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Mato Grosso

Incentivos fiscais promovem expansão de empresas de Mato Grosso

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Mato Grosso não “exporta” apenas energia elétrica – mais da metade (56%) de sua produção (em torno de 3 milhões de kW) é destinada ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Também exporta transformadores elétricos. Quase a totalidade (97%) destes equipamentos produzidos no Estado são vendidos não só para todos os estados brasileiros como para cinco países sul-americanos (Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai).

A responsável por isso é a Trael Transformadores Elétricos, empresa localizada no Distrito Industrial de Cuiabá em uma área de 77 mil m2, dos quais aproximadamente 40 mil m2 de área de construída, com 500 colaboradores diretos, que, desde o início de suas atividades em 1992, já produziu mais de 500 mil transformadores.

Recentemente, passou a produzir também transformadores de grande porte, pesando entre 40 e 50 toneladas cada, destinados a usinas e subestações de energia elétrica. “Fechamos contrato com o Grupo Energisa Equatorial, do Nordeste, para entrega de 20 unidades”, afirma o diretor presidente Marinaldo Ferreira dos Santos.

Segundo ele, para a produção de uma unidade mensal, está contratando 30 novos colaboradores. Sua meta, para dentro de cinco anos, é aumentar a produção para quatro unidades mensais.

“Quantos aos transformadores comuns, de pequeno porte, nossa produção chegou a 220 unidades diárias, mas por conta do mercado, caiu para 135, quase a metade. Mesmo assim, mantivemos nossos colaboradores. Jamais demitimos em massa”, explica.

Diretor presidente da Trael, Marinaldo Ferreira dos Santos, começou a trabalhar aos 13 anos como operário no setor de transformadores elétricos  (Foto: Christiano Antonucci/Secom MT)

Começo da carreira 

Paulista de Fernandópolis, Marinaldo dos Santos começou a trabalhar aos 13 anos, como operário de uma indústria de transformadores elétricos. Ao 19, mudou-se para Campo Grande (MS) para gerenciar uma pequena fábrica, também de transformadores, mas sempre sonhou em ter o próprio negócio.  

Cinco anos depois, em 1992, já em Cuiabá, o sonho se realizou. Com quatro sócios, abriu no bairro do Coxipó, a Trafotec (que mudou para Trael, resultado de um concurso interno, por não conseguir registrar a marca no Instituto Nacional da Propriedade Industrial – INPI), sem nenhum investimento, e ainda como uma recuperadora. “Começamos comprando carcaças de transformadores para recuperar e vender”.

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As primeiras unidades produzidas foram em 1996 – entre 10 e 20 peças mensais, vendidas somente no Estado. “Entre 1997 e 98, vimos que era possível Mato Grosso ter uma indústria genuinamente local, com penetração em todo o país. E, por acreditar que o sonho deve ser maior, passamos a reinvestir e olhar o negócio a médio e longo prazo”.

Assim, em 1999, com apoio da então Secretaria de Indústria e Comércio, adquiriu um terreno, de 16 mil m2, no Distrito Industrial e começou a construir sua primeira planta, com 3.750 m2, terminada no início do ano seguinte.

“Passamos a ter uma fábrica com cara de fábrica. Nove anos depois, em 2009, compramos outros 20 mil m2, de uma área onde funcionou uma indústria de sal mineral. Conforme a necessidade e o crescimento da empresa, investimos anualmente em pequenas e médias ampliações – tanto em área quanto em máquinas, equipamentos, tecnologias e laboratório”.

Foto: Christiano Antonucci/Secom MT 

Mais que transformadores, aço e eletro-ferragens

Quase três décadas depois de sua fundação, a Trael não só se expandiu como gerou outras duas unidades: a Centroaço, na produção de aço, telhas e perfis, e a CTA, de eletro-ferragens.

