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Misoginia não pode calar a liberdade de imprensa

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Ricardo Viveiros*

Há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência para se transformar em conivência. A violência verbal dirigida contra mulheres jornalistas ultrapassou, e há muito tempo, o limite da crítica política. Se tornou estratégia de intimidação, de desumanização e de ataque à própria democracia.

As declarações atribuídas ao influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo Filho, neto do ditador João Figueiredo, último general que governou o Brasil no período após o golpe militar, feitas contra jornalistas da GloboNews e contra Miriam Leitão, repercutidas nas redes sociais, recolocam esse problema em evidência. As ofensas não representam apenas mais um destempero verbal. Revelam a persistência de uma cultura política que transforma mulheres em alvo preferencial de ódio sempre que elas exercem o direito, e o dever, de informar.

Não há crítica jornalística nas expressões “putas” ou “prostitutas”. Há misoginia. Não existe debate de ideias quando a mulher é reduzida a insultos de natureza sexual. O objetivo é evidente: desqualificar profissionais não pelo conteúdo de seu trabalho, mas por seu gênero.

Isso vale também para a referência de que alguém “não merece ser estuprada”. A sociedade brasileira já enfrentou esse mesmo debate. Em 2014, Jair Bolsonaro dirigiu frase semelhante à então deputada Maria do Rosário. O episódio terminou nos tribunais, e o Superior Tribunal de Justiça deixou claro que esse tipo de declaração banaliza a violência sexual ao sugerir que o estupro poderia ser um “merecimento” ou uma escolha do agressor. Não se trata de figura de linguagem. Trata-se de uma inversão moral que agride todas as mulheres, todos nós.

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É por isso que a repetição dessa construção retórica não pode ser recebida com naturalidade. Ela carrega um significado histórico, jurídico e simbólico que extrapola a ofensa individual.

O alvo, desta vez, também não é qualquer pessoa. Miriam Leitão é uma jornalista cuja trajetória está profundamente ligada à história da democracia brasileira. Ainda muito jovem e grávida, foi presa, torturada e submetida a graves violações de direitos humanos durante a ditadura militar. Sua história é conhecida, documentada e representa a memória de um período em que o Estado perseguiu cidadãos por suas convicções políticas.

Atacar Miriam Leitão com referências que evocam violência contra mulheres significa atingir não apenas uma profissional respeitada, mas também a memória das vítimas da repressão política. É impossível ignorar esse contexto.

O mais preocupante, contudo, é perceber que episódios como esse deixaram de ser exceção. Há anos, mulheres jornalistas se tornaram alvo preferencial de campanhas de ódio nas redes sociais. Não importa o veículo em que trabalham, sua linha editorial ou suas opiniões pessoais. Basta que publiquem informações desagradáveis a determinados grupos políticos para que passem a ser insultadas, ameaçadas ou submetidas a campanhas claramente coordenadas de difamação.

Não é coincidência. É método.

Quando a imprensa é intimidada, toda a sociedade perde. O jornalista não trabalha apenas para um veículo de comunicação. Trabalha para a sociedade, que depende de informação confiável para formar suas próprias convicções. Enfraquecer a credibilidade da imprensa por meio da violência verbal interessa apenas àqueles que preferem substituir fatos por versões deles, propaganda e investigação por intimidação.

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Não se pode aceitar que figuras públicas utilizem sua enorme capacidade de alcance para estimular discursos que normalizam a violência simbólica. Palavras produzem consequências. Elas alimentam ambientes de hostilidade, incentivam seguidores mais radicalizados e tornam ainda mais difícil o exercício do jornalismo, em especial por mulheres.

É nesse ponto que entram as instituições. Havendo indícios de ilícitos, cabe ao Ministério Público investigar, ao Judiciário julgar e assegurar o devido processo legal. Responsabilização não é censura. É aplicação da lei. Liberdade de expressão exige responsabilidade de expressão, digo isso há anos. Direito à opinião jamais significou licença para ofender, humilhar ou incitar práticas discriminatórias.

O que nós queremos? Um ambiente em que divergências sejam enfrentadas com argumentos, dados e evidências ou uma arena dominada pelo insulto, pela misoginia e pela degradação do adversário. Combater a misoginia não é proteger um grupo específico. É afirmar um princípio civilizatório: nenhuma mulher deve ser humilhada, intimidada ou reduzida a estereótipos sexistas por exercer sua profissão ou manifestar suas opiniões.

Episódios dessa natureza não podem ser tratados como simples polêmicas das redes sociais. Eles exigem repúdio público, investigação quando cabível e, sobretudo, uma reafirmação inequívoca de que liberdade de imprensa, respeito às mulheres e responsabilidade pelas palavras são pilares inseparáveis de qualquer democracia digna desse nome. É preciso pulso firme contra esse tipo de absurdo, denunciar, investigar, julgar e punir com a lei. Passar o pano é motivar o crescimento da falta de respeito, institucionalizar a prática do ódio.

