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Tradição não paga conta no agronegócio moderno

No agronegócio, a paixão pelo campo atravessa gerações. De pais para filhos e netos, constrói-se um legado marcado por orgulho, trabalho e identidade. Mas, quando o assunto é gestão, apenas a emoção não sustenta um negócio. Em um cenário cada vez mais competitivo, propriedades rurais têm ficado pelo caminho por falta de planejamento e, principalmente, por falhas nos processos de sucessão. Garantir longevidade no agro exige mais do que honrar o passado: requer profissionalização com estratégia. O produtor moderno precisa tomar decisões baseadas em dados, indicadores e análise de mercado. Porque, na prática, tradição sozinha não paga a conta.
Hoje, não há mais espaço para gestão baseada em anotações informais ou controles improvisados. É indispensável conhecer custos, trabalhar com centros de dados e utilizar plataformas de gestão eficientes para colher resultados. Quem não domina seus números perde competitividade. Manter as raízes é importante, mas crescer exige eficiência. Quando a produtividade estagna, é sinal claro de que algo precisa mudar, seja o sistema produtivo, a cultura explorada ou até o modelo de negócio. Adaptar-se deixou de ser uma opção: passou a ser uma necessidade.
Um exemplo claro está na pecuária leiteira. Muitas propriedades tradicionais enfrentam dificuldades diante da volatilidade de preços e de margens cada vez mais apertadas. O resultado? Atividades historicamente consolidadas se tornam inviáveis. Nesse contexto, diversificar a renda deixa de ser estratégia e passa a ser sobrevivência. A produção de queijos artesanais, por exemplo, surge como alternativa para agregar valor. Algumas fazendas perceberam esse movimento e reposicionaram suas operações: reduziram ou até encerraram a produção direta de leite para focar na industrialização, comprando matéria-prima de terceiros com qualidade e concentrando esforços onde realmente são mais eficientes.
Na pecuária de corte, a lógica também mudou. Não se trata mais de expandir área, mas de intensificar resultados. Investimentos em genética, nutrição e manejo permitem reduzir ciclos, aumentar o ganho de peso e produzir carne de melhor qualidade. Resultado: mais produtividade com menos recursos.
Para os agricultores, o desafio é o mesmo: produzir mais na mesma área. Isso só é possível com planejamento rigoroso, que começa antes do plantio e se estende até o pós-colheita. Comprar insumos com antecedência, negociar melhor e usar tecnologia para a tomada de decisão são diferenciais competitivos.
Desperdício não é só dinheiro
Um erro comum no campo é associar desperdício apenas ao financeiro, mas, na prática, ele também está ligado à falta de controle e ao uso inadequado ou excessivo de insumos, o que compromete toda a eficiência da operação. A análise de solo é um exemplo clássico. Mesmo sendo fundamental para entender a fertilidade e corrigir deficiências, muitas vezes é negligenciada ou mal executada. O resultado são aplicações incorretas de insumos, elevando custos e prejudicando o solo.
Erros simples na coleta já comprometem tudo: armazenamento inadequado, exposição ao calor ou transporte incorreto podem alterar as características da amostra. Quando chega ao laboratório, o resultado já não reflete a realidade, e decisões equivocadas são tomadas a partir disso. Por isso, mais do que realizar a análise, é essencial garantir qualidade em todo o processo: coleta bem-feita, armazenamento correto e escolha de laboratórios confiáveis. Assim como na saúde humana, a eficiência do diagnóstico define o resultado do tratamento.
Comece pela gestão
A transformação no agro começa pela gestão. Planejamento, capacitação e disciplina no controle de dados são os primeiros passos. Registrar informações deve deixar de ser tarefa eventual e se tornar rotina. Mas não basta anotar, é preciso interpretar. E é aqui que entram as ferramentas tecnológicas, que permitem transformar dados em decisões estratégicas. Softwares de gestão rural, agricultura de precisão, monitoramento remoto e análise de indicadores já são realidade e acessíveis. Ignorar essas soluções é abrir mão de competitividade.
As fazendas que mais crescem hoje são aquelas que entenderam um ponto essencial: tradição é base, não limite. Elas preservam sua história, mas não hesitam em evoluir, adotando tecnologia, otimizando processos e buscando eficiência continuamente. No agro moderno, vence quem une experiência com gestão profissional.
No meu recente lançamento, o livro Colhendo Resultados: O Guia Prático da Agricultura Moderna e Mais Lucrativa, abordo um pouco dessas questões. Afinal, é uma obra 100% baseada em minhas três décadas de experiência prática no agro. A solução consiste na transição da administração informal para a administração profissional.
