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PUTIN, O CZAR DO SÉCULO XXI
Deijenane Santos, professora de Relações Internacionais da Estácio, mestre em Ciência Política

Patrícia Belarmino
Vladimir Putin, nos últimos anos, tem seu nome associado ao poder autocrático, ao desrespeito às leis internacionais e à ascensão de uma Rússia com intenções imperialistas. Putin é o homem por trás da recente invasão à Ucrânia. Uma declaração de guerra a um país soberano, um conflito que tem levado terror e morte ao povo ucraniano em mais um triste capítulo da história da Europa, continente marcado por inúmeras guerras. A guerra na Ucrânia é resultado dos desejos imperialistas de um chefe de estado que enxerga o mundo de uma forma bastante peculiar.
Desde sua ascensão ao poder em 1999, Putin tem trabalhado para alçar a Rússia ao posto de grande potência no xadrez internacional. Liderando uma nação em frangalhos após a queda da União Soviética (URSS), Putin colocou a economia russa nos trilhos e projetou uma imagem de poder no âmbito internacional, ainda que sua política doméstica seja bastante controversa e autoritária. Não há espaço para dissidência na Rússia de Putin, criticá-lo pode resultar em perseguição severa, exílio ou morte. No terreno internacional, o despotismo putiniano é exemplificado pela instauração de regimes fantoches em países que fizeram parte da URSS e pela atuação na Ucrânia desde 2014 com a anexação da Crimeia e o apoio aos rebeldes separatistas em Donbas. Atitudes típicas de um czar moderno.
Infelizmente, a Ucrânia pode não ser o único estado soberano europeu a sofrer com a tirania de Putin nos próximos anos, caso o russo não seja detido. Ex-agente da KGB na Alemanha Oriental, Putin é um saudosista da antiga União Soviética, tendo afirmado inclusive que a queda da URSS foi “a maior catástrofe geopolítica do século XX”. O presidente russo vai além em seu saudosismo eslavófilo ao buscar restaurar o antigo império russo dos czares. Para Putin, a Rússia é uma nação que deve exercer seu protagonismo no sistema internacional e a conquista de territórios tidos como ‘tradicionalmente russos’ é parte dessa visão. Putin acredita que os povos eslavos fazem parte de uma nação única e que a Rússia deve unir esta civilização sob seu domínio. Com base nesse pensamento, não é difícil entender o porquê de a independência de um estado como a Ucrânia ser uma afronta à ideologia de Putin.
O pensamento de Putin é muitas vezes associado às ideias de Alexander Dugin, teórico propagador do euroasianismo, doutrina que prega a liderança de nações euroasiáticas em um contraponto ao Ocidente. Para Dugin, o Ocidente é uma civilização em decadência, cujos valores políticos e morais são uma ameaça à civilização russa e mais amplamente aos povos eslavos. Dugin acredita que território é poder e sua teoria geopolítica tem sido apontada como base ideológica para a atuação de Putin no cenário internacional.
Não é possível entender as ações de Vladimir Putin no cenário sem que se atente para a visão de mundo esboçada pelo presidente russo. Putin não deve parar por aqui em seus anseios por território e por poder. Quando ele afirma que a Ucrânia é parte inalienável da Rússia, principal razão para o atual cenário de guerra em território ucraniano, Putin mostra a sua verdadeira face. Motivos como a potencial adesão ucraniana à União Europeia e à OTAN ficam em segundo plano. Putin opera em uma lógica muito particular, seu anseio pelo domínio de nações que ele considera parte integrante da Rússia histórica não respeita quaisquer sanções internacionais ou o próprio Direito Internacional. Putin está disposto a enfrentar qualquer obstáculo que possa atrapalhar o seu projeto de poder imperial.
As investidas de Putin na Europa, principalmente a recente invasão da Ucrânia, remetem às ações de um personagem cujas intenções e a ideologia muito se assemelham àquelas do Czar do século XXI. Em 1938, Adolf Hitler anexa a região dos Sudetos, na antiga Tchecoslováquia, sob o olhar de ingleses e franceses que preferiram manter a política do apaziguamento, achando que, ao agir desta forma, os anseios imperialistas hitlerianos seriam contidos. Para desespero dos europeus, em 1º de setembro de 1939, Hitler invade a Polônia dando início à Segunda Guerra Mundial. Os anseios de Hitler por território e poder não foram contidos pela passividade europeia no ano anterior. O horror da Segunda Guerra é um dos motivos por trás da inércia dos governos europeus em relação às ações imperialistas de Putin.
