. Tivemos o aumento das Delegacias Especializadas e toda essa gama do Sistema de Justiça ajuda no amparo das mulheres em forma de rede para que elas saibam onde pode buscar o atendimento. Aqui na Defensoria Pública nós fizemos questão de ampliar esse atendimento. Nós não atendemos apenas mulheres vítimas de violência, nós atendemos a violência de gênero nacionalmente. Então, toda e qualquer mulher que venha passar por violência, dentro ou fora de casa, pode buscar o Nudem. A violência que mais aporta aqui no Nudem é a violência doméstica e familiar, onde estão as ameaças e a violência psicológica. Esses são os crimes que as mulheres mais narram.

Como você espera encontrar a Lei Maria da Penha daqui 20 anos?

Rosana Leite – Nunca parei para pensar nisso, mas acho que de tempos em tempos nós estamos ganhando mais atuação, mais confiança da sociedade. Em 2019 o Data Senado fez uma pesquisa, ele entrevistou mulheres vítimas de violência e que decidiram não lavrar um boletim de ocorrência. Eles questionaram o porquê delas não terem lavrado o boletim. Nessa época, a LMP estava fazendo 13 anos e essa pesquisa me marcou muito, pois 79% das mulheres responderam que tinham medo de que a violência se tornasse ainda maior, mesmo com uma lei tão importante em mãos. Quer dizer, elas não acreditavam na lei. A sociedade ainda não confia na efetividade da Maria da Penha. Então, eu quero que as mulheres estejam confiando mais na efetividade da lei, que o Sistema de Justiça continue ampliando o seu atendimento, que o Poder Público, que a rede de atenção se debruce em prol dos Direitos Humanos das mulheres. Estamos em época de campanha política, nessa época ouvimos muito falar no enfrentamento à violência contra as mulheres. Só que a pauta nunca chega até onde nós queremos. Por isso que essa pauta deve avançar na política para enfrentar a violência que tem acontecido todos os dias. Mas, acima de tudo, precisamos dar crédito a palavra das mulheres. Todos os dias.

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Mato Grosso

Municípios de MT debatem continuidade da regularização fundiária e seus impactos no desenvolvimento urbano

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Encontro da Geogis reuniu equipes técnicas de consórcios intermunicipais para discutir a continuidade da Reurb

Representantes de 19 municípios mato-grossenses participaram, nesta quarta-feira (29.07), de uma capacitação voltada às Diretrizes para Continuidade da Política Municipal de Regularização Fundiária Urbana (Reurb). O encontro reuniu equipes técnicas dos consórcios Vale do Guaporé e CIDESARP (Consórcio Intermunicipal de Desenvolvimento Econômico, Social, Ambiental e Turístico do Alto do Rio Paraguai) para discutir os desafios da etapa posterior à entrega dos títulos de propriedade e o fortalecimento das políticas públicas de regularização fundiária.

A capacitação foi conduzida pelo diretor jurídico da Geogis Geotecnologia, Robison Pazzeto, que destacou que a regularização fundiária não termina com a emissão do título do imóvel. Segundo ele, a continuidade das ações é fundamental para consolidar os resultados da política pública, garantindo que os núcleos urbanos regularizados sejam plenamente incorporados ao planejamento das cidades e que as famílias tenham assegurados todos os direitos decorrentes da titulação.

“O pós-Reurb é uma etapa decisiva. A regularização precisa continuar sendo acompanhada para que os municípios consigam integrar essas áreas ao ordenamento urbano, consolidar a segurança jurídica das famílias e ampliar os benefícios sociais, urbanísticos e econômicos gerados por esse processo”, afirmou Pazzeto.

Além de garantir segurança jurídica aos moradores, a Regularização Fundiária Urbana tem sido apontada como um instrumento capaz de reduzir desigualdades e impulsionar o desenvolvimento local.

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Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima que entre 30% e 50% dos imóveis brasileiros ainda apresentem algum tipo de irregularidade documental. O levantamento aponta que um amplo processo de regularização pode gerar impacto superior a R$ 202 bilhões em valorização imobiliária no país.

Com a documentação em dia, os proprietários passam a ter acesso a linhas de crédito, podem utilizar o imóvel como garantia, realizar financiamentos, comercializar o bem legalmente e investir na melhoria das residências.

Os benefícios também alcançam as administrações municipais. A atualização cadastral decorrente da Reurb melhora a gestão territorial, amplia a base tributária, fortalece a arrecadação de impostos como IPTU e ITBI sem aumento de alíquotas e oferece informações mais precisas para o planejamento urbano e a expansão de serviços públicos, como infraestrutura, pavimentação, saneamento e iluminação.

Para os participantes, a capacitação teve aplicação prática na realidade dos municípios. Representando o município de Comodoro, Diego Garcia afirmou que o treinamento trouxe mais segurança técnica para dar continuidade aos projetos em andamento.

“Foi uma oportunidade importante para aprofundarmos o conhecimento sobre a Reurb e esclarecer dúvidas que surgem no dia a dia. Voltamos mais preparados para dar continuidade aos processos já iniciados e conduzir futuras regularizações com mais segurança jurídica, beneficiando diretamente as famílias que aguardam pela documentação definitiva de seus imóveis”, afirmou Garcia.

Outro participante destacou que o conhecimento adquirido contribuirá para enfrentar um problema comum em diversos municípios: a existência de imóveis sem documentação regular.

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“Compreender melhor a legislação e os procedimentos da Reurb nos dá condições de organizar o cadastro imobiliário do município, facilitar o acesso da população às informações sobre seus imóveis e tornar o trabalho dos servidores mais eficiente e seguro. Quem ganha com isso é toda a cidade”, relatou Jorge Luís Ferreira dos Santos, representante de Nortelândia.

A Lei Federal nº 13.465/2017, que instituiu novos instrumentos para a Regularização Fundiária Urbana, ampliou as possibilidades de incorporação de núcleos urbanos informais ao ordenamento territorial e permitiu acelerar a titulação definitiva de milhares de famílias em todo o país.

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