A ideia foi mostrar como concretizar essa mudança crucial, substituindo a administração por instinto pela administração estratégica, com controle de custos, conexão com o mercado para agregar valor, diversificação de canais e acesso a mercados diferenciados, que pagam mais por qualidade e rastreabilidade. Hoje, a tecnologia é acessível e permite muitas decisões a partir do celular.
Dicas práticas de eficiência na gestão rural
- Tenha controle total dos custos: saiba exatamente quanto custa produzir cada hectare, litro de leite ou arroba.
- Utilize indicadores: produtividade, margem, custo por unidade, medir é o primeiro passo para melhorar.
- Planeje com antecedência: compras antecipadas reduzem custos e aumentam previsibilidade.
- Invista em tecnologia: softwares de gestão e ferramentas digitais não são mais luxo, e sim necessidade.
- Capacite a equipe: pessoas preparadas executam melhor e evitam desperdícios.
- Diversifique receitas: não dependa de uma única fonte de renda., várias podem equilibrar a propriedade.
- Revise processos constantemente: o que funcionou ontem pode não ser suficiente hoje.
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Agro em ano eleitoral: até onde podem ir os incentivos e benefícios fiscais?
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63 anos não se constroem por acaso: a liderança por trás da longevidade empresarial

Por Ulana Bruehmueller
O brasileiro tem uma reconhecida vontade de empreender. Muitas empresas nascem pequenas, de um sonho, de uma oportunidade ou da necessidade de construir um futuro melhor. Começam com poucos recursos, muito trabalho e a esperança de crescer ano após ano.
Mas começar uma empresa é apenas o primeiro desafio. Fazê-la permanecer, atravessar gerações e continuar relevante é uma conquista muito maior.
No Brasil, poucas empresas alcançam mais de seis décadas de atividade. Ao longo do caminho, enfrentam obstáculos que vão do acesso ao crédito aos elevados custos de insumos, energia e produção, além da carga tributária, da insegurança jurídica e de uma logística ainda cara e ineficiente.
É nesse contexto que celebramos os 63 anos da Refrigerantes Marajá.
Mais do que uma data no calendário, este aniversário nos convida a uma reflexão: o que faz uma organização atravessar tantas transformações e permanecer relevante ao longo das gerações?
A qualidade dos produtos e a confiança dos consumidores são fundamentais. Mas longevidade também se constrói com liderança forte, propósito definido, valores consistentes e pessoas alinhadas em torno de uma mesma direção.
Ao longo de mais de seis décadas, a Marajá precisou se transformar inúmeras vezes. Cresceu, ampliou mercados, modernizou sua estrutura industrial, incorporou tecnologias, profissionalizou processos, fortaleceu sua governança e desenvolveu novas marcas e produtos.
Ao mesmo tempo, avançou em uma agenda de ESG cada vez mais consistente, compreendendo que responsabilidade ambiental e social, ética e boa governança não devem existir apenas no discurso. Precisam estar incorporadas à maneira como uma organização toma decisões e pensa no seu futuro.
Essa capacidade de evoluir sem perder a essência talvez seja uma das principais explicações para a longevidade de uma empresa.
E nenhuma transformação acontece sem pessoas.
Ao longo da minha carreira, aprendi que podemos definir estratégias, estabelecer metas, investir em tecnologia e modernizar processos, mas são as pessoas que transformam o planejamento em resultado. Por isso, o alinhamento da liderança e o comprometimento do time são fatores concretos de competitividade.
Estratégias mudam. Mercados mudam. Tecnologias evoluem. Gerações chegam com novas expectativas. Os valores, entretanto, permanecem como uma bússola, permitindo que a empresa se transforme sem perder sua identidade.
Tenho muito orgulho de ter dedicado mais de 30 anos da minha vida profissional à Marajá e de ter crescido junto com esta empresa. Foram décadas de desafios, crises, decisões, expansão, transformação e, acima de tudo, aprendizado.
Por isso, celebrar estes 63 anos é também agradecer.
Aos fundadores que tiveram a disposição de empreender. Aos acionistas, diretores e líderes que assumiram a responsabilidade de conduzir a empresa ao longo do tempo. Aos profissionais que passaram por aqui e deixaram sua contribuição. E aos que hoje continuam escrevendo esta história e preparando a Marajá para o futuro.
