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O que esperar para o ano de 2021? De olho na ciência e inovação

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Daniel Minozzi

O ano de 2021 iniciou com uma expectativa de novos tempos, após um 2020 cheio de dificuldades causadas pela pandemia. Porém, apesar desse sentimento, ainda paira um grande nevoeiro na estrada, que gera um cenário duvidoso sobre o que está por vir nos próximos meses. Esse sentimento por dias melhores tem um fator alavancador: a ciência.

Uma coisa é certa: o momento de crise é um terreno muito fértil para o avanço da ciência. Ela traz inovação, novos produtos em diversos setores – incluindo os fármacos – e diversos atributos que podem ajudar a lidar com uma nova questão. Trazendo essa reflexão para o tema do coronavírus, a ciência permitiu a expansão da inovação para a criação de soluções que ajudem a nos proteger desse pequeno microorganismo que tem feito estragos tão grandes.

Essa contribuição tão significativa despertou ainda mais a atenção das pessoas em relação à ciência. As discussões se tornaram mais relevantes, já que ela passou a ser destaque na mídia. E a cada evolução, os consumidores estão ficando cientes sobre seu papel cada vez mais relevante nesse combate.

Em termos de avanços científicos, o ano de 2021 será um grande celeiro de novos produtos e soluções anti-Covid. No universo do mercado de micropartículas de prata, as embalagens inteligentes estão dando cada vez mais novos passos em termos de inovação. São itens que possuem propriedades antimicrobianas, o que permite a empresas e consumidores não terem a necessidade de se preocupar com a realização de assepsias todo o tempo. Isso vai trazer ainda mais segurança para as operações logísticas e também para o comércio varejista.

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Mas essa inovação é somente um dos elos importantes de todo o conjunto de combate que estamos construindo atualmente para reduzir cada vez mais a contaminação do Sars-Cov-2. A proteção tem que ser pensada como um todo. Já temos alguns protocolos de segurança, como a adoção de máscaras – hoje algumas feitas com tecidos anti-Covid – higienização das mãos, distanciamento social. Mas ainda precisamos avançar muito mais. E, nesse sentido, entram as vacinas, uma das grandes conquistas de 2021.

O Brasil hoje assiste a vários países do mundo darem um exemplo da importância do investimento em ciência e inovação. Nações como o Canadá, por exemplo, neste momento já adquiriram dez doses de vacina por habitante – quantidade mais do que suficiente para imunizar a sua população, garantindo que ninguém fique sem esse direito. Israel já está com uma grande porcentagem de sua população vacinada. A Inglaterra segue utilizando a vacina produzida pela Universidade de Oxford. Os Estados Unidos já investiram mais de US$ 10 bilhões para o desenvolvimento de vacinas – somente a Moderna, empresa americana de biotecnologia, recebeu mais de US$ 480 milhões. Já a União Europeia, mais de 500 milhões de euros.

Enquanto isso, em nosso país, impasses políticos impedem que hoje estejamos no mesmo compasso desses mercados. Os recursos destinados à ciência foram deslocados para outras finalidades e hoje há uma forte pressão de todos os lados – política, economia e da própria sociedade – para que a vacina chegue o quanto antes a todos com o maior índice de proteção possível. O Brasil não investiu nem no Instituto Butantan, que trouxe a primeira vacina brasileira. Não adianta querer ter uma McLaren se o dinheiro é para comprar um Fusca.

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Nada disso é possível se não há um investimento prévio em ciência. Inovação não nasce do dia para a noite, pois a ciência é complexa. Envolve a realização de inúmeros estudos, testes, aplicações, etc, que não são feitas em um curto prazo de tempo. E os pesquisadores estão diante da realidade de ter que desenvolver vacinas contra a Covid-19 em tempo recorde e é algo que deve ser reconhecido, pois hoje temos vacinas com mais de 90% de eficácia de proteção disponíveis no mundo.

Para se ter ideia, a vacina contra hepatite B demorou 16 anos para ser desenvolvida; para o vírus HPV, 25 anos; para o sarampo, 9 anos. Isso mostra que o investimento em uma vacina, como a da Covid-19, nunca teve tanta força. Muitos líderes estão sendo formados por conta dessa decisão, da mesma forma que muitos estão perdendo seu cargo por esse fato.

Os próximos meses serão cruciais para a imunização da população brasileira e do mundo. Por aqui, estamos vendo um norte cada vez mais cheio de névoas, com a falta de insumos, um grande número de pessoas furando a fila, a falta de critérios claros e programação para a imunização dos grupos. Mais do que nunca, é preciso agir para que um grande volume de pessoas seja vacinada em um menor prazo de tempo possível.

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Além da vacinação, das máscaras, do isolamento social e das vacinas é preciso olhar para a questão estrutural da qualidade de vida das pessoas, o saneamento básico e a segurança no transporte público. Não podemos focar somente em um aspecto – no caso, a vacinação. Quando ela terminar, o que iremos deixar de legado? Uma campanha de imunização ou uma população com uma condição de vida melhor?

