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A seca é um teste de gestão

Por Aluísio Metelo Junior*
A seca é um evento previsível e recorrente em todas as regiões produtoras do país. Ainda assim, muitos produtores chegam ao período crítico sem aceiros revisados, divisas limpas, estradas internas operacionais, equipes treinadas ou um plano estruturado de prevenção. Embora seja frequentemente tratada apenas como um problema climático, a seca é, na prática, um teste de gestão. Existe uma máxima que deveria orientar toda propriedade rural: na seca não se planeja, na seca se executa. O planejamento precisa ocorrer meses antes, pois quando os primeiros incêndios surgem, já é tarde para definir estratégias.
A principal barreira contra o fogo não é o caminhão-pipa, mas a manutenção preventiva da fazenda. As Resoluções nº 02 e nº 03 do COMIF reforçam que a prevenção deve fazer parte da rotina de gestão antes do período crítico, e não ser uma resposta emergencial à crise. Entre as medidas mais importantes estão os aceiros, que não podem ser vistos como mera exigência burocrática. Eles constituem a principal barreira física contra a propagação do fogo e devem ser dimensionados de acordo com a vegetação e o relevo, permanecendo limpos, contínuos e estrategicamente posicionados em divisas, reservas, florestas plantadas, lavouras e áreas de infraestrutura. Aceiros mal conservados oferecem apenas uma falsa sensação de segurança.
A segunda linha de defesa é formada pelas pessoas. Equipamentos sem operadores capacitados pouco contribuem para o combate aos incêndios e podem até aumentar os riscos. Ainda é comum a crença de que possuir um caminhão-pipa ou reservatório de água seja suficiente, mas a eficiência da resposta depende do preparo da equipe. As resoluções do COMIF destacam a importância da capacitação operacional, especialmente porque os primeiros minutos de um incêndio costumam ser decisivos para o controle das chamas.
É importante compreender que o fogo destrói aquilo que a seca apenas castiga. Enquanto a estiagem reduz a produtividade, o incêndio pode eliminar completamente os recursos necessários para a recuperação da propriedade. Pastagens, cercas, máquinas, áreas de preservação, florestas plantadas e a própria fertilidade do solo podem ser severamente comprometidos. Em muitos casos, os prejuízos de um único incêndio superam amplamente o investimento necessário para implantar medidas preventivas.
Nesse cenário, o Plano de Prevenção e Combate a Incêndios Florestais (PPCIF) assume papel central. O documento funciona como um verdadeiro plano de voo da propriedade durante a seca, identificando riscos, áreas sensíveis, rotas de acesso, pontos de abastecimento de água, estruturas de apoio e protocolos de atuação.
Por sua complexidade técnica e legal, o PPCIF não deve ser tratado como mera formalidade. Sua elaboração exige acompanhamento de profissional qualificado, capaz de adequar o plano à legislação vigente, dimensionar corretamente recursos e orientar ações preventivas. Mais do que um documento, o PPCIF é uma ferramenta de gestão de risco que protege o patrimônio, reduz a exposição a multas e fortalece a capacidade de resposta da propriedade.
Quando a umidade cai, os ventos aumentam e os primeiros focos aparecem, não há espaço para improviso. A seca apenas revela quais propriedades se prepararam adequadamente. Aceiros revisados, equipes treinadas, equipamentos inspecionados, estradas operacionais e um PPCIF atualizado são os elementos que definem se a propriedade estará protegida ou vulnerável diante do fogo.
Aluísio Metelo Junior é Coronel Veterano do Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso, engenheiro de incêndio e especialista com mais de 30 anos de experiência em Prevenção e Combate a Incêndios Florestais, ex-Presidente do Comitê Nacional de Gestão de Incêndios Florestais (CONAGIF/LIGABOM) e ex-membro do Comitê Nacional de Manejo Integrado do Fogo (COMIF), CEO da Ellos Soluções Contra Incêndios Florestais.
