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Jogos digitais e crianças: o risco silencioso que cresce dentro de casa

Oscar Soares Martins
A transformação digital avança em ritmo acelerado no Brasil e no mundo, redefinindo relações sociais, comportamentos e rotinas familiares. Entre os grupos mais impactados estão crianças e adolescentes, que hoje passam boa parte do tempo conectados a jogos digitais e plataformas online. O problema não está na tecnologia em si, mas na exposição precoce, prolongada e sem supervisão a ambientes digitais complexos e pouco controlados.
Jogos online deixaram de ser apenas entretenimento. Tornaram-se verdadeiros ambientes sociais, com chats abertos, mensagens privadas, economias próprias, recompensas psicológicas e interação direta com desconhecidos. Para crianças e adolescentes — ainda em formação emocional e cognitiva — esses espaços representam riscos reais e muitas vezes invisíveis aos pais.
Dados do DataSenado indicam que cerca de 24% dos brasileiros já foram vítimas de golpes digitais, o que representa dezenas de milhões de pessoas. Especialistas alertam que jovens e adolescentes estão cada vez mais presentes nesse grupo, seja como vítimas diretas, seja como alvos de tentativas de aliciamento, manipulação emocional e fraudes financeiras.
Um dos casos mais emblemáticos é o Roblox. A plataforma reúne aproximadamente 144 milhões de usuários ativos diariamente em todo o mundo, em sua maioria crianças e adolescentes abaixo dos 16 anos. No Brasil, o jogo figura entre os mais populares dessa faixa etária. Apesar da aparência lúdica e infantil, o ambiente permite interações anônimas, conversas privadas, circulação de dinheiro virtual e criação de conteúdos por usuários, ampliando significativamente a superfície de risco.
O crime digital contra menores raramente começa de forma violenta. Ele se inicia, em geral, por conversas aparentemente inocentes, trocas de atenção, elogios e promessas. A partir daí, surgem casos de chantagem, extorsão, uso indevido de cartões, roubo de contas e exploração emocional. Em muitos episódios, os pais só tomam conhecimento quando o dano financeiro ou psicológico já ocorreu.
Outro fator crítico é o tempo excessivo de exposição. Levantamentos sobre hábitos digitais mostram que crianças e adolescentes brasileiros passam várias horas diárias conectados, especialmente em jogos projetados para estimular permanência contínua e engajamento prolongado. Esse modelo, baseado na captura da atenção, está associado a aumento de ansiedade, dificuldade de concentração, distúrbios do sono e isolamento social, segundo especialistas em saúde mental e educação.
O aspecto mais preocupante é que a maioria dos crimes digitais envolvendo menores não é formalmente denunciada. Medo, vergonha, chantagem e desconhecimento dos responsáveis mantêm grande parte dos casos fora das estatísticas oficiais, criando a falsa percepção de que se trata de episódios isolados.
Não se trata de demonizar jogos digitais ou impedir o acesso à tecnologia. Trata-se de responsabilidade adulta. Crianças não possuem maturidade suficiente para lidar sozinhas com ambientes digitais complexos, desenvolvidos por adultos e orientados por interesses econômicos claros.
A proteção exige presença ativa dos pais, diálogo constante, limites definidos e uso de ferramentas de controle parental. Liberdade sem acompanhamento não é autonomia — é exposição. Os riscos já estão postos. A tecnologia não espera. E a pergunta que precisa ser feita por pais e educadores é direta:
se algo estiver acontecendo com uma criança hoje, alguém saberia?
Proteger no ambiente digital não é exagero. É cuidado. É dever.
Oscar Soares Martins, consultor e especialista em cybersegurança e em IA
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Um estado que produz tanto não pode falhar com sua juventude
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A seca é um teste de gestão

Por Aluísio Metelo Junior*
A seca é um evento previsível e recorrente em todas as regiões produtoras do país. Ainda assim, muitos produtores chegam ao período crítico sem aceiros revisados, divisas limpas, estradas internas operacionais, equipes treinadas ou um plano estruturado de prevenção. Embora seja frequentemente tratada apenas como um problema climático, a seca é, na prática, um teste de gestão. Existe uma máxima que deveria orientar toda propriedade rural: na seca não se planeja, na seca se executa. O planejamento precisa ocorrer meses antes, pois quando os primeiros incêndios surgem, já é tarde para definir estratégias.
A principal barreira contra o fogo não é o caminhão-pipa, mas a manutenção preventiva da fazenda. As Resoluções nº 02 e nº 03 do COMIF reforçam que a prevenção deve fazer parte da rotina de gestão antes do período crítico, e não ser uma resposta emergencial à crise. Entre as medidas mais importantes estão os aceiros, que não podem ser vistos como mera exigência burocrática. Eles constituem a principal barreira física contra a propagação do fogo e devem ser dimensionados de acordo com a vegetação e o relevo, permanecendo limpos, contínuos e estrategicamente posicionados em divisas, reservas, florestas plantadas, lavouras e áreas de infraestrutura. Aceiros mal conservados oferecem apenas uma falsa sensação de segurança.
A segunda linha de defesa é formada pelas pessoas. Equipamentos sem operadores capacitados pouco contribuem para o combate aos incêndios e podem até aumentar os riscos. Ainda é comum a crença de que possuir um caminhão-pipa ou reservatório de água seja suficiente, mas a eficiência da resposta depende do preparo da equipe. As resoluções do COMIF destacam a importância da capacitação operacional, especialmente porque os primeiros minutos de um incêndio costumam ser decisivos para o controle das chamas.
É importante compreender que o fogo destrói aquilo que a seca apenas castiga. Enquanto a estiagem reduz a produtividade, o incêndio pode eliminar completamente os recursos necessários para a recuperação da propriedade. Pastagens, cercas, máquinas, áreas de preservação, florestas plantadas e a própria fertilidade do solo podem ser severamente comprometidos. Em muitos casos, os prejuízos de um único incêndio superam amplamente o investimento necessário para implantar medidas preventivas.
Nesse cenário, o Plano de Prevenção e Combate a Incêndios Florestais (PPCIF) assume papel central. O documento funciona como um verdadeiro plano de voo da propriedade durante a seca, identificando riscos, áreas sensíveis, rotas de acesso, pontos de abastecimento de água, estruturas de apoio e protocolos de atuação.
Por sua complexidade técnica e legal, o PPCIF não deve ser tratado como mera formalidade. Sua elaboração exige acompanhamento de profissional qualificado, capaz de adequar o plano à legislação vigente, dimensionar corretamente recursos e orientar ações preventivas. Mais do que um documento, o PPCIF é uma ferramenta de gestão de risco que protege o patrimônio, reduz a exposição a multas e fortalece a capacidade de resposta da propriedade.
Quando a umidade cai, os ventos aumentam e os primeiros focos aparecem, não há espaço para improviso. A seca apenas revela quais propriedades se prepararam adequadamente. Aceiros revisados, equipes treinadas, equipamentos inspecionados, estradas operacionais e um PPCIF atualizado são os elementos que definem se a propriedade estará protegida ou vulnerável diante do fogo.
Aluísio Metelo Junior é Coronel Veterano do Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso, engenheiro de incêndio e especialista com mais de 30 anos de experiência em Prevenção e Combate a Incêndios Florestais, ex-Presidente do Comitê Nacional de Gestão de Incêndios Florestais (CONAGIF/LIGABOM) e ex-membro do Comitê Nacional de Manejo Integrado do Fogo (COMIF), CEO da Ellos Soluções Contra Incêndios Florestais.
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