*Daniel Minozzi é químico, mestre em ciências de materiais pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e fundador e Diretor da Nanox, empresa especializada em nanotecnologia.

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Saúde mental: urgência pública que exige ação e acolhimento

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*Irajá Lacerda

A saúde mental deixou de ser uma preocupação silenciosa e se consolidou como uma das grandes urgências públicas do Brasil. Em 2025, a Previdência Social concedeu o impressionante número de 546.254 benefícios por incapacidade temporária devido a transtornos mentais e comportamentais, o que representa uma alta de 15,66% em relação ao ano anterior. Transtornos ansiosos e episódios depressivos lideram os afastamentos, revelando um país emocionalmente adoecido.

O cenário nacional dialoga com os dados mais recentes da Organização Mundial da Saúde, divulgados no final 2025, que apontam que mais de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais no mundo. A OMS também estima que depressão e ansiedade custem à economia global cerca de US$ 1 trilhão por ano em perda de produtividade. Essa realidade ganhou ainda mais atenção no Brasil com a atualização da NR-1, que passou a incluir os fatores de risco psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, reforçando que a pressão no ambiente de trabalho e o esgotamento profissional exigem prevenção, responsabilidade e acolhimento.

Esses números não são apenas estatísticas. Por trás de cada linha há uma mãe exausta, um trabalhador no limite ou um jovem sofrendo em isolamento. Dados oficiais do IBGE em 2026, por meio da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), revelam que cerca de três em cada dez estudantes entre 13 e 17 anos relataram sentir tristeza frequente, 18,5% disseram sentir que a vida “não vale a pena ser vivida” e 32%  afirmaram ter sentido vontade de se machucar de propósito.

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O impacto vai além do ambiente escolar: estudos do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM) apontam que o tratamento de jovens com transtornos mentais chega a comprometer metade da renda das famílias na busca por apoio. O cenário exige que família, escola, assistência social e saúde atuem de forma integrada para acolher crianças e jovens antes que a dor vire tragédia.

Em Mato Grosso, esse desafio também precisa ser encarado de frente. Em 2025, o estado registrou 5.556 afastamentos temporários por transtornos mentais e comportamentais, segundo a Previdência Social. Não adianta ostentarmos indicadores econômicos grandiosos se as nossas famílias sofrem desamparadas, sem acesso adequado a psicólogos, psiquiatras e tratamento contínuo. O desenvolvimento econômico perde o sentido se não vier acompanhado da dignidade humana.

Para mudar essa realidade no nosso estado, a ação precisa ser descentralizada. É urgente expandir os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) para o interior, garantindo que o morador de qualquer município tenha o mesmo direito ao cuidado que quem vive na capital. Além disso, precisamos estruturar programas de apoio emocional permanentes dentro das escolas estaduais, capacitando professores para identificar os primeiros sinais de crise em crianças e adolescentes, e criar parcerias com o setor privado para aplicar a NR-1 de forma humana e acolhedora.

Cuidar de pessoas significa olhar para aquilo que as grandes obras e os discursos políticos tradicionais ignoram. É enxergar a dor de quem não consegue pedir socorro e garantir que o orçamento público priorize a vida. O Brasil e Mato Grosso precisam transformar a saúde mental em prioridade absoluta. Uma sociedade só é verdadeiramente rica e desenvolvida quando protege sua gente, oferecendo a cada cidadão a oportunidade e o amparo necessários para viver bem e com dignidade.

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*Irajá Lacerda é ex-secretário executivo do Ministério da Agricultura e Pecuária e ex-presidente da Comissão de Direito Agrário da OAB-MT

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Governança jurídica: empresas fortes dependem de segurança institucional

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DAUTO PASSARE

Empresas não crescem apenas por eficiência operacional ou capacidade financeira. Crescem porque conseguem planejar — e o planejamento depende de estabilidade institucional, previsibilidade regulatória e segurança jurídica.

O desenvolvimento econômico está diretamente ligado à confiança que empresários e investidores possuem nas instituições. Quando as regras mudam constantemente, os contratos se tornam inseguros e o ambiente regulatório é instável, o impacto atinge toda a economia.

O Brasil ainda convive com elevada complexidade jurídica, excesso de judicialização e insegurança tributária. Dados do Conselho Nacional de Justiça mostram que o país mantém dezenas de milhões de processos em tramitação, refletindo um cenário de intensa litigiosidade.

Nesse contexto, a governança jurídica deixou de ser apenas uma função técnica e passou a ocupar posição estratégica dentro das empresas.

Empresas sólidas dependem de estruturas capazes de prevenir riscos, organizar relações societárias, garantir segurança contratual e antecipar conflitos regulatórios e tributários.

A advocacia contemporânea exerce justamente esse papel: não apenas atuar em crises já instaladas, mas contribuir para a construção de estabilidade e segurança dentro das organizações.