A Centroaço, nascida em 2010 como indústria-loja na Avenida Beira Rio, em Cuiabá, logo se expandiu. No ano seguinte, a unidade fabril se mudou para o Distrito Industrial. “Havia sobrado uma área, já construída, que não pretendíamos vender, nem lugar. Como somos grandes consumidores de aço, por que não aproveitar essa sinergia com a Trael?”, diz Marinaldo.

Enquanto isso, a loja da Beira Rio ficou restrita à distribuição, enquanto uma outra loja foi aberta em Sinop (500 km distante de Cuiabá, no sentido Norte). Hoje, estas três unidades contam com 150 colaboradores.

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“Como nossa economia é instável, precisamos buscar alternativas para não encolher. Por isso, há dois anos criamos a CTA. Nossos clientes, sejam eles gaúchos, baianos ou pernambucanos, que já adquirem os transformadores da Trael, vão comprar também as eletro-ferragens”.

Apesar de seus 40 colaboradores, produzindo, há 60 dias cerca de 80 toneladas de ferragens a cada mês, a CTA ainda é deficitária. Diz Marinaldo, que, por enquanto, os poucos pedidos sequer cobrem os custos da energia consumida na produção. “Primeiro, é preciso produzir para o cliente homologar sua fábrica, ver se há condições físicas e estruturais para estar produção se manter”.

Segundo ele, este processo demora ainda uns seis meses. “Homologados fábrica e produto, condição necessária para participar de concorrências, é preciso ainda ter competitividade e preço baixo, porque estamos disputando com uma empresa paranaense, há meio século no mercado”, conclui.  

 Foto: Christiano Antonucci/Secom MT

A força do incentivo

Marinaldo dos Santos afirma que a Trael conseguiu se destacar no setor, graças ao Prodeic (Programa de Desenvolvimento Industrial e Comercial de Mato Grosso). “Toda nossa matéria-prima é adquirida no Sul, Sudeste e de outros países e no Brasil as distâncias são grandes, aumentando ainda mais o custo do frete. Impossível competir com as industrias destes estados sem incentivo fiscal. Além disso, estados vizinhos como Mato Grosso do Sul e Goiás, mais próximos do consumo, também têm incentivos atrativos”.

Em sua opinião, ser contra o Prodeic é um equívoco. “Sou contra o incentivo mal aplicado, destinado a empresas sem nenhum vínculo com o desenvolvimento estadual. Mesmo com incentivo, nos últimos cinco anos, com exceção da agroindústria, nenhuma empresa de fora se instalou no Estado. Somente as empresas que aqui nasceram e cresceram continuam investindo”.

Por outro lado, contesta a interpretação de que a desoneração é sem retorno. Ele lembra que o um estudo da Fiemt (Federação das Industrias no Estado de Mato Grosso), feito com base em diversos dados e indicadores desde a criação do programa, em 2004, até 2017, demonstra que cada R$ 1 investido gerou um retorno de R$ 1,25 para a receita estadual.

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“Por causa do crescimento da Trael, a arrecadação nunca caiu. Está sempre aumentando, porque se paga ICMS sobre energia elétrica, telefonia e transporte, porque o incentivo incide apenas sobre a venda do produto. Além disso, o nosso colaborador direto consome comida, roupa, sapato, remédio, combustível, entre outros itens sobre os quais incide o imposto”.     

Como ter acesso ao Prodeic

Criado em 2003, o Programa de Desenvolvimento Industrial e Comercial de Mato Grosso (Prodeic) concede benefício fiscal, por 10 anos, sobre produtos da indústria de transformação. A proposta é contribuir para expansão, modernização e diversificação das atividades, por meio do estímulo a investimentos, inovação tecnológica e aumento da competividade, “com ênfase na geração de emprego e renda e na redução das desigualdades sociais e regionais”.