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Recomeçar depois dos 60 exige coragem para abrir novas portas

Por Isolda Risso*
Tive a oportunidade de observar durante a vida que existe uma crença silenciosa que nos envolve ainda muito novos e diz que há uma idade para começar e outra para encerrar sonhos. Imobilizante, ela nos conta que ao cruzarmos determinadas idades, é esperado que nosso ritmo diminua, que nossos sonhos se reduzam e que as expectativas sejam deixadas de lado para a comodidade. Para mim, o tempo ensinou algo diferente.
Agora, após os 60 anos, todo ato de recomeçar se torna uma escolha de maturidade, e não apenas um privilégio exclusivo da juventude. Nos anos que passaram, tive a oportunidade de construir uma carreira como empresária, profissional, mãe e mulher, da mesma forma que vivi todos os desafios que cada uma dessas partes exigiu de mim, desde a educação dos filhos, a administração das responsabilidades, as perdas, mudanças e transformações.
Muito antes de aprender a escutar a mim mesma e compreender com profundidade o que meu espírito pedia, eu já atendia todas essas demandas do mundo externo, como nós mulheres sempre somos ensinadas a fazer. Talvez seja por isso, então, que a liberdade me venha com tanta facilidade nesta idade, porque o sentimento de ter me doado em todas essas frentes impulsiona a minha coragem de recomeçar, mesmo em uma idade que muitas pessoas optam por pouparem esforços em frente ao medo de tentar de novo.
Estes recomeços não apagam toda a história da minha vida, tampouco deixam de lado os momentos importantes que me formaram. São justamente eles, na realidade, usados como base para traçar novos caminhos, porque se eu não tivesse a maturidade que adquiri em vida, tendo me dedicado em cada momento dela, eu não teria a coragem para dar um novo passo, mesmo sentindo medo.
Nesta altura da humanidade, nós já vivemos mais do que nossas gerações anteriores, temos mais saúde, mais acesso a tecnologias que auxiliam no dia a dia, mais autonomia mesmo depois de determinada idade e, principalmente, mais ferramentas para encontrarmos quem realmente somos no mundo. Temos todos os meios para nos descobrirmos, aprender coisas novas e reencontrar versões de nós mesmos que ficaram para trás. Ainda assim, muitas pessoas permanecem aprisionadas pela ideia de que já passou o tempo de mudar de profissão, aprender algo novo, iniciar um relacionamento, empreender ou desenvolver um talento adormecido.
É por isso que, para mim, faz sentido acreditar que posso aprender mais. Que posso voltar a estudar, descobrir um novo propósito, abrir um negócio, viajar sozinha ou com amigas, ler um livro, plantar um jardim ou simplesmente me permitir experimentar algo que eu jamais considerei antes. A idade não me limita, ela não proíbe os meus recomeços, mas ela me permite compreender que eu ainda estou em construção, mesmo depois dos sessenta anos.
Durante minha caminhada, descobri que existe uma diferença importante entre envelhecer e amadurecer. O envelhecer é inevitável, esse processo humano que muitas vezes é rigoroso conosco, mas que também pode ser muito belo quando aceitamos as marcas do tempo e tudo que elas significam para nós. Já amadurecer é uma escolha consciente de continuar aprendendo, crescendo e se transformando, e talvez seja por isso que eu me defina como uma aprendiz da vida.
Recomeçar não exige juventude, mas exige muita coragem. E, muitas vezes, é justamente nesta maturidade, depois de uma vida inteira de experiências, que encontramos o impulso de coragem de tentar novamente.
*é empresária, cronista, coach de vida e terapeuta. Mulher 60+, mãe de um lindo casal de filhos, é graduada em Gastronomia, entusiasta da arteterapia e apaixonada por fotografia e arranjos florais. Curiosa de nascença, define-se como uma aprendiz da vida e um ser a caminho da evolução
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