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O Pêndulo da Política Brasileira O fim de uma era e os dilemas da direita pós-Bolsonaro
Já reparou como a política brasileira se move como um pêndulo, guiada mais pela rejeição do que pela real escolha de propostas?

Ilson Galdino, advogado e servidor-público municipal
Essa dinâmica explica as duas últimas eleições presidenciais e, mais do que isso, coloca novamente em evidência a força que hoje se encontra no centro da disputa pelo futuro do país.
Essa força é o eleitor do centro. Em 2018, foi esse voto que, para evitar a continuidade do projeto petista, então imerso em profundo desgaste, levou Jair Bolsonaro ao poder.
Quatro anos depois, em 2022, esse mesmo eleitor, movido pela rejeição ao bolsonarismo, garantiu a eleição de Lula.
O protagonista da nossa democracia recente não foi um partido ou um candidato, mas um vasto contingente de brasileiros que, silenciosamente, buscava uma alternativa ao extremo que ocupava o poder.
Agora, o cenário se transforma radicalmente. Com a alta probabilidade de Jair Bolsonaro não disputar a próxima eleição presidencial, pois se tornou inelegível e enfrentará um futuro incerto judicial, a polarização que asfixiou o debate público começa a perder seu pilar principal.
Nesse pacote, desenhava-se o que seria uma oportunidade histórica para uma candidatura de centro-direita mais moderada, na figura de um dos governadores em ascensão.
A estratégia parecia clara, unir a força de uma gestão bem avaliada ao espólio político de Bolsonaro, que ainda detinha cerca de 13% (treze por cento) dos votos do país.
Imagine uma direita que não precisasse mais ser porta-voz de uma única figura, mas sim de princípios. A tática dominante para esse campo político não seria mais orbitar ao redor de Bolsonaro, mas sim construir uma identidade própria, fincando as bases de uma agenda moderada, legítima e democrática.
Seria uma chance de defender uma visão de mundo e políticas públicas conservadoras que são parte vital do debate em qualquer nação saudável, onde a alternância de poder é a regra de ouro.
Este seria o momento de a direita brasileira trilhar esse caminho de maturidade institucional.
A história, curiosamente, oferece um espelho, a esquerda não petista viveu por anos o dilema de existir à sombra de Lula.
Agora, a centro-direita enfrenta o mesmo desafio em relação a Bolsonaro. A grande questão que definirá a próxima década não é se haverá uma alternativa, mas se essa direita saberá aprender com os erros alheios para não cair na mesma armadilha, construindo um projeto sólido, maior do que um homem, capaz de dialogar com o Brasil que anseia por equilíbrio e futuro.
Contudo, uma grande pedra surgiu no caminho desta oportunidade. Recentemente, o Deputado Federal Eduardo Bolsonaro, em um autoexílio nos Estados Unidos, classificou como ratos os governadores que tinham pretensão de herdar o capital político de seu pai.
Esse movimento ocorreu enquanto ele buscava apoio para um controverso projeto de anistia amplo e irrestrito a Jair Bolsonaro nos atos de 8 de janeiro, uma iniciativa que não apenas fracassou, mas também prejudicou as relações diplomáticas entre Brasil e EUA, com fortes impactos na economia e um imbróglio gigante para o agronegócio, segmentos que eram um dos principais pilares de sustentação do bolsonarismo.
Para piorar o cenário de terra arrasada, além da prisão domiciliar e da proibição do uso de celular impostas pelo STF contra Jair Bolsonaro, vieram à tona áudios de seu aparelho apreendido, contendo revelações devastadoras para o bolsonarismo que aceleraram o seu processo de extinção e arrasta consigo a possibilidade de uma candidatura moderada de centro-direita, até então capitaneada pelos governadores chamados de ratos pelo autoexilado Eduardo.
Para agravar este colapso, a figura do principal conselheiro religioso de Bolsonaro após a morte de Olavo de Carvalho, o Pastor Silas Malafaia, também foi atingido, após a divulgação das mensagens que revelaram como ele utilizou a fé como palanque político, instrumentalizando a religião para manipular e proteger projetos de poder.
O clã Bolsonaro, que vendia a imagem de uma família tradicional com princípios inabaláveis, mostrou-se, nos bastidores, marcado por brigas internas, ambições egocêntricas e um único objetivo, manter o poder a qualquer custo. Esse desmascaramento representa, sem dúvida, o golpe de misericórdia contra o bolsonarismo.
Enquanto, a direita se fragmenta diante de seus próprios fantasmas, Lula colhe os frutos desse vácuo político. Amparado por uma base parlamentar mais pragmática e beneficiado pela falta de uma oposição organizada, o presidente conseguiu ampliar seu capital político.