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*Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o BrasilMemórias de um tempo obscuro e O sol brilhou à noite.

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O brasileiro redescobriu o poder da compra à vista

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Thiago Savian*, diretor comercial da Unifisa

Depois de anos acostumado a perguntar quanto cabe na parcela, o consumidor brasileiro começa a fazer uma pergunta diferente: quanto custa pagar pelo dinheiro? Essa mudança ajuda a explicar o novo momento do consórcio.

Outro dia ouvi uma pergunta que, há alguns anos, dificilmente abriria uma negociação: “Quanto fica no Pix?”

Ela já virou parte da rotina. Seja na compra de um celular, de um eletrodoméstico ou até de uma refeição, muita gente sabe que pagar à vista costuma abrir espaço para negociar. Em alguns casos, o desconto é imediato. Em outros, vêm melhores condições de entrega ou algum benefício adicional. O Pix não criou essa lógica, mas consolidou um comportamento: o consumidor passou a entender que dinheiro disponível tem valor.

E talvez seja justamente por isso que eu diga, em tom de provocação, que o consórcio virou o novo Pix. Não porque eles façam a mesma coisa. Eles não fazem. Mas porque ambos ajudaram o brasileiro a perceber o valor de comprar com poder de negociação. Um transformou a forma de pagar. O outro começa a transformar a forma de comprar.

Agora faço outra pergunta:

O que acontece quando a compra não custa dois ou três mil reais, mas trezentos mil? Ou um milhão?

Nesse momento, a conversa muda. Deixamos de negociar apenas o preço do bem e começamos a negociar o custo do dinheiro.

E são coisas completamente diferentes.

Durante muito tempo, financiar foi encarado como o caminho natural para conquistar um carro, um imóvel ou ampliar um negócio. Era quase automático: escolhia-se o bem e, depois, encontrava-se uma parcela que coubesse no orçamento. Pouca gente parava para calcular quanto pagaria, de fato, por aquele dinheiro ao longo dos anos.

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Hoje, esse comportamento começa a mudar. Os juros elevados obrigaram o brasileiro a voltar para a calculadora. Despertaram uma reflexão que considero saudável: será que vale a pena antecipar um sonho a qualquer custo?

Na minha visão, essa mudança explica boa parte do crescimento do consórcio nos últimos anos.

Muitas análises atribuem esse avanço apenas ao cenário econômico. Claro que ele influencia. Mas acredito que existe algo mais profundo acontecendo. O consumidor brasileiro está amadurecendo financeiramente. Está entendendo que comprar bem não significa apenas conseguir crédito. Significa escolher a forma mais inteligente de usar o próprio dinheiro.

Segundo a Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC), o sistema segue registrando crescimento em participantes ativos, créditos comercializados e negócios realizados, impulsionado por consumidores que buscam planejamento em vez de endividamento. É um desempenho consistente, que acompanha um cenário em que o crédito permanece caro e o custo financeiro pesa cada vez mais na decisão de compra.

Mas, para mim, o dado mais importante não aparece nas estatísticas, mas na mudança de mentalidade. Sempre digo que dinheiro precisa ter nome, pois quando o dinheiro não tem destino, normalmente encontra um gasto. Quando tem propósito, começa a construir patrimônio.

Essa é uma filosofia que procuro aplicar também dentro da minha casa. Meus filhos aprenderam desde cedo que guardar dinheiro não faz sentido se você não sabe para quê está guardando. Cada objetivo tem uma finalidade. Uma viagem. Um curso. Um carro. Quando damos nome ao dinheiro, ele deixa de ser apenas consumo e passa a representar uma escolha.

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É exatamente isso que o planejamento financeiro faz, e é exatamente isso que o consórcio estimula.

Costumo dizer que o consórcio é um boleto que você paga para você mesmo.

Algumas pessoas sorriem quando ouvem essa frase, mas ela traduz bem a lógica.

No financiamento, você paga para usar um dinheiro que ainda não tinha. No consórcio, você constrói gradualmente o próprio poder de compra. Quando acontece a contemplação, a negociação muda completamente. Você deixa de discutir parcelas. Passa a discutir preço.

Quem já entrou em uma concessionária ou em uma imobiliária com recursos disponíveis sabe do que estou falando. A conversa é outra. O vendedor ganha agilidade. O comprador ganha poder de negociação. Muitas vezes, consegue condições que dificilmente estariam disponíveis em uma operação financiada.

Talvez seja por isso que gosto de dizer que, de certa forma, o consórcio virou o novo Pix.

Não porque sejam produtos parecidos.

Eles não são.

O Pix revolucionou a maneira como movimentamos dinheiro. Tornou as transações instantâneas, reduziu custos e fortaleceu a cultura do pagamento à vista.

