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Mato Grosso

Entidades reconhecem resultados e viabilidade de modelo para Cuiabá

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De um lado um modelo falido, caro e que não ressocializa. De outro um método alternativo que custa um terço do modelo prisional convencional e traz no seu bojo a valorização humana como um componente transformador para a prevenção à reincidência em crimes pelo detento. As intenções, os desafios e o panorama nacional da metodologia APAC (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados) para a ressocialização de presos foram conhecidos nesta quarta-feira (28) à noite, durante a audiência pública, no auditório da Sede das Promotorias de Justiça da Capital, que trouxe para Cuiabá as experiências exitosas desse método pioneiro aplicadas nos estados de Rondônia e Minas Gerais.

A luta para a implantação do primeiro Centro de Reintegração Social (CRS) da Apac Cuiabá promove uma conjugação de esforços do Ministério Público, Poder Judiciário, Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário (GMF), Governo de Mato Grosso, Defensoria Pública e Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MT).

Mais do que comprovar a viabilidade da consagrada metodologia “apaqueana”, o evento apresentou a história, os percalços, as tragédias, as dores, o caminho percorrido e a volta por cima de Roberto Carlos Costa, o “Rondônia”, de 49 anos, preso em 2010 e condenado por tráfico internacional de drogas e hoje gestor da Apac Ji-Paraná, a segunda maior cidade de Rondônia. O relato carregado de emoção apresentou indicadores, os resultados alcançados e as pilhas de cartas encaminhadas à promotora de Justiça em Rondônia Eiko Danieli Vieira Araki.

“É muito difícil cumprir pena na Apac, tem reeducando que pede pra voltar pro sistema prisional convencional. O método é uma proposta de mudança de vida para o reeducando. Tem gente que não aguenta a rotina de regras e disciplina. No sistema prisional tradicional o único compromisso é não fugir. A espiritualidade é um dos elementos do método e quando o detento chega ele está “detonado”, fisicamente, espiritualmente, ou seja, chega praticamente um ateu, mesmo com o trabalho da pastoral carcerária nos presídios”, completou.

A presidente do Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso, Clarice Claudino da Silva, afirmou que a imposição privativa de liberdade pelo sistema prisional convencional não consegue sequer alcançar um patamar mínimo aceitável, por mais que tenha evoluído em nível estadual. A magistrada considerou ainda que o novo método não é uma panaceia, mas se apresenta com algo muito concreto que Mato Grosso carece para melhorar o seu sistema carcerário, que tem sido terreno fértil para as facções criminosas.

“Num sistema opressor, num sistema onde não temos a aposta no ser humano no seu lado luz, é muito mais difícil, trabalhoso de se chegar a um bom termo. É por isso que as Apac’s têm sido uma alternativa – e eu não lido muito bem com essa palavra -, mas ela é um complemento, pois nem todos estão destinados a uma Apac, mas estão eleitos os que assim o querem, desejam tomar pra si a responsabilidade de reconstruir seu caminho, de se refazer perante a vida, perante a sua consciência e perante a sociedade”, considerou.

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O procurador-geral de Justiça de Mato Grosso, Deosdete Cruz Junior, lembrou que já há um compromisso institucional dos poderes favorável para que um Centro de Reintegração Social (CRS) em Cuiabá seja uma realidade e uma ferramenta de mudança. Ele reiterou que o envolvimento da sociedade, do voluntariado, é indispensável para tratar problemas crônicos e apresentar soluções definitivas ao sistema prisional vigente.

“Já estou convencido de que é mais do que necessário que tenhamos unidades da Apac em nosso estado, por conta de como o sistema convencional funciona, pela metodologia que usa, pelos 12 elementos, pela forma como olha o preso e sua ressocialização de uma maneira cada vez mais humanizada. Tenho certeza de que com a comunidade engajando, abraçando a ideia nós teremos a primeira unidade no estado. Conhecendo o método e a experiência de outros municípios, de outros estados, a população vai apoiar essa experiência aqui pra nossa região”, analisou.

A promotora de Justiça Eiko Danieli Vieira Araki afirma que o método Apac trabalha a transformação do ser humano como um todo: do detento ao promotor de justiça, passando pelo juiz de direito, os familiares do preso e da vítima. “Eu fui a primeira recuperanda da Apac Ji-Paraná”, afirmou ela ao se referir sobre como venceu seus preconceitos em relação ao sistema.