A Europa não quer saber de guerra. Além disso, há questões econômicas que impedem uma resposta mais assertiva por parte dos países europeus. A Europa está refém de Putin. Enquanto isso, ele avança em seu projeto imperialista. O único país capaz de confrontar Putin, os Estados Unidos, seguem numa linha de decadência na liderança internacional e preferem o caminho das sanções ineficazes ao invés de apresentar uma resposta mais enérgica. A OTAN mantém seu princípio de defesa, só se movimentará caso algum de seus membros seja atacado. Enquanto isso, a Ucrânia luta praticamente sozinha por sua soberania. A história costuma punir quem não atenta para suas lições, Putin precisa ser contido, seu projeto imperialista não pode prevalecer.
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63 anos não se constroem por acaso: a liderança por trás da longevidade empresarial

Por Ulana Bruehmueller
O brasileiro tem uma reconhecida vontade de empreender. Muitas empresas nascem pequenas, de um sonho, de uma oportunidade ou da necessidade de construir um futuro melhor. Começam com poucos recursos, muito trabalho e a esperança de crescer ano após ano.
Mas começar uma empresa é apenas o primeiro desafio. Fazê-la permanecer, atravessar gerações e continuar relevante é uma conquista muito maior.
No Brasil, poucas empresas alcançam mais de seis décadas de atividade. Ao longo do caminho, enfrentam obstáculos que vão do acesso ao crédito aos elevados custos de insumos, energia e produção, além da carga tributária, da insegurança jurídica e de uma logística ainda cara e ineficiente.
É nesse contexto que celebramos os 63 anos da Refrigerantes Marajá.
Mais do que uma data no calendário, este aniversário nos convida a uma reflexão: o que faz uma organização atravessar tantas transformações e permanecer relevante ao longo das gerações?
A qualidade dos produtos e a confiança dos consumidores são fundamentais. Mas longevidade também se constrói com liderança forte, propósito definido, valores consistentes e pessoas alinhadas em torno de uma mesma direção.
Ao longo de mais de seis décadas, a Marajá precisou se transformar inúmeras vezes. Cresceu, ampliou mercados, modernizou sua estrutura industrial, incorporou tecnologias, profissionalizou processos, fortaleceu sua governança e desenvolveu novas marcas e produtos.
Ao mesmo tempo, avançou em uma agenda de ESG cada vez mais consistente, compreendendo que responsabilidade ambiental e social, ética e boa governança não devem existir apenas no discurso. Precisam estar incorporadas à maneira como uma organização toma decisões e pensa no seu futuro.
Essa capacidade de evoluir sem perder a essência talvez seja uma das principais explicações para a longevidade de uma empresa.
E nenhuma transformação acontece sem pessoas.
Ao longo da minha carreira, aprendi que podemos definir estratégias, estabelecer metas, investir em tecnologia e modernizar processos, mas são as pessoas que transformam o planejamento em resultado. Por isso, o alinhamento da liderança e o comprometimento do time são fatores concretos de competitividade.
Estratégias mudam. Mercados mudam. Tecnologias evoluem. Gerações chegam com novas expectativas. Os valores, entretanto, permanecem como uma bússola, permitindo que a empresa se transforme sem perder sua identidade.
Tenho muito orgulho de ter dedicado mais de 30 anos da minha vida profissional à Marajá e de ter crescido junto com esta empresa. Foram décadas de desafios, crises, decisões, expansão, transformação e, acima de tudo, aprendizado.
Por isso, celebrar estes 63 anos é também agradecer.
Aos fundadores que tiveram a disposição de empreender. Aos acionistas, diretores e líderes que assumiram a responsabilidade de conduzir a empresa ao longo do tempo. Aos profissionais que passaram por aqui e deixaram sua contribuição. E aos que hoje continuam escrevendo esta história e preparando a Marajá para o futuro.
Depois de tantos anos na indústria, compreendo que uma das maiores responsabilidades de uma liderança não é apenas entregar os resultados do presente. É criar condições para que a organização continue crescendo e gerando valor para as próximas gerações.