Para ser beneficiado, a empresa precisar estar estabelecida (ou se estabelecendo) em Mato Grosso; estar regular junto à Fazenda Pública Estadual, aos órgãos de fiscalização e controle ambiental; participar do Programa Primeiro emprego; e não usufruir de incentivo financeiro ou fiscal similar.

Para se cadastrar, o interessado entra no site da Sedec (Secretaria estadual de Desenvolvimento Econômico), via Sistema Gerencial de Incentivos, onde receberá o código do usuário e a senha de acesso e, em seguida, preencher a carta-consulta. Após esta etapa, a Sedec libera a carta consulta no sistema.

Imprimir e rubricar todas as páginas, protocolar na Sedec, junto com a documentação exigida, que pode ser conferida no próprio site. Caso falte algum documento, o pedido será negado.

Os processos habilitados serão submetidos a análises tributária, econômica, social e ambiental. O parecer técnico, resultante destas análises, serão apreciados pelo Conselho Estadual de Desenvolvimento Econômico (Cedem), composto por secretários de Estado e representantes de entidades estaduais e federais.    

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Empresários do setor da construção visitam o mais moderno centro de segurança do trabalho da América Latina

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Foto-Assessoria

Na tarde desta quinta-feira (13/08), um grupo de empresários associados ao Sindicato das Indústrias da Construção da Região Sul do Estado de Mato Grosso (Sinduscon Sul MT) realizou uma visita técnica e de imersão no recém-inaugurado Sesi Experience – Centro Avançado de Segurança do Trabalho, localizado em anexo às dependências da sede do Serviço Social da Indústria de Rondonópolis.

Antes do tour técnico, os associados participaram de uma breve palestra sobre os detalhes e o potencial de aprendizado do CT, que recebeu um investimento total de 12 milhões de reais. Na sequência, eles seguiram para o centro, onde passaram por experiências que simulam situações reais de acidentes de trabalho e momentos críticos.

Para o gestor regional de Saúde e Segurança do Trabalho do Sesi Mato Grosso, Márcio Alves, este foi o primeiro grupo de empresários a realizar a imersão no centro avançado. “Eles puderam presenciar toda a tecnologia voltada para a segurança do trabalho. Os equipamentos proporcionam uma imersão do trabalhador ao utilizar de forma correta tanto os equipamentos de proteção coletiva quanto os de proteção individual”, explicou.

Ainda segundo Márcio Alves, esses cenários e equipamentos fazem com que se mude o formato e a abordagem do trabalhador quanto à importância de prevenir a sua saúde e a sua segurança. “Aqui o foco é trazer essa experiência, onde o trabalhador vai poder fazer a utilização de forma correta do equipamento de segurança individual e voltar para sua rotina, na qual ele vai conseguir utilizar da melhor forma possível esse equipamento, fazendo uma imersão nesse ambiente saudável e seguro”, finalizou.

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O engenheiro civil e proprietário da empresa Plano Sul, Rafael Francisco Lopes Machado, foi um dos associados que fizeram a visita técnica ao Sesi Experience. “Foi uma experiência incrível, acredito que fora do normal. Nunca vi algo parecido, porque existe de fato uma imersão e é possível vivenciar situações em que sentimos estar passando pelo risco e aprendemos como não passar por eles na vida cotidiana e na operação da obra”, destacou.

Sesi Experience — O maior centro de treinamento em Saúde e Segurança do Trabalho da América Latina e o primeiro do Brasil, o Sesi Experience, fica em Rondonópolis. O complexo tem a missão de transformar a forma como as empresas capacitam seus trabalhadores, reunindo treinamentos que vão desde instalações elétricas e espaços confinados até o trabalho em altura. Para isso, utiliza tecnologia coreana imersiva para reproduzir situações reais de risco sem expor os participantes ao perigo. Idealizado pelo Sesi MT, a estrutura permite que o colaborador vivencie cenários críticos, aprenda a identificar riscos e adote os procedimentos corretos de segurança em um ambiente totalmente controlado.