“Nos cinco anos de funcionamento do CRS Ji-Paraná já passaram mais de 160 recuperandos que cumpriram pena naquela unidade. Nesse tempo foram pouquíssimas reincidências, apenas quatro voltaram para o sistema prisional pela prática de crimes. O preso começa a cumprir pena no sistema penitenciário comum e de lá pode ser transferido para o sistema da Apac. A experiência de Ji-Paraná colhe bons frutos com pessoas restauradas e com menos vítimas, isso é o mais importante. As pessoas egressas da Apac não estão voltando a delinquir”, relatou.

O preconceito que a sociedade carrega de uma forma em geral foi um dos pontos tratados pelo juiz mineiro Luís Carlos Rezende Santos. Ele fez um testemunho emocionado da sua rotina profissional e de voluntário da Apac, e de como se viu convencido de que é um método transformador.

“A Apac em Minas Gerais possui 47 unidades e cinco mil reeducandos no cumprimento de penas. A maior dificuldade é o preconceito natural de que as pessoas acham que bandido bom é bandido morto, ou pensam que esse é um problema que não se pode tratar com dignidade, como se isso fosse um empecilho para alcançar o resultado, quando a gente percebe que na verdade é o contrário. A dificuldade é romper o preconceito e é isso que a gente deve tentar a todo instante”, contou ele, complementando que em Minas Gerais a experiência do método vem sendo desenvolvida como uma política do Poder Judiciário há 22 anos.

O advogado Flávio Ferreira, que representou a presidente da Seccional em Mato Grosso da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Gisela Cardoso, na audiência, viu similaridade  com a filosofia adotada pelos Alcoólicos Anônimos (AA).

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“Enquanto sociedade organizada vivemos esse paradoxo de que o preso é aquele indivíduo que merece ser torturado, infelizmente muita gente pensa isso. Em 2017, quando fizemos uma visita e enquanto percorríamos os presídios do estado, a gente via que naqueles espaços onde cabiam 12 pessoas, tinham de 55 a 60 pessoas. Era uma violência contra essas pessoas. Cometeram crime, sim! Têm que ser punidos, sim, pelo Estado! Se a caridade não falar mais alto em favor dessas pessoas, vamos pensar com o bolso, como contribuintes. Certa feita perguntaram ao médium espírita Chico Xavier quem é o criminoso e ele respondeu: “Criminoso é aquele que já foi descoberto’”, concluiu.

Desafios regionais – O presidente da Apac/Cuiabá, Artur Nogueira, enfatiza que a atual fase da proposta de implantação da metodologia é conseguir voluntários em quantidade suficiente para o início dos trabalhos. Eles precisam ser qualificados para estarem aptos a trabalhar. “A gente vai trazer cerca de 240 reeducandos nesta primeira unidade. Nossa perspectiva é de que a reincidência fique abaixo de 15% e o custo para o Estado fique um terço em relação ao sistema prisional convencional”, prevê.

O voluntário ressalta que a religiosidade é um instrumento importante e parte dos 12 elementos que compõem o método Apac. “A metodologia Apac traz as religiões para as discussões e com isso a gente apresenta a possibilidade de melhorar esse cenário que se tem hoje, aonde o crime é administrado dentro do sistema comum. Na Apac, isso não será possível. Não é uma analogia a uma colônia de férias, é uma metodologia onde ele vai cumprir a pena em regime fechado das 6h às 22h, com uma série de atividades programadas da metodologia em que se combate a ociosidade, em que se trabalha a religiosidade, a valorização humana e a oportunidade de recuperação. Tudo aquilo que está previsto na Lei de Execuções Penais”, avalia.

A promotora de Justiça Josane de Fátima Carvalho Guariente, que atua institucionalmente para que a Apac seja uma realidade em Cuiabá, explica que com o método consagrado, não é só um lado que ganha com a ressocialização do reeducando. “Ganha o recuperando, que consegue ser inserido socialmente, ganha a sociedade, porque a Apac acaba se tornando uma protetora da própria sociedade, e ganham as vítimas, porque ela (Apac) também tem na sua política um olhar para as vítimas, ao mesmo tempo que promove a justiça restaurativa. Os ganhos são imensos. Nenhuma pessoa é irrecuperável!”, concluiu.