Medidas econômicas voltadas à retomada do crescimento, combinadas à melhora gradual de indicadores como inflação controlada, queda no desemprego e aumento do consumo interno, reforçam a narrativa de que seu governo não apenas sobreviveu ao desgaste da polarização, mas também se fortaleceu diante dela.
A política externa, antes abalada pelos embates ideológicos da gestão anterior, voltou a projetar o Brasil no cenário internacional, reabrindo mercados, restabelecendo relações e trazendo confiança para investidores. Esse movimento repercute positivamente no agronegócio, na indústria e nos serviços, criando um ciclo que favorece a percepção de estabilidade.
Assim, a figura de Lula, eleito por uma margem apertada e consciente de que governava um país dividido, e que já foi símbolo de rejeição, ressurge no imaginário coletivo como um líder capaz de atravessar crises e se reinventar. O paradoxo é que o Presidente, outrora marcado pela rejeição, agora contribui para que seu principal adversário assuma esse papel de forma definitiva, um destino consolidado pelo movimento da centro-direita, que busca ativamente invisibilizar Jair Bolsonaro.
O pêndulo da política, mais uma vez, se moveu. E, no compasso dessa oscilação, o Presidente transformou a fragilidade do adversário em combustível para fortalecer sua posição, deixando a centro-direita diante de um dilema existencial.
No fim, a grande ironia histórica é que, quanto mais o bolsonarismo se desfaz em ruínas, mais Lula se ergue como beneficiário direto desse processo, consolidando capital político e colhendo os frutos de uma economia que volta a respirar.
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63 anos não se constroem por acaso: a liderança por trás da longevidade empresarial

Por Ulana Bruehmueller
O brasileiro tem uma reconhecida vontade de empreender. Muitas empresas nascem pequenas, de um sonho, de uma oportunidade ou da necessidade de construir um futuro melhor. Começam com poucos recursos, muito trabalho e a esperança de crescer ano após ano.
Mas começar uma empresa é apenas o primeiro desafio. Fazê-la permanecer, atravessar gerações e continuar relevante é uma conquista muito maior.
No Brasil, poucas empresas alcançam mais de seis décadas de atividade. Ao longo do caminho, enfrentam obstáculos que vão do acesso ao crédito aos elevados custos de insumos, energia e produção, além da carga tributária, da insegurança jurídica e de uma logística ainda cara e ineficiente.
É nesse contexto que celebramos os 63 anos da Refrigerantes Marajá.
Mais do que uma data no calendário, este aniversário nos convida a uma reflexão: o que faz uma organização atravessar tantas transformações e permanecer relevante ao longo das gerações?
A qualidade dos produtos e a confiança dos consumidores são fundamentais. Mas longevidade também se constrói com liderança forte, propósito definido, valores consistentes e pessoas alinhadas em torno de uma mesma direção.
Ao longo de mais de seis décadas, a Marajá precisou se transformar inúmeras vezes. Cresceu, ampliou mercados, modernizou sua estrutura industrial, incorporou tecnologias, profissionalizou processos, fortaleceu sua governança e desenvolveu novas marcas e produtos.
Ao mesmo tempo, avançou em uma agenda de ESG cada vez mais consistente, compreendendo que responsabilidade ambiental e social, ética e boa governança não devem existir apenas no discurso. Precisam estar incorporadas à maneira como uma organização toma decisões e pensa no seu futuro.
Essa capacidade de evoluir sem perder a essência talvez seja uma das principais explicações para a longevidade de uma empresa.
E nenhuma transformação acontece sem pessoas.
Ao longo da minha carreira, aprendi que podemos definir estratégias, estabelecer metas, investir em tecnologia e modernizar processos, mas são as pessoas que transformam o planejamento em resultado. Por isso, o alinhamento da liderança e o comprometimento do time são fatores concretos de competitividade.
Estratégias mudam. Mercados mudam. Tecnologias evoluem. Gerações chegam com novas expectativas. Os valores, entretanto, permanecem como uma bússola, permitindo que a empresa se transforme sem perder sua identidade.
Tenho muito orgulho de ter dedicado mais de 30 anos da minha vida profissional à Marajá e de ter crescido junto com esta empresa. Foram décadas de desafios, crises, decisões, expansão, transformação e, acima de tudo, aprendizado.
Por isso, celebrar estes 63 anos é também agradecer.
Aos fundadores que tiveram a disposição de empreender. Aos acionistas, diretores e líderes que assumiram a responsabilidade de conduzir a empresa ao longo do tempo. Aos profissionais que passaram por aqui e deixaram sua contribuição. E aos que hoje continuam escrevendo esta história e preparando a Marajá para o futuro.