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Mato Grosso

Lei Maria da Penha completa 20 anos ainda com entraves para ser colocada em prática

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A coordenadora do Nudem, Rosana Leite, participou de uma entrevista especial para analisar as duas décadas da lei além dos altos índices de feminicídio em Mato Grosso

Nesta sexta-feira (7), a Lei Maria da Penha (lei nº 11.340) completa 20 anos de promulgação. Considerada pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma das três melhores legislações mundiais quando se fala em defesa dos direitos das mulheres, ela ainda enfrenta muitos entraves para ser colocada em prática.

O reflexo dessas dificuldades bate à porta de Mato Grosso, afinal, de acordo com 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em julho deste ano, o estado registrou a terceira maior taxa de feminicídios do país em 2025. Naquele ano, Mato Grosso teve uma taxa de 2,7 feminicídios para cada 100 mil habitantes.

Embora estes números sejam menores do que os registrados em 2024, ano em que Mato Grosso figurou em primeiro lugar nas taxas de feminicídios com 2,5 casos para cada 100 mil habitantes, a coordenadora do Núcleo de Defesa da Mulher (Nudem) da Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso (DPEMT), Rosana Leite, garante que ainda não é hora de comemorar.

Mas como mudar esse quadro? De que forma a lei Maria da Penha ajudou a enfrentar a violência de gênero em seus 20 anos de promulgação? Para tirar essas e outras dúvidas, Rosana Leite concedeu uma entrevista especial na qual faz uma análise da legislação e conta um pouco mais sobre a atuação do Nudem em todo o estado.

Confira a entrevista:

Qual o maior legado da Lei Maria da Penha (LMP) nesses 20 anos da sua promulgação?

Rosana Leite – Eu vejo que o maior legado é a discussão do enfrentamento à violência contra as mulheres. Hoje nós sabemos que qualquer violação às mulheres se perfaz em violação aos Direitos Humanos das mulheres. Com a lei nós passamos a falar muito mais sobre esse enfrentamento. Antigamente as mulheres não tinham voz, mas hoje nós temos voz. Com a redemocratização do Brasil, o nosso país passou a ser signatário de tratados e convenções internacionais e a LMP é uma resposta a tudo isso, ela quebrou paradigmas ao mostrar que a violência contra a mulher deve ser enfrentada pelo Poder Público e não por pessoas mais próximas, como amigos e familiares. A Maria da Penha mostrou que a legislação deve amparar todas das mulheres. E agora, com a recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), ela também deve amparar todo o segmento LGBTQIAPN+. Portanto, a lei trouxe uma forma diferenciada da sociedade enxergar as mulheres, os Direitos Humanos e ter consciência que nós mulheres temos direitos, que nós precisamos de respeito, de consideração da sociedade, que a nossa historicidade precisa ser garantida porque nós fomos deixadas de lado por muito tempo.

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Ainda há dificuldades para colocar em prática algumas ações e políticas públicas voltadas às mulheres?

Rosana Leite – Sim. A Organização das Nações Unidas (ONU) já declarou que a Maria da Penha é uma das três leis mais importantes do mundo no que diz respeito ao enfrentamento da violência de gênero. Mas ela ainda não foi cumprida integralmente pelo Poder Público. A lei traz, por exemplo, políticas públicas importantíssimas em seu artigo oitavo que não foram todas cumpridas. E eu cito aqui a inclusão nos currículos escolares de matérias sobre o enfrentamento à violência contra as mulheres. Infelizmente nós não temos essa inclusão. Imagina se tivéssemos essa inclusão há 19 anos. Será que já não teríamos uma sociedade diferenciada? O enfrentamento da violência contra as mulheres passa pela educação. Mas enquanto nós não mudarmos os currículos escolares, não iremos trabalhar no cerne do problema. A educação ainda é a chave. Virando essa chave, quem sabe poderemos ter outra realidade.