Perguntas e curiosidades – O promotor de Justiça do Ministério Público de Minas Gerais, Henrique Nogueira Macedo, encerrou o evento fazendo uma reflexão de natureza filosófica sobre os conceitos de “felicidade” e como ela se aplica na vida do próximo, no caso o reeducando do sistema prisional. Em seguida leu vários questionamentos feitos pelo público participante da audiência, seja presencialmente ou pelo canal do MPMT no Youtube. (assista aqui à audiência pública).

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“Servi quatro anos no Conselho Nacional do Ministério Público em Brasília e desconheço outro projeto que me traga mais alegria, porque ali eu posso ver ‘Robertos’, pessoas que de fato foram transformadas”, citou.

O representante do Ministério Público de Minas Gerais falou, por exemplo, como fica a função da Polícia Penal junto ao sistema prisional com o funcionamento da Apac.

“A Polícia Penal é uma das mais essenciais no Estado Democrático de Direito. Ela é uma das instituições que mais têm se desenvolvido, porque ela tem entendido. Diferentemente daqueles que defendem a militarização da Polícia Penal, ela entende que a sua função é de cuidado, serviço e reinserção”, analisou.

Henrique Nogueira Macedo exemplificou a importância dessa instituição ao citar a Polícia Penal com seus 22 mil membros e mais de 70 mil presos. “Em Minas Gerais, a Polícia Penal é e continuará essencial nas 180 unidades prisionais. Não há nenhuma incompatibilidade. Pregar a existência de um presídio sem polícia é apenas uma outra prática que não anula, nem torna desnecessária a nossa forma tradicional de custodiar pessoas. Haverá muitas pessoas que jamais vão se adaptar ao método, que jamais serão voluntárias a essa transferência e precisarão da Polícia Penal e dos estabelecimentos convencionais”, argumentou.

A pluralidade de religiões na Apac também foi outro ponto de indagações. O promotor de Justiça lembrou da religiosidade como um dos 12 elementos do método ‘apaqueano’ identificado como espiritualidade. Cita que o método passou por constantes transformações e adaptações. Conceituou Estado laico e liberdade religiosa.

“O Estado laico não é um estado ateu. Pelo contrário, são valores que são igualmente protegidos pela Constituição e o Estado laico não é aquele que proíbe a manifestação religiosa, que essa é uma das nossas liberdades da nossa República e ela deve ser de livre exercício. Mas isso é um problema só pra quem está fora, porque quem está dentro não tem esse problema”, elencou.

Compuseram o dispositivo de autoridades do evento o  presidente da Comissão Permanente de Segurança Pública do Tribunal de Contas do Estado, conselheiro Waldir Júlio Teis, representando o presidente do TCE/MT, conselheiro José Carlos Novelli; o defensor público André Renato Rossignolo, representando a defensora pública-geral de Mato Grosso, Luziane Castro; o secretário-adjunto de Administração Penitenciária, Jean Carlos Gonçalves, representando o governador do Estado, Mauro Mendes;  o supervisor do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Penitenciário e Socioeducativo de Mato Grosso, desembargador Orlando de Almeida Perri, e o presidente da Câmara de Vereadores de Cuiabá, Chico 2000

A audiência pública foi uma realização do Ministério Público do Estado de Mato Grosso, Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário (GMF) e Apac Cuiabá. A iniciativa conta com a parceria do Poder Judiciário, Governo de Mato Grosso, Defensoria Pública e Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MT). Também participaram do evento representantes de entidades de classes, clubes de serviços e organizações religiosas.

Fonte: Ministério Público MT – MT

Mato Grosso

Lei Maria da Penha completa 20 anos ainda com entraves para ser colocada em prática

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A coordenadora do Nudem, Rosana Leite, participou de uma entrevista especial para analisar as duas décadas da lei além dos altos índices de feminicídio em Mato Grosso

Nesta sexta-feira (7), a Lei Maria da Penha (lei nº 11.340) completa 20 anos de promulgação. Considerada pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma das três melhores legislações mundiais quando se fala em defesa dos direitos das mulheres, ela ainda enfrenta muitos entraves para ser colocada em prática.

O reflexo dessas dificuldades bate à porta de Mato Grosso, afinal, de acordo com 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em julho deste ano, o estado registrou a terceira maior taxa de feminicídios do país em 2025. Naquele ano, Mato Grosso teve uma taxa de 2,7 feminicídios para cada 100 mil habitantes.