Depois de tantos anos na indústria, compreendo que uma das maiores responsabilidades de uma liderança não é apenas entregar os resultados do presente. É criar condições para que a organização continue crescendo e gerando valor para as próximas gerações.
Longevidade empresarial não é simplesmente resistir ao tempo. É atravessar gerações evoluindo sempre. Continuar olhando para frente e assumindo responsabilidade pelo futuro!
Ulana Maria Bruehmueller é CEO da Refrigerantes Marajá
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A cidade começa na calçada

Rodrigo Arruda e Sá
Quando pensamos em desenvolvimento urbano, quase sempre imaginamos grandes avenidas, viadutos, pontes ou obras de infraestrutura. Tudo isso é importante, mas existe um elemento muito mais presente na vida das pessoas e que, muitas vezes, passa despercebido: a calçada. É nela que a cidade realmente começa, porque é por ela que todos nós caminhamos antes de entrar em um carro, em um ônibus, em um comércio ou em uma praça.
A qualidade de uma cidade pode ser medida pela forma como ela trata o pedestre. É pela calçada que uma criança vai à escola, um idoso chega à farmácia, uma mãe empurra o carrinho do filho e um trabalhador segue até o ponto de ônibus. Quando esse espaço está esburacado, desnivelado, ocupado irregularmente ou simplesmente não existe, a cidade transmite uma mensagem clara: as pessoas deixaram de ser prioridade.
Não é preciso olhar para a Europa para encontrar bons exemplos. Curitiba transformou o cuidado com as calçadas em uma política permanente de urbanismo e acessibilidade. Maringá tornou-se referência nacional pela arborização, pela conservação dos espaços públicos e pela qualidade de seus passeios. Joinville e Blumenau também demonstram como calçadas bem cuidadas, praças limpas, iluminadas e bem conservadas tornam a cidade mais acolhedora para moradores, turistas e comerciantes.
Essas cidades compreenderam que desenvolvimento urbano não se resume a grandes obras. A qualidade de vida nasce dos espaços que as pessoas utilizam diariamente. Calçadas acessíveis, arborização, praças bem cuidadas, iluminação eficiente e limpeza permanente estimulam a convivência, fortalecem o comércio de rua, aumentam a sensação de segurança e fazem com que os moradores sintam orgulho da cidade onde vivem.
Em Cuiabá, infelizmente, ainda convivemos com uma realidade distante desse padrão. Além das calçadas interrompidas, desniveladas ou sem acessibilidade, muitas praças apresentam sinais evidentes de abandono.
A Praça Ipiranga, um dos espaços mais tradicionais da capital, frequentemente convive com acúmulo de lixo e mau cheiro, enquanto a Praça Popular, um dos principais pontos de encontro da cidade, além de estar coberta de lixo, sofre com a iluminação deficiente e manutenção insuficiente. Em vez de convidarem as famílias ao convívio, ao esporte e ao lazer, esses espaços acabam transmitindo uma sensação de descuido incompatível com a importância que têm para a vida urbana.
Como contador e empresário, aprendi que cidades agradáveis também são cidades economicamente mais fortes. O comércio prospera quando as pessoas caminham pelas ruas com conforto e segurança, frequentam as praças, permanecem mais tempo nos espaços públicos e ocupam naturalmente os centros comerciais. Investir nesses ambientes não é apenas uma política de urbanismo; é também uma política de desenvolvimento econômico.
É evidente que Cuiabá precisa continuar investindo em mobilidade, infraestrutura e transporte coletivo. Mas nenhuma dessas políticas produzirá resultados completos se esquecermos que toda viagem começa e termina a pé.
Antes de sermos motoristas, passageiros ou ciclistas, todos nós somos pedestres, e uma cidade que não acolhe quem caminha dificilmente será acolhedora para qualquer outro meio de transporte.
Talvez esteja na hora de ampliarmos o conceito de desenvolvimento urbano. Em vez de avaliar uma administração apenas pelo número de quilômetros de asfalto entregues ou pelas grandes obras inauguradas, deveríamos observar também a qualidade das calçadas, das praças e dos espaços públicos onde a vida realmente acontece.
Cuidar desses pequenos detalhes não é uma questão estética, mas uma demonstração de respeito ao cidadão e de compromisso com a qualidade de vida. Afinal, uma cidade verdadeiramente humana não se mede apenas pelo tamanho de suas avenidas, mas pelo cuidado com os lugares onde seus moradores caminham, convivem e constroem diariamente a sua história.
*RODRIGO ARRUDA E SÁ é contador, bacharel em Direito, empresário e ex-vereador de Cuiabá.
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