Outro ponto. Infelizmente a LMP ainda não é cumprida integralmente e de forma homogênea no Brasil. No Conselho Nacional das Defensoras e Defensores Públicos-Gerais (Condege) temos a Comissão de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres e lá nós conseguimos enxergar que em cada estado a LMP passa a ser aplicada de uma forma diferente. Portanto, essa falta de políticas públicas homogêneas, da aplicabilidade da lei de forma homogênea, tem prejudicado uma lei que já tem 20 anos.

Quando a LMP surgiu, nós tivemos que nos readequar, fazer com que a sociedade entendesse a lei. No começo ela foi chamada de inconstitucional. Quando a lei tinha apenas seis anos, a Corte Suprema do país teve que declarar a sua constitucionalidade. Já quando a lei estava em sua fase de “adolescência”, ela ganhou seus remendos e alterações. Hoje, na fase “adulta”, nós precisamos que ela seja cumprida. Mas esse cumprimento de forma homogênea nós ainda não temos.

O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública coloca Mato Grosso em terceiro lugar nas taxas de feminicídio no Brasil em 2025. Em 2024 estávamos em primeiro lugar. Como a senhora analisa este quadro? Podemos comemorar essa queda do primeiro para o terceiro lugar?

Rosana Leite – Isso é muito delicado. Nosso estado é referência na aplicação da LMP. Aqui em Mato Grosso, o Poder Judiciário, a Defensoria Pública e o Ministério Público foram os primeiros do Sistema de Justiça a colocar a lei em prática. Somos referência para outros estados. Nós aplicamos dentro do Sistema de Justiça a competência híbrida que ajuda muito no atendimento das mulheres, mas, mesmo assim, ocupamos esse triste ranking. Então, não, eu não comemoro essa descida para o terceiro lugar. Não acho que deveríamos comemorar, mas sim nos preocupar. Até o início de agosto já registramos 27 feminicídios em Mato Grosso. Ter o nosso estado ocupando primeiro, segundo e terceiro lugar nesse ranking é muito triste e nos mostra o quanto nós vivemos num estado patriarcal. Esse ranking mostra que as nossas mulheres não são bem tratadas em Mato Grosso. Ele nos mostra que ainda vivemos o patriarcalismo, o machismo exacerbado, que somos um estado machista, homofóbico, transfóbico e que não tem respeitado os segmentos de pessoas em situação de vulnerabilidade.

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Você disse que somos o estado que melhor aplica a lei Maria da Penha, mas mesmo assim estamos nesse ranking de onde mais morrem mulheres. Como explicar esse paradoxo?

Rosana Leite – Eu explico da seguinte forma: apenas o Sistema de Justiça não é capaz de resolver tudo. Não é possível resolver todo esse problema apenas com a aplicação da lei. Por isso que eu sempre defendo que o aumento de pena jamais vai resolver a situação. Nós vivemos em um país que não socializa e não ressocializa. A ressocialização das pessoas é quase impossível. Um dia cumprindo pena em uma cadeia do Brasil é horrível. Nós precisamos trabalhar a prevenção. A Ultima Ratio do Sistema de Justiça {expressão em latim que significa Último Recurso no Direito Penal} é a prisão do agressor, mas o aumento de pena não resolve. Hoje o feminicídio e o vicaricídio {crime em que o agressor mata uma pessoa próxima a uma mulher, como filhos, pais ou dependentes, no contexto de violência doméstica, com o objetivo exclusivo de causar sofrimento eterno, punir ou controlar a mulher} são os crimes com maiores penas, que são de 20 a 40 anos de prisão, mas somente isso não resolve.

E como você analisa os projetos de lei que ensinam mulheres a se defender com lutas, aulas de tiro e até mesmo os que liberam o uso de spray de pimenta?