Embora estes números sejam menores do que os registrados em 2024, ano em que Mato Grosso figurou em primeiro lugar nas taxas de feminicídios com 2,5 casos para cada 100 mil habitantes, a coordenadora do Núcleo de Defesa da Mulher (Nudem) da Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso (DPEMT), Rosana Leite, garante que ainda não é hora de comemorar.

Mas como mudar esse quadro? De que forma a lei Maria da Penha ajudou a enfrentar a violência de gênero em seus 20 anos de promulgação? Para tirar essas e outras dúvidas, Rosana Leite concedeu uma entrevista especial na qual faz uma análise da legislação e conta um pouco mais sobre a atuação do Nudem em todo o estado.

Confira a entrevista:

Qual o maior legado da Lei Maria da Penha (LMP) nesses 20 anos da sua promulgação?

Rosana Leite – Eu vejo que o maior legado é a discussão do enfrentamento à violência contra as mulheres. Hoje nós sabemos que qualquer violação às mulheres se perfaz em violação aos Direitos Humanos das mulheres. Com a lei nós passamos a falar muito mais sobre esse enfrentamento. Antigamente as mulheres não tinham voz, mas hoje nós temos voz. Com a redemocratização do Brasil, o nosso país passou a ser signatário de tratados e convenções internacionais e a LMP é uma resposta a tudo isso, ela quebrou paradigmas ao mostrar que a violência contra a mulher deve ser enfrentada pelo Poder Público e não por pessoas mais próximas, como amigos e familiares. A Maria da Penha mostrou que a legislação deve amparar todas das mulheres. E agora, com a recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), ela também deve amparar todo o segmento LGBTQIAPN+. Portanto, a lei trouxe uma forma diferenciada da sociedade enxergar as mulheres, os Direitos Humanos e ter consciência que nós mulheres temos direitos, que nós precisamos de respeito, de consideração da sociedade, que a nossa historicidade precisa ser garantida porque nós fomos deixadas de lado por muito tempo.

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Ainda há dificuldades para colocar em prática algumas ações e políticas públicas voltadas às mulheres?

Rosana Leite – Sim. A Organização das Nações Unidas (ONU) já declarou que a Maria da Penha é uma das três leis mais importantes do mundo no que diz respeito ao enfrentamento da violência de gênero. Mas ela ainda não foi cumprida integralmente pelo Poder Público. A lei traz, por exemplo, políticas públicas importantíssimas em seu artigo oitavo que não foram todas cumpridas. E eu cito aqui a inclusão nos currículos escolares de matérias sobre o enfrentamento à violência contra as mulheres. Infelizmente nós não temos essa inclusão. Imagina se tivéssemos essa inclusão há 19 anos. Será que já não teríamos uma sociedade diferenciada? O enfrentamento da violência contra as mulheres passa pela educação. Mas enquanto nós não mudarmos os currículos escolares, não iremos trabalhar no cerne do problema. A educação ainda é a chave. Virando essa chave, quem sabe poderemos ter outra realidade.

Outro ponto. Infelizmente a LMP ainda não é cumprida integralmente e de forma homogênea no Brasil. No Conselho Nacional das Defensoras e Defensores Públicos-Gerais (Condege) temos a Comissão de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres e lá nós conseguimos enxergar que em cada estado a LMP passa a ser aplicada de uma forma diferente. Portanto, essa falta de políticas públicas homogêneas, da aplicabilidade da lei de forma homogênea, tem prejudicado uma lei que já tem 20 anos.

Quando a LMP surgiu, nós tivemos que nos readequar, fazer com que a sociedade entendesse a lei. No começo ela foi chamada de inconstitucional. Quando a lei tinha apenas seis anos, a Corte Suprema do país teve que declarar a sua constitucionalidade. Já quando a lei estava em sua fase de “adolescência”, ela ganhou seus remendos e alterações. Hoje, na fase “adulta”, nós precisamos que ela seja cumprida. Mas esse cumprimento de forma homogênea nós ainda não temos.

O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública coloca Mato Grosso em terceiro lugar nas taxas de feminicídio no Brasil em 2025. Em 2024 estávamos em primeiro lugar. Como a senhora analisa este quadro? Podemos comemorar essa queda do primeiro para o terceiro lugar?