Longevidade empresarial não é simplesmente resistir ao tempo. É atravessar gerações evoluindo sempre. Continuar olhando para frente e assumindo responsabilidade pelo futuro!
Ulana Maria Bruehmueller é CEO da Refrigerantes Marajá
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A cidade começa na calçada

Rodrigo Arruda e Sá
Quando pensamos em desenvolvimento urbano, quase sempre imaginamos grandes avenidas, viadutos, pontes ou obras de infraestrutura. Tudo isso é importante, mas existe um elemento muito mais presente na vida das pessoas e que, muitas vezes, passa despercebido: a calçada. É nela que a cidade realmente começa, porque é por ela que todos nós caminhamos antes de entrar em um carro, em um ônibus, em um comércio ou em uma praça.
A qualidade de uma cidade pode ser medida pela forma como ela trata o pedestre. É pela calçada que uma criança vai à escola, um idoso chega à farmácia, uma mãe empurra o carrinho do filho e um trabalhador segue até o ponto de ônibus. Quando esse espaço está esburacado, desnivelado, ocupado irregularmente ou simplesmente não existe, a cidade transmite uma mensagem clara: as pessoas deixaram de ser prioridade.
Não é preciso olhar para a Europa para encontrar bons exemplos. Curitiba transformou o cuidado com as calçadas em uma política permanente de urbanismo e acessibilidade. Maringá tornou-se referência nacional pela arborização, pela conservação dos espaços públicos e pela qualidade de seus passeios. Joinville e Blumenau também demonstram como calçadas bem cuidadas, praças limpas, iluminadas e bem conservadas tornam a cidade mais acolhedora para moradores, turistas e comerciantes.
Essas cidades compreenderam que desenvolvimento urbano não se resume a grandes obras. A qualidade de vida nasce dos espaços que as pessoas utilizam diariamente. Calçadas acessíveis, arborização, praças bem cuidadas, iluminação eficiente e limpeza permanente estimulam a convivência, fortalecem o comércio de rua, aumentam a sensação de segurança e fazem com que os moradores sintam orgulho da cidade onde vivem.
Em Cuiabá, infelizmente, ainda convivemos com uma realidade distante desse padrão. Além das calçadas interrompidas, desniveladas ou sem acessibilidade, muitas praças apresentam sinais evidentes de abandono.
A Praça Ipiranga, um dos espaços mais tradicionais da capital, frequentemente convive com acúmulo de lixo e mau cheiro, enquanto a Praça Popular, um dos principais pontos de encontro da cidade, além de estar coberta de lixo, sofre com a iluminação deficiente e manutenção insuficiente. Em vez de convidarem as famílias ao convívio, ao esporte e ao lazer, esses espaços acabam transmitindo uma sensação de descuido incompatível com a importância que têm para a vida urbana.
Como contador e empresário, aprendi que cidades agradáveis também são cidades economicamente mais fortes. O comércio prospera quando as pessoas caminham pelas ruas com conforto e segurança, frequentam as praças, permanecem mais tempo nos espaços públicos e ocupam naturalmente os centros comerciais. Investir nesses ambientes não é apenas uma política de urbanismo; é também uma política de desenvolvimento econômico.
É evidente que Cuiabá precisa continuar investindo em mobilidade, infraestrutura e transporte coletivo. Mas nenhuma dessas políticas produzirá resultados completos se esquecermos que toda viagem começa e termina a pé.
Antes de sermos motoristas, passageiros ou ciclistas, todos nós somos pedestres, e uma cidade que não acolhe quem caminha dificilmente será acolhedora para qualquer outro meio de transporte.
Talvez esteja na hora de ampliarmos o conceito de desenvolvimento urbano. Em vez de avaliar uma administração apenas pelo número de quilômetros de asfalto entregues ou pelas grandes obras inauguradas, deveríamos observar também a qualidade das calçadas, das praças e dos espaços públicos onde a vida realmente acontece.
Cuidar desses pequenos detalhes não é uma questão estética, mas uma demonstração de respeito ao cidadão e de compromisso com a qualidade de vida. Afinal, uma cidade verdadeiramente humana não se mede apenas pelo tamanho de suas avenidas, mas pelo cuidado com os lugares onde seus moradores caminham, convivem e constroem diariamente a sua história.
*RODRIGO ARRUDA E SÁ é contador, bacharel em Direito, empresário e ex-vereador de Cuiabá.
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