Depois de tantos anos na indústria, compreendo que uma das maiores responsabilidades de uma liderança não é apenas entregar os resultados do presente. É criar condições para que a organização continue crescendo e gerando valor para as próximas gerações.
Longevidade empresarial não é simplesmente resistir ao tempo. É atravessar gerações evoluindo sempre. Continuar olhando para frente e assumindo responsabilidade pelo futuro!
Ulana Maria Bruehmueller é CEO da Refrigerantes Marajá
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A cidade começa na calçada

Rodrigo Arruda e Sá
Quando pensamos em desenvolvimento urbano, quase sempre imaginamos grandes avenidas, viadutos, pontes ou obras de infraestrutura. Tudo isso é importante, mas existe um elemento muito mais presente na vida das pessoas e que, muitas vezes, passa despercebido: a calçada. É nela que a cidade realmente começa, porque é por ela que todos nós caminhamos antes de entrar em um carro, em um ônibus, em um comércio ou em uma praça.
A qualidade de uma cidade pode ser medida pela forma como ela trata o pedestre. É pela calçada que uma criança vai à escola, um idoso chega à farmácia, uma mãe empurra o carrinho do filho e um trabalhador segue até o ponto de ônibus. Quando esse espaço está esburacado, desnivelado, ocupado irregularmente ou simplesmente não existe, a cidade transmite uma mensagem clara: as pessoas deixaram de ser prioridade.
Não é preciso olhar para a Europa para encontrar bons exemplos. Curitiba transformou o cuidado com as calçadas em uma política permanente de urbanismo e acessibilidade. Maringá tornou-se referência nacional pela arborização, pela conservação dos espaços públicos e pela qualidade de seus passeios. Joinville e Blumenau também demonstram como calçadas bem cuidadas, praças limpas, iluminadas e bem conservadas tornam a cidade mais acolhedora para moradores, turistas e comerciantes.
Essas cidades compreenderam que desenvolvimento urbano não se resume a grandes obras. A qualidade de vida nasce dos espaços que as pessoas utilizam diariamente. Calçadas acessíveis, arborização, praças bem cuidadas, iluminação eficiente e limpeza permanente estimulam a convivência, fortalecem o comércio de rua, aumentam a sensação de segurança e fazem com que os moradores sintam orgulho da cidade onde vivem.
Em Cuiabá, infelizmente, ainda convivemos com uma realidade distante desse padrão. Além das calçadas interrompidas, desniveladas ou sem acessibilidade, muitas praças apresentam sinais evidentes de abandono.
A Praça Ipiranga, um dos espaços mais tradicionais da capital, frequentemente convive com acúmulo de lixo e mau cheiro, enquanto a Praça Popular, um dos principais pontos de encontro da cidade, além de estar coberta de lixo, sofre com a iluminação deficiente e manutenção insuficiente. Em vez de convidarem as famílias ao convívio, ao esporte e ao lazer, esses espaços acabam transmitindo uma sensação de descuido incompatível com a importância que têm para a vida urbana.
Como contador e empresário, aprendi que cidades agradáveis também são cidades economicamente mais fortes. O comércio prospera quando as pessoas caminham pelas ruas com conforto e segurança, frequentam as praças, permanecem mais tempo nos espaços públicos e ocupam naturalmente os centros comerciais. Investir nesses ambientes não é apenas uma política de urbanismo; é também uma política de desenvolvimento econômico.
É evidente que Cuiabá precisa continuar investindo em mobilidade, infraestrutura e transporte coletivo. Mas nenhuma dessas políticas produzirá resultados completos se esquecermos que toda viagem começa e termina a pé.
Antes de sermos motoristas, passageiros ou ciclistas, todos nós somos pedestres, e uma cidade que não acolhe quem caminha dificilmente será acolhedora para qualquer outro meio de transporte.
Talvez esteja na hora de ampliarmos o conceito de desenvolvimento urbano. Em vez de avaliar uma administração apenas pelo número de quilômetros de asfalto entregues ou pelas grandes obras inauguradas, deveríamos observar também a qualidade das calçadas, das praças e dos espaços públicos onde a vida realmente acontece.
Cuidar desses pequenos detalhes não é uma questão estética, mas uma demonstração de respeito ao cidadão e de compromisso com a qualidade de vida. Afinal, uma cidade verdadeiramente humana não se mede apenas pelo tamanho de suas avenidas, mas pelo cuidado com os lugares onde seus moradores caminham, convivem e constroem diariamente a sua história.
*RODRIGO ARRUDA E SÁ é contador, bacharel em Direito, empresário e ex-vereador de Cuiabá.
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