O consórcio, por sua vez, está ajudando milhares de brasileiros a recuperar algo que o crédito caro fez muita gente perder: a possibilidade de comprar como quem paga à vista.

Essa diferença parece pequena, mas muda completamente a relação do consumidor com o mercado.

Quem financia normalmente negocia parcelas. Quem compra à vista negocia valor… e negociar valor faz diferença.

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Isso vale para uma motocicleta, um caminhão, um consultório odontológico, uma máquina agrícola, um apartamento ou uma empresa que precisa investir para crescer.

Em todos esses casos, existe um ponto em comum: quem chega para comprar com poder de pagamento costuma ter mais liberdade para decidir.

É claro que nem todas as pessoas podem esperar pelo momento ideal. Existem necessidades imediatas e situações em que o crédito tradicional continuará sendo indispensável. O financiamento continuará tendo um papel importante na economia.

Mas acredito que estamos entrando em uma fase em que planejamento deixa de ser visto como um adiamento e passa a ser entendido como estratégia.

Essa talvez seja a maior transformação: durante décadas, aprendemos a perguntar quanto cabia na parcela, agora começamos a perguntar quanto realmente custa pagar pelo dinheiro. Pode parecer apenas uma mudança de pergunta, mas na prática, é uma mudança de comportamento. E mudanças de comportamento costumam transformar mercados inteiros. Talvez seja exatamente isso que estejamos vivendo.

Sobre Thiago Savian

Thiago Savian é diretor comercial da Unifisa Administradora Nacional de Consórcios e sócio-fundador da Fisa Locadora. Formado em Direito pela Universidade Paulista (UNIP), possui extensão em Gestão de Empresas pela PUC-SP e MBA em Marketing Digital. Com 27 anos de experiência no mercado de consórcios, atua no desenvolvimento de estratégias comerciais, expansão de negócios, formação de equipes e fortalecimento da cultura organizacional. Acompanha temas relacionados ao mercado de consórcios, planejamento financeiro, educação financeira, comportamento do consumidor, governança corporativa e empreendedorismo.

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O caso Voepass e os riscos que a cultura aprende a tolerar

Publicado

*Fernando Wosgrau

O relatório final do CENIPA sobre o acidente com o voo 2283 da Voepass chama atenção pelo espaço dedicado à cultura organizacional. Entre os fatores contribuintes, a investigação inclui cultura do grupo de trabalho, cultura organizacional, processos organizacionais e supervisão gerencial. Esse conjunto revela como práticas repetidas podem se afastar silenciosamente dos procedimentos formais.

No discurso empresarial, cultura costuma aparecer associada a valores declarados. No relatório, porém, ela surge como o resultado concreto das rotinas que a organização aceita, reproduz e deixa de corrigir. A investigação tem caráter preventivo e não atribui culpa, mas evidencia como o cotidiano pode se descolar das normas estabelecidas.

No setor de manutenção, o CENIPA registrou jornadas extenuantes, fadiga, escassez de mão de obra qualificada, falta de recursos básicos e pressão para agilizar a liberação das aeronaves. Também identificou atividades críticas delegadas a auxiliares sem acompanhamento adequado, falhas de documentação e práticas informais de reporte ou de não registro de panes. Os procedimentos formais existiam. A rotina havia criado atalhos.

A repetição dessas práticas ajuda a explicar a normalização do desvio. Quando uma conduta inadequada não produz consequência negativa imediata, tende a se repetir. Com o tempo, aquilo que contrariava o procedimento passa a ser aceito como regra informal. A ausência de consequências negativas imediatas pode transformar a repetição da irregularidade em um sinal enganoso de segurança.

Essa leitura interessa ao debate sobre a NR-1. O relatório do CENIPA não é uma investigação trabalhista, e seria incorreto transportar suas conclusões automaticamente para a gestão dos fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. A aproximação está em outro ponto. Ambos os campos mostram como a organização do trabalho pode sustentar riscos que se acumulam e se tornam parte da rotina.

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Na integração entre a NR-1 e a NR-17, a análise alcança fatores como carga, ritmo, jornada, autonomia, recursos, comunicação e relações de trabalho. Esses elementos podem parecer adequados nos documentos e funcionar de outra maneira na prática. Uma equipe formalmente suficiente pode operar sobrecarregada. Um canal de comunicação pode existir, mas relatar um problema capaz de atrasar uma entrega pode ser interpretado como falta de comprometimento.

Muitas empresas iniciam a adequação com questionários, relatórios, Avaliação Ergonômica Preliminar e atualização do Programa de Gerenciamento de Riscos. Esses instrumentos serão insuficientes se registrarem apenas a organização formal e ignorarem como o trabalho realmente acontece quando faltam recursos, o prazo aperta ou a meta entra em conflito com o procedimento.