Rosana Leite – Eu vejo que não trazem uma solução efetiva. Em uma luta corporal, por exemplo, fatalmente uma mulher perde. Se tem algo que nós somos diferentes é na nossa estrutura física. Imagina o spray de pimenta na mão de uma pessoa que não sabe usar, uma arma na mão de quem não sabe manusear? “Ah, mas nós vamos dar curso. Vamos ensinar a usar”. Mas e a estrutura física, onde fica? Aí eu volto na questão da luta corporal. Em regra, um homem vai vencer a mulher, então será que o uso errado do spray de pimenta não trará uma situação pior? Por isso eu acho que a prevenção através da educação das nossas crianças e adolescentes, desde a tenra infância até a fase da faculdade, é a forma mais eficaz. Temos que incluir nos currículos escolares o que é a violência contra a mulher, o que causa essa violência dentro da sociedade, como ela atinge o quadro familiar e a sociedade. Os presídios brasileiros estão cheios de pessoas que foram vítimas de violência doméstica na infância, ou que presenciaram essa violência. Por essa razão eu defendo que a educação é a forma que temos para garantir a prevenção da violência à médio e longo prazo.

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Agora vamos falar do Nudem. Quais são as maiores demandas do Núcleo?

Rosana Leite – A criação do Nudem aconteceu em 2014, mas nós fazemos a defesa das mulheres desde o advento da LMP. A DPEMT foi uma das primeiras do Brasil a aplicar a LMP, mas o Nudem como Núcleo surgiu a partir de 2014. Nacionalmente a Defensoria Pública fez questão de ampliar o atendimento das mulheres. A LMP foi tão de vanguarda que ela trouxe a necessidade das Varas de Justiça, dos Juizados dentro do Poder Judiciário e dentro da Defensoria Pública de termos núcleos de atendimento especializados. Tivemos o aumento das Delegacias Especializadas e toda essa gama do Sistema de Justiça ajuda no amparo das mulheres em forma de rede para que elas saibam onde pode buscar o atendimento. Aqui na Defensoria Pública nós fizemos questão de ampliar esse atendimento. Nós não atendemos apenas mulheres vítimas de violência, nós atendemos a violência de gênero nacionalmente. Então, toda e qualquer mulher que venha passar por violência, dentro ou fora de casa, pode buscar o Nudem. A violência que mais aporta aqui no Nudem é a violência doméstica e familiar, onde estão as ameaças e a violência psicológica. Esses são os crimes que as mulheres mais narram.

Como você espera encontrar a Lei Maria da Penha daqui 20 anos?

Rosana Leite – Nunca parei para pensar nisso, mas acho que de tempos em tempos nós estamos ganhando mais atuação, mais confiança da sociedade. Em 2019 o Data Senado fez uma pesquisa, ele entrevistou mulheres vítimas de violência e que decidiram não lavrar um boletim de ocorrência. Eles questionaram o porquê delas não terem lavrado o boletim. Nessa época, a LMP estava fazendo 13 anos e essa pesquisa me marcou muito, pois 79% das mulheres responderam que tinham medo de que a violência se tornasse ainda maior, mesmo com uma lei tão importante em mãos. Quer dizer, elas não acreditavam na lei. A sociedade ainda não confia na efetividade da Maria da Penha. Então, eu quero que as mulheres estejam confiando mais na efetividade da lei, que o Sistema de Justiça continue ampliando o seu atendimento, que o Poder Público, que a rede de atenção se debruce em prol dos Direitos Humanos das mulheres. Estamos em época de campanha política, nessa época ouvimos muito falar no enfrentamento à violência contra as mulheres. Só que a pauta nunca chega até onde nós queremos. Por isso que essa pauta deve avançar na política para enfrentar a violência que tem acontecido todos os dias. Mas, acima de tudo, precisamos dar crédito a palavra das mulheres. Todos os dias.