Rosana Leite – Isso é muito delicado. Nosso estado é referência na aplicação da LMP. Aqui em Mato Grosso, o Poder Judiciário, a Defensoria Pública e o Ministério Público foram os primeiros do Sistema de Justiça a colocar a lei em prática. Somos referência para outros estados. Nós aplicamos dentro do Sistema de Justiça a competência híbrida que ajuda muito no atendimento das mulheres, mas, mesmo assim, ocupamos esse triste ranking. Então, não, eu não comemoro essa descida para o terceiro lugar. Não acho que deveríamos comemorar, mas sim nos preocupar. Até o início de agosto já registramos 27 feminicídios em Mato Grosso. Ter o nosso estado ocupando primeiro, segundo e terceiro lugar nesse ranking é muito triste e nos mostra o quanto nós vivemos num estado patriarcal. Esse ranking mostra que as nossas mulheres não são bem tratadas em Mato Grosso. Ele nos mostra que ainda vivemos o patriarcalismo, o machismo exacerbado, que somos um estado machista, homofóbico, transfóbico e que não tem respeitado os segmentos de pessoas em situação de vulnerabilidade.

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Você disse que somos o estado que melhor aplica a lei Maria da Penha, mas mesmo assim estamos nesse ranking de onde mais morrem mulheres. Como explicar esse paradoxo?

Rosana Leite – Eu explico da seguinte forma: apenas o Sistema de Justiça não é capaz de resolver tudo. Não é possível resolver todo esse problema apenas com a aplicação da lei. Por isso que eu sempre defendo que o aumento de pena jamais vai resolver a situação. Nós vivemos em um país que não socializa e não ressocializa. A ressocialização das pessoas é quase impossível. Um dia cumprindo pena em uma cadeia do Brasil é horrível. Nós precisamos trabalhar a prevenção. A Ultima Ratio do Sistema de Justiça {expressão em latim que significa Último Recurso no Direito Penal} é a prisão do agressor, mas o aumento de pena não resolve. Hoje o feminicídio e o vicaricídio {crime em que o agressor mata uma pessoa próxima a uma mulher, como filhos, pais ou dependentes, no contexto de violência doméstica, com o objetivo exclusivo de causar sofrimento eterno, punir ou controlar a mulher} são os crimes com maiores penas, que são de 20 a 40 anos de prisão, mas somente isso não resolve.

E como você analisa os projetos de lei que ensinam mulheres a se defender com lutas, aulas de tiro e até mesmo os que liberam o uso de spray de pimenta?

Rosana Leite – Eu vejo que não trazem uma solução efetiva. Em uma luta corporal, por exemplo, fatalmente uma mulher perde. Se tem algo que nós somos diferentes é na nossa estrutura física. Imagina o spray de pimenta na mão de uma pessoa que não sabe usar, uma arma na mão de quem não sabe manusear? “Ah, mas nós vamos dar curso. Vamos ensinar a usar”. Mas e a estrutura física, onde fica? Aí eu volto na questão da luta corporal. Em regra, um homem vai vencer a mulher, então será que o uso errado do spray de pimenta não trará uma situação pior? Por isso eu acho que a prevenção através da educação das nossas crianças e adolescentes, desde a tenra infância até a fase da faculdade, é a forma mais eficaz. Temos que incluir nos currículos escolares o que é a violência contra a mulher, o que causa essa violência dentro da sociedade, como ela atinge o quadro familiar e a sociedade. Os presídios brasileiros estão cheios de pessoas que foram vítimas de violência doméstica na infância, ou que presenciaram essa violência. Por essa razão eu defendo que a educação é a forma que temos para garantir a prevenção da violência à médio e longo prazo.

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Agora vamos falar do Nudem. Quais são as maiores demandas do Núcleo?

Rosana Leite – A criação do Nudem aconteceu em 2014, mas nós fazemos a defesa das mulheres desde o advento da LMP. A DPEMT foi uma das primeiras do Brasil a aplicar a LMP, mas o Nudem como Núcleo surgiu a partir de 2014. Nacionalmente a Defensoria Pública fez questão de ampliar o atendimento das mulheres. A LMP foi tão de vanguarda que ela trouxe a necessidade das Varas de Justiça, dos Juizados dentro do Poder Judiciário e dentro da Defensoria Pública de termos núcleos de atendimento especializados. Tivemos o aumento das Delegacias Especializadas e toda essa gama do Sistema de Justiça ajuda no amparo das mulheres em forma de rede para que elas saibam onde pode buscar o atendimento. Aqui na Defensoria Pública nós fizemos questão de ampliar esse atendimento. Nós não atendemos apenas mulheres vítimas de violência, nós atendemos a violência de gênero nacionalmente. Então, toda e qualquer mulher que venha passar por violência, dentro ou fora de casa, pode buscar o Nudem. A violência que mais aporta aqui no Nudem é a violência doméstica e familiar, onde estão as ameaças e a violência psicológica. Esses são os crimes que as mulheres mais narram.