A ausência de segurança jurídica produz efeitos silenciosos, mas profundos: investimentos são adiados, projetos deixam de avançar e o custo operacional aumenta.

Por outro lado, ambientes institucionalmente estáveis favorecem crescimento sustentável, inovação e expansão econômica.

No agronegócio e no setor empresarial, especialmente, previsibilidade regulatória e segurança contratual tornaram-se elementos indispensáveis para o desenvolvimento dos negócios.

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Mais do que uma questão técnica, a segurança jurídica é hoje um ativo econômico.

Empresas fortes precisam de instituições fortes — e a advocacia estratégica tem papel fundamental na construção desse ambiente de estabilidade e confiança.

*é advogado, professor universitário e sócio-fundador do escritório Passare Advocacia em Cuiabá

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Pejotização da medicina: o lucro de poucos e a precarização da profissão médica

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Dr. Adeildo Lucena

A medicina brasileira atravessa uma das maiores transformações da sua história profissional. O que antes era uma carreira associada à estabilidade, autonomia técnica e valorização social vem sendo substituído por um modelo de contratação marcado pela precarização, insegurança jurídica e perda de direitos. O nome desse processo é pejotização.

Hospitais, clínicas, organizações sociais e grandes grupos privados de saúde passaram a substituir vínculos formais por contratos de pessoa jurídica (PJ), obrigando médicos a abrirem empresas para poder trabalhar. Na prática, muitos profissionais continuam submetidos à mesma rotina de um empregado comum — com escala fixa, subordinação, metas e plantões obrigatórios —, mas sem férias, sem 13º salário, sem FGTS, sem licença médica e sem aposentadoria adequada.

A chamada “flexibilização” virou, na realidade, um mecanismo de redução de custos para o sistema privado de saúde.

Dados recentes mostram a dimensão desse fenômeno. Estudo citado por pesquisadores da FGV aponta que a pejotização no Brasil já provocou perdas entre R$ 89 bilhões e R$ 144 bilhões aos cofres públicos desde a reforma trabalhista de 2017. A diferença ocorre porque trabalhadores contratados como PJ recolhem muito menos tributos e contribuições previdenciárias do que empregados regidos pela CLT.

O próprio  Conselho Federal de Medicina reconheceu que empresas utilizam a pejotização para economizar recursos, transferindo riscos aos profissionais e comprometendo as condições de trabalho. Durante debate nacional promovido pelo CFM, representantes da medicina do trabalho alertaram que médicos terceirizados vêm sendo colocados para exercer funções fora de suas atribuições e sem garantias mínimas de proteção profissional.

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Ao mesmo tempo, o Brasil vive uma explosão no número de profissionais. A pesquisa “Demografia Médica 2025”, conduzida pela Faculdade de Medicina da USP em parceria com o Ministério da Saúde e a Associação Médica Brasileira, aponta que o país já ultrapassou a marca de 635 mil médicos ativos, com previsão de crescimento contínuo nos próximos anos.

Esse aumento da oferta de mão de obra, somado à expansão agressiva de grandes conglomerados privados da saúde, criou um ambiente de forte pressão econômica sobre os médicos, especialmente os mais jovens. Muitos recém-formados entram no mercado já obrigados a abrir CNPJ antes mesmo do primeiro plantão.

Sem direitos trabalhistas, milhares de médicos enfrentam jornadas exaustivas, insegurança previdenciária e ausência completa de estabilidade. Há profissionais trabalhando anos seguidos sem férias remuneradas, sem cobertura em caso de afastamento por doença e sem qualquer proteção em situações de maternidade ou incapacidade laboral.

O problema ultrapassa a questão corporativa. A pejotização também afeta diretamente a qualidade da assistência prestada à população.

A lógica empresarial da redução de custos transforma o médico em mera peça operacional dentro de uma cadeia financeira controlada por grupos econômicos. O profissional passa a viver sob pressão de produtividade, metas de atendimento e redução do tempo de consulta. A medicina perde seu caráter humanizado e se aproxima perigosamente de um modelo industrial.

Os grandes grupos econômicos lucram. Os planos de saúde ampliam faturamento. As organizações privadas reduzem encargos. Mas o médico perde segurança, perde autonomia e perde dignidade profissional.

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O mais grave é que esse modelo vem sendo naturalizado.

Criou-se uma falsa ideia de que direitos trabalhistas seriam privilégios ultrapassados. Não são. São garantias mínimas de proteção humana e profissional.

Defender relações de trabalho dignas não significa negar novas formas de contratação. Significa impedir abusos e preservar condições mínimas para o exercício ético da medicina.

O Sindicato dos Médicos de Mato Grosso entende que o debate sobre a pejotização precisa deixar os bastidores jurídicos e ganhar dimensão pública. A sociedade precisa compreender que precarizar o trabalho médico também significa fragilizar o atendimento à população.

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