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Mato Grosso

Municípios de MT debatem continuidade da regularização fundiária e seus impactos no desenvolvimento urbano

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Encontro da Geogis reuniu equipes técnicas de consórcios intermunicipais para discutir a continuidade da Reurb

Representantes de 19 municípios mato-grossenses participaram, nesta quarta-feira (29.07), de uma capacitação voltada às Diretrizes para Continuidade da Política Municipal de Regularização Fundiária Urbana (Reurb). O encontro reuniu equipes técnicas dos consórcios Vale do Guaporé e CIDESARP (Consórcio Intermunicipal de Desenvolvimento Econômico, Social, Ambiental e Turístico do Alto do Rio Paraguai) para discutir os desafios da etapa posterior à entrega dos títulos de propriedade e o fortalecimento das políticas públicas de regularização fundiária.

A capacitação foi conduzida pelo diretor jurídico da Geogis Geotecnologia, Robison Pazzeto, que destacou que a regularização fundiária não termina com a emissão do título do imóvel. Segundo ele, a continuidade das ações é fundamental para consolidar os resultados da política pública, garantindo que os núcleos urbanos regularizados sejam plenamente incorporados ao planejamento das cidades e que as famílias tenham assegurados todos os direitos decorrentes da titulação.

“O pós-Reurb é uma etapa decisiva. A regularização precisa continuar sendo acompanhada para que os municípios consigam integrar essas áreas ao ordenamento urbano, consolidar a segurança jurídica das famílias e ampliar os benefícios sociais, urbanísticos e econômicos gerados por esse processo”, afirmou Pazzeto.

Além de garantir segurança jurídica aos moradores, a Regularização Fundiária Urbana tem sido apontada como um instrumento capaz de reduzir desigualdades e impulsionar o desenvolvimento local.

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Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima que entre 30% e 50% dos imóveis brasileiros ainda apresentem algum tipo de irregularidade documental. O levantamento aponta que um amplo processo de regularização pode gerar impacto superior a R$ 202 bilhões em valorização imobiliária no país.

Com a documentação em dia, os proprietários passam a ter acesso a linhas de crédito, podem utilizar o imóvel como garantia, realizar financiamentos, comercializar o bem legalmente e investir na melhoria das residências.

Os benefícios também alcançam as administrações municipais. A atualização cadastral decorrente da Reurb melhora a gestão territorial, amplia a base tributária, fortalece a arrecadação de impostos como IPTU e ITBI sem aumento de alíquotas e oferece informações mais precisas para o planejamento urbano e a expansão de serviços públicos, como infraestrutura, pavimentação, saneamento e iluminação.

Para os participantes, a capacitação teve aplicação prática na realidade dos municípios. Representando o município de Comodoro, Diego Garcia afirmou que o treinamento trouxe mais segurança técnica para dar continuidade aos projetos em andamento.

“Foi uma oportunidade importante para aprofundarmos o conhecimento sobre a Reurb e esclarecer dúvidas que surgem no dia a dia. Voltamos mais preparados para dar continuidade aos processos já iniciados e conduzir futuras regularizações com mais segurança jurídica, beneficiando diretamente as famílias que aguardam pela documentação definitiva de seus imóveis”, afirmou Garcia.

Outro participante destacou que o conhecimento adquirido contribuirá para enfrentar um problema comum em diversos municípios: a existência de imóveis sem documentação regular.

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“Compreender melhor a legislação e os procedimentos da Reurb nos dá condições de organizar o cadastro imobiliário do município, facilitar o acesso da população às informações sobre seus imóveis e tornar o trabalho dos servidores mais eficiente e seguro. Quem ganha com isso é toda a cidade”, relatou Jorge Luís Ferreira dos Santos, representante de Nortelândia.

A Lei Federal nº 13.465/2017, que instituiu novos instrumentos para a Regularização Fundiária Urbana, ampliou as possibilidades de incorporação de núcleos urbanos informais ao ordenamento territorial e permitiu acelerar a titulação definitiva de milhares de famílias em todo o país.

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