Como você espera encontrar a Lei Maria da Penha daqui 20 anos?

Rosana Leite – Nunca parei para pensar nisso, mas acho que de tempos em tempos nós estamos ganhando mais atuação, mais confiança da sociedade. Em 2019 o Data Senado fez uma pesquisa, ele entrevistou mulheres vítimas de violência e que decidiram não lavrar um boletim de ocorrência. Eles questionaram o porquê delas não terem lavrado o boletim. Nessa época, a LMP estava fazendo 13 anos e essa pesquisa me marcou muito, pois 79% das mulheres responderam que tinham medo de que a violência se tornasse ainda maior, mesmo com uma lei tão importante em mãos. Quer dizer, elas não acreditavam na lei. A sociedade ainda não confia na efetividade da Maria da Penha. Então, eu quero que as mulheres estejam confiando mais na efetividade da lei, que o Sistema de Justiça continue ampliando o seu atendimento, que o Poder Público, que a rede de atenção se debruce em prol dos Direitos Humanos das mulheres. Estamos em época de campanha política, nessa época ouvimos muito falar no enfrentamento à violência contra as mulheres. Só que a pauta nunca chega até onde nós queremos. Por isso que essa pauta deve avançar na política para enfrentar a violência que tem acontecido todos os dias. Mas, acima de tudo, precisamos dar crédito a palavra das mulheres. Todos os dias.

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Mato Grosso

Municípios de MT debatem continuidade da regularização fundiária e seus impactos no desenvolvimento urbano

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Encontro da Geogis reuniu equipes técnicas de consórcios intermunicipais para discutir a continuidade da Reurb

Representantes de 19 municípios mato-grossenses participaram, nesta quarta-feira (29.07), de uma capacitação voltada às Diretrizes para Continuidade da Política Municipal de Regularização Fundiária Urbana (Reurb). O encontro reuniu equipes técnicas dos consórcios Vale do Guaporé e CIDESARP (Consórcio Intermunicipal de Desenvolvimento Econômico, Social, Ambiental e Turístico do Alto do Rio Paraguai) para discutir os desafios da etapa posterior à entrega dos títulos de propriedade e o fortalecimento das políticas públicas de regularização fundiária.

A capacitação foi conduzida pelo diretor jurídico da Geogis Geotecnologia, Robison Pazzeto, que destacou que a regularização fundiária não termina com a emissão do título do imóvel. Segundo ele, a continuidade das ações é fundamental para consolidar os resultados da política pública, garantindo que os núcleos urbanos regularizados sejam plenamente incorporados ao planejamento das cidades e que as famílias tenham assegurados todos os direitos decorrentes da titulação.

“O pós-Reurb é uma etapa decisiva. A regularização precisa continuar sendo acompanhada para que os municípios consigam integrar essas áreas ao ordenamento urbano, consolidar a segurança jurídica das famílias e ampliar os benefícios sociais, urbanísticos e econômicos gerados por esse processo”, afirmou Pazzeto.

Além de garantir segurança jurídica aos moradores, a Regularização Fundiária Urbana tem sido apontada como um instrumento capaz de reduzir desigualdades e impulsionar o desenvolvimento local.

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Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima que entre 30% e 50% dos imóveis brasileiros ainda apresentem algum tipo de irregularidade documental. O levantamento aponta que um amplo processo de regularização pode gerar impacto superior a R$ 202 bilhões em valorização imobiliária no país.

Com a documentação em dia, os proprietários passam a ter acesso a linhas de crédito, podem utilizar o imóvel como garantia, realizar financiamentos, comercializar o bem legalmente e investir na melhoria das residências.

Os benefícios também alcançam as administrações municipais. A atualização cadastral decorrente da Reurb melhora a gestão territorial, amplia a base tributária, fortalece a arrecadação de impostos como IPTU e ITBI sem aumento de alíquotas e oferece informações mais precisas para o planejamento urbano e a expansão de serviços públicos, como infraestrutura, pavimentação, saneamento e iluminação.

Para os participantes, a capacitação teve aplicação prática na realidade dos municípios. Representando o município de Comodoro, Diego Garcia afirmou que o treinamento trouxe mais segurança técnica para dar continuidade aos projetos em andamento.