O relatório sobre o voo 2283 oferece um exemplo eloquente. A empresa possuía manual e infraestrutura para o Programa de Acompanhamento e Análise de Dados de Voo, conhecido pela sigla PAADV, e armazenava dados extraídos das aeronaves. Entretanto, não foram apresentadas análises que demonstrassem a aplicação contínua e abrangente do programa. Os dados existiam, mas não foram apresentadas evidências de que fossem analisados sistematicamente e convertidos em ações preventivas.

Na implementação da NR-1, identificar riscos também será insuficiente se os resultados não chegarem a quem pode rever metas, redistribuir carga, ampliar equipes, ajustar prazos ou interromper atividades. O RH e a área de segurança e saúde podem coordenar o processo, mas não substituem a responsabilidade institucional da organização nem a autoridade decisória da direção e dos gestores da operação.

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A participação dos trabalhadores segue a mesma lógica. Questionários e entrevistas terão pouco valor se a experiência cotidiana ensinou que determinados problemas não devem ser registrados. A cultura se forma no que a liderança cobra, no que a supervisão tolera e na reação da empresa quando alguém aponta um limite.

O relatório final do CENIPA deixa uma advertência que ultrapassa o setor aéreo. Documentos descrevem como o trabalho deveria ocorrer. A gestão prevista pela NR-1, articulada à NR-17, perde consistência quando retrata apenas o trabalho prescrito e não alcança o trabalho real. Um PGR pode estar formalmente organizado e ainda assim falhar em capturar o risco existente.

O problema, portanto, não é apenas a ausência de regras. É a distância entre a regra e a decisão. A prevenção começa quando a organização transforma os achados em mudanças na forma de planejar, exigir, supervisionar e corrigir o trabalho.

 

*Fernando Wosgrau é administrador, mestre em Agronegócios, professor de Administração e autor do Guia de Acompanhamento da NR-1. Email: [email protected]
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Há vagas, há trabalhadores, mas por que eles não se encontram?

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Foto- Assessoria

 

Mato Grosso vive um paradoxo. De um lado, pessoas entregando currículos e esperando por uma oportunidade. Do outro, empresários afirmando que não conseguem encontrar profissionais preparados. Há gente querendo trabalhar e empresas precisando contratar. Então, por que essa conta não fecha?

O estado encerrou 2025 com taxa de desemprego de apenas 2,2%, a menor do país, e com o maior nível de ocupação do Brasil, de 66,7%. Ainda assim, milhares de pessoas continuam procurando espaço no mercado de trabalho.

Os dados do Sine ajudam a mostrar esse desencontro. Em 2025, foram ofertadas mais de 36 mil vagas em Mato Grosso, mas pouco mais de 11 mil trabalhadores foram efetivamente colocados. Isso não significa que todas as demais vagas tenham permanecido abertas, mas revela que anunciar uma oportunidade e concretizar uma contratação são coisas diferentes.

No campo, o problema é ainda mais evidente. Levantamento do Sistema Famato, elaborado pelo Imea em parceria com o Senar-MT mostra que 62,6% dos produtores enfrentam grande dificuldade para contratar e 69,2% apontam a falta de qualificação técnica como um dos principais obstáculos. A função mais demandada é a de operador de máquinas agrícolas, que exige domínio de equipamentos com tecnologias cada vez mais avançadas.

Parte do problema está na distância entre aquilo que os cursos oferecem e o que as empresas realmente precisam. Abrem-se turmas, entregam-se certificados, mas pouco se acompanha quantos alunos conseguiram emprego depois da formação. E certificado sem oportunidade não muda a vida de ninguém.

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Também seria injusto atribuir toda a responsabilidade ao trabalhador. Nem toda vaga difícil de preencher resulta da falta de qualificação. Pesam salários pouco atrativos, falta de transporte, distâncias e jornadas incompatíveis. Da mesma forma, as empresas não podem esperar que todo profissional chegue pronto. Quem contrata também precisa investir em treinamento interno e oferecer a primeira oportunidade.

A solução passa por aproximar empresas, poder público, Sine, Sistema S, institutos federais e escolas técnicas. Antes de abrir um curso, é preciso saber onde estão as vagas, quais habilidades são exigidas e quais empresas estão dispostas a contratar.

O sucesso de uma política de qualificação não deve ser medido apenas pelo número de matrículas ou certificados, mas por quantas pessoas conseguiram emprego e aumentaram a renda.

Mato Grosso não precisa apenas formar mais trabalhadores. Precisa formar melhor e conectar melhor. Quando os cursos responderem às necessidades reais, as vagas chegarem a quem procura trabalho e as empresas participarem da formação, essa conta finalmente começará a fechar.

*Irajá Lacerda é ex-secretário executivo do Ministério da Agricultura e Pecuária e ex-presidente da Comissão de Direito Agrário da OAB-MT

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