“Foi uma oportunidade importante para aprofundarmos o conhecimento sobre a Reurb e esclarecer dúvidas que surgem no dia a dia. Voltamos mais preparados para dar continuidade aos processos já iniciados e conduzir futuras regularizações com mais segurança jurídica, beneficiando diretamente as famílias que aguardam pela documentação definitiva de seus imóveis”, afirmou Garcia.

Outro participante destacou que o conhecimento adquirido contribuirá para enfrentar um problema comum em diversos municípios: a existência de imóveis sem documentação regular.

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“Compreender melhor a legislação e os procedimentos da Reurb nos dá condições de organizar o cadastro imobiliário do município, facilitar o acesso da população às informações sobre seus imóveis e tornar o trabalho dos servidores mais eficiente e seguro. Quem ganha com isso é toda a cidade”, relatou Jorge Luís Ferreira dos Santos, representante de Nortelândia.

A Lei Federal nº 13.465/2017, que instituiu novos instrumentos para a Regularização Fundiária Urbana, ampliou as possibilidades de incorporação de núcleos urbanos informais ao ordenamento territorial e permitiu acelerar a titulação definitiva de milhares de famílias em todo o país.

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Mato Grosso

Empresa do agronegócio genuinamente do agronegócio brasileira nacional lança de três novos produtos

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O evento reuniu representantes de 39 cooperativas dos estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e São Paulo

O 4º. Encontro de Cooperativas Nortox realizado recentemente em Foz do Iguaçu (PR), foi marcado pelo lançamento de três produtos: duas misturas exclusivas (os inseticidas Typhoon e Tempus) e um herbicida exclusivo, o Raker Top. “A Nortox, que já vem marcando história em lançamentos de misturas exclusivas, agora marca uma nova era de misturas de genéricos com moléculas sob patente. Isso demonstra mais uma vez que a empresa tem sua estratégia bem definida. O lançamento desses produtos foi o ponto alto do 4º. Encontro de Cooperativas”, afirma o diretor comercial da Nortox, João Marcos Ferrari.

Os inseticidas Tempus e Typhoon chamaram muita atenção dos participantes. O Tempus, com ação prolongada e alta eficiência contra lagartas, oferece proteção duradoura em diferentes culturas, combinando o efeito choque do clorpirifós à persistência do clorantraniliprole. O Typhoon, com uma ação forte contra a cigarrinha-do-milho e a lagarta-do-cartucho, é uma mistura exclusiva da Nortox, com amplo espectro de proteção contra as pragas do milho e efeito de choque imediato. Os princípios ativos são Clorantraniliprole e Metomil – OD.

Já o Raker Top, grande destaque, é um herbicida seletivo e sistêmico de pós-emergência, formulado com os princípios ativos Nicossulfuron e Tolpiralate. Ele é indicado especificamente para o controle de plantas daninhas na cultura do milho. Além disso, conta com a segurança de dois safeners para um manejo de pós-emergência sem causar fitotoxicidade.

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O evento reuniu representantes de 39 cooperativas dos estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e São Paulo. A programação teve início na quarta-feira (29), com a recepção das equipes, e prosseguiu ao longo de toda a quinta-feira (30), reunindo palestras e apresentações técnicas voltadas às principais tendências do agronegócio e às soluções desenvolvidas pela Nortox para o campo.

Na abertura, o diretor-presidente da Nortox, Romeu Stanguerlin, apresentou a trajetória da empresa, seus resultados e as perspectivas de crescimento previstas no planejamento estratégico até 2030. Em seguida, João Marcos Ferrari destacou a evolução do portfólio da companhia, abordando investimentos em pesquisa, inovação, desenvolvimento de produtos, nutrição vegetal e sementes.

Ao longo do encontro, também foram apresentados programas voltados às cooperativas, novas estratégias de manejo em fungicidas, soluções para pastagens, avanços na área de herbicidas, além de debates técnicos que promoveram a troca de experiências entre especialistas da Nortox e representantes das cooperativas. A programação contou ainda com palestras de convidados externos, como o economista Igor Barreto, do Itaú BBA, que apresentou uma análise do cenário econômico e das perspectivas para o agronegócio, e do pesquisador Aroldo Marochi, que abordou os desafios relacionados às doenças nas lavouras e ao manejo com